
Atlanta, EUA* — A popularização das “canetas” para obesidade e diabetes é um fenômeno novo, mas a história por trás do desenvolvimento desses medicamentos começou na década de 1990, com uma equipe de cientistas na Dinamarca que identificou o peptídeo GLP-1 e desenvolveu análogos, isto é, substâncias que imitam a ação desse hormônio intestinal produzido naturalmente após a alimentação para regular a glicose no sangue e aumentar a saciedade.
Entre os pesquisadores estava Lotte Bjerre Knudsen, integrante da equipe da Novo Nordisk que transformou o GLP-1, que tem ação curta, em uma molécula de efeito prolongado. Esse avanço deu origem a medicamentos que revolucionaram o tratamento do diabetes e da obesidade: a liraglutida (vendida sob as marcas Victoza e Saxenda) e a semaglutida (Ozempic e Wegovy).
Hoje, a Novo Nordisk é uma das empresas mais valiosas do mundo por conta desses medicamentos, conhecidos pelo alto potencial de induzir a perda de peso. Décadas atrás, porém, o desenvolvimento das drogas para obesidade não era a aposta principal da farmacêutica.
“Um CEO dizia ‘eu não acredito no tratamento da obesidade, mas meus cientistas acreditam’”, contou Lotte durante o congresso de obesidade americano ObesityWeek 2025, em Atlanta.

As pesquisas de Lotte e seus colegas deram origem à liraglutida, a primeira classe de análogos de GLP-1 a ser comercializada, primeiramente para diabetes e depois para obesidade. A liraglutida tem duração de cerca de 24 horas, por isso sua aplicação é diária.
Posteriormente, a farmacêutica desenvolveu a segunda geração desses análogos de GLP-1, uma molécula ainda mais promissora para o diabetes e a perda de peso: a semaglutida. Responsável pela recente fama das canetas, o medicamento tem uma meia-vida de sete dias e, portanto, é usado em aplicações semanais.
Ao Estadão, a cientista revelou sua surpresa com a quantidade de pessoas que buscam os remédios. A alta demanda chegou a superar a capacidade de produção da farmacêutica, levando a momentos de escassez.
Também afirmou que as descobertas “só estão começando”. A ciência ainda tem muito a descobrir sobre outros mecanismos de funcionamento dos análogos de GLP-1 e sobre a obesidade em si.
“(Precisamos) compreender outros tipos de efeitos potenciais (do GLP-1) no cérebro, como no vício e nas doenças neurodegenerativas. Não temos evidências de que realmente funcione, mas temos hipóteses de que poderia ser muito interessante experimentar”, disse Lotte, atualmente conselheira científica chefe e diretora da área de Inovação e Avanço da Experimentação de Dados da Novo Nordisk, onde trabalha há 35 anos.
Veja a entrevista completa:
Como ocorreu a descoberta dos análogos de GLP-1 e qual o maior desafio científico que você e sua equipe tiveram de superar para tornar as moléculas clinicamente viáveis para medicamentos?
Essa história remonta à década de 1990, quando começamos a trabalhar com o GLP-1. Tentamos várias abordagens diferentes que não funcionaram porque o GLP-1 natural é um hormônio com ação muito curta, de cerca de dois minutos, e precisávamos fazer algo para torná-lo um medicamento viável (com ação prolongada). Tivemos três programas que falharam antes do que realmente acabou funcionando, então esse foi o primeiro desafio. Descobrimos como poderíamos realmente prolongar sua duração pegando um pequeno ácido graxo e anexando-o ao peptídeo GLP-1. Naquela época, era algo muito novo, e agora todos estão usando uma metodologia semelhante. Conseguimos até mesmo fazer uma molécula de segunda geração, que acabou sendo ainda melhor, especialmente no que diz respeito ao potencial de perda de peso.
A molécula foi projetada inicialmente para diabetes e agora é famosa pela perda de peso. Como você e sua equipe perceberam que era possível usar os medicamentos para além do controle da glicose?
Na verdade, o análogo de GLP-1 não foi desenvolvido inicialmente apenas para diabetes. Foi realmente uma tentativa estratégica desde o início. Já em 1996, tínhamos revistas importantes publicando artigos sobre o GLP-1 e o cérebro, e como a molécula também é um neurotransmissor. Então, estrategicamente, colocamos nossas moléculas em desenvolvimento clínico para diabetes e também para obesidade. Mas leva tempo para passar por todas as etapas do desenvolvimento. Por isso, os medicamentos acabaram sendo aprovados para obesidade alguns anos depois de terem sido aprovados para diabetes.
Mas a ideia sempre esteve lá, com base em uma ciência totalmente separada. Quando falamos de diabetes, o GLP-1 atua sobre a insulina, o glucagon (hormônio que aumenta os níveis de glicose no sangue) e o esvaziamento gástrico. Quando falamos sobre obesidade, o GLP-1 atua no cérebro, ajuda as pessoas a comerem menos, aumenta a sensação de saciedade e diminui a sensação de fome, além de fazer com que as pessoas comam de maneira diferente, pois há um efeito no sistema de recompensa. E o (efeito descoberto) mais recentemente é que ajuda as pessoas com food noise (ruído alimentar).
Existe um grupo de pessoas usando a medicação para fins estéticos. Qual a sua opinião sobre esse tipo de uso?
Eu passei toda a minha carreira elaborando a documentação sobre como esses medicamentos funcionam e ajudei a obter sua aprovação (nas agências reguladoras) juntamente com muitos colegas brilhantes em todo o mundo. Então, é claro que acho isso errado. As pessoas somente devem ter acesso aos medicamentos prescritos quando cumprirem todos os requisitos listados na bula do país em questão.
Como foi o processo regulatório das terapias de GLP-1? Quais foram as discussões difíceis e os momentos de incerteza?
Os processos regulatórios diferem em cada país. Estou baseada na Europa, mas também tenho estado muito envolvida nas discussões com a FDA (agência americana semelhante à Anvisa). Para a indicação do tratamento de diabetes, tivemos muitas discussões sobre qual o mecanismo, a eficácia. O desfecho primário é a redução da glicose e, mais tarde, adicionamos a indicação cardiovascular, então em muitos lugares do mundo também é possível tratar pessoas com diabetes para obter os benefícios cardiovasculares sem necessariamente ter um efeito sobre a glicemia, porque é indicado para controle cardiovascular e redução de risco.
Quando se trata de obesidade, o desfecho primário é a perda de peso e, novamente, temos o benefício cardiovascular, mas isso é apenas com uma das moléculas da classe. Passamos a disponibilizar nossa molécula de segunda geração em uma formulação oral, ou seja, um comprimido de um medicamento biológico, o que é bastante único, e novamente tivemos de fazer toda uma série de estudos mostrando como isso funciona, que é seguro.
Existe algum mecanismo de funcionamento dessas moléculas que ainda lhe deixa curiosa?
Eu estou muito curiosa, ainda há muitas coisas que não sabemos. Não sabemos muito sobre quais neurônios e quais partes do cérebro o GLP-1 afeta. Ele atua em muitos lugares do cérebro e tem como alvo vários mecanismos diferentes, tanto de regulação homeostática do apetite, pela fome e saciedade, quanto de recompensa, relacionado ao que você come e o quanto gosta do que come. Mas não sabemos muito sobre isso. Essa é uma área muito empolgante.
Clinicamente, ainda precisamos entender se existem diferentes categorias de pessoas com obesidade. Algumas pessoas talvez tenham subtipos de genes que as tornam mais suscetíveis à alimentação hedônica, outras podem ser mais impulsionadas pela fome.
Precisamos também compreender outros tipos de efeitos potenciais (desses medicamentos) no cérebro, como no vício e nas doenças neurodegenerativas, mas essa é uma área em que temos muito menos evidências. Não temos evidências de que realmente funcione, mas temos hipóteses de que poderia ser muito interessante experimentar.
Qual é a sua aposta em relação às descobertas e inovações nessa área? Há moléculas que poderiam ser o “próximo GLP-1″, algo que poderia redefinir o tratamento para obesidade e doenças metabólicas?
Acho que o GLP-1 redefiniu o tratamento da obesidade e das doenças metabólicas. Estamos na ObesityWeek aqui em Atlanta e, olhando para trás, há 10 anos, este era um congresso completamente diferente, porque havia uma necessidade não atendida. O GLP-1 mudou isso. Agora existe uma opção que é ainda mais empolgante, com todos esses benefícios adicionais. É difícil dizer se haverá outros mecanismos semelhantes. Seria preciso um pouco de sorte.
Como sabemos, há algumas coisas em desenvolvimento clínico. Sabemos que existem os mecanismos baseados na amilina e calcitonina, os mecanismos do GIP (peptídeo insulinotrópico dependente de glicose), os mecanismos baseados no glucagon, mas eles não foram aprovados (pelas agências reguladoras) e precisamos ver muito mais evidências antes de podermos falar sobre o que eles farão.
Então, acho que ainda devemos comemorar o GLP-1, porque é onde realmente vemos o desenvolvimento para cada vez mais perda de peso e cada vez mais benefícios adicionais surgindo. E devemos entender a doença muito melhor, há muito a ser feito em todo o mundo — como a composição genética pode ser diferente em outras populações étnicas, se existem diferenças em como podemos ajudar os homens em comparação com as mulheres, diferenças relacionadas à idade…

Existem alguns medicamentos que estão sendo estudados para prevenir a perda de massa magra, que é um dos efeitos da semaglutida e de outros remédios que promovem a perda de peso. São promissores?
Citando uma pesquisa (apresentada no congresso) que não foi minha, o nível de perda de massa magra com os medicamentos análogos de GLP-1 é muito menor do que às vezes se pensa ou se escuta. Quando se perde peso, e quanto mais rápido se perde peso, sempre se perde massa magra. Todos esses medicamentos para o tratamento da obesidade ou controle de peso exigem que você faça exercícios. Obviamente, isso pode ser difícil para muitos, então sempre haverá alguma perda de massa magra com a perda de peso. Não há especificidade nesse mecanismo porque não há receptores GLP-1 no tecido muscular, então é apenas o que acontece com (qualquer) perda de peso. Dito isso, há ideias investigativas sendo testadas e elas podem realmente ter um efeito para ajudar a aumentar a massa magra. No entanto, elas teriam que passar por toda a fase de desenvolvimento clínico. Ainda vai levar anos e elas teriam que ser comprovadas como seguras, porque sempre houve algumas preocupações em torno da segurança de se aumentar a massa magra.
A demanda global por esses medicamentos aumentou, mas ainda há uma grande lacuna de acesso, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil, onde muitos pacientes que poderiam se beneficiar dos tratamentos para obesidade e diabetes não têm condições de adquirir esses remédios. Os preços são altos e a demanda excede a oferta. Como você enxerga os desafios éticos e práticos de garantir maior acesso a esses tratamentos?
Todos ficamos um pouco surpresos com a quantidade de pessoas que realmente queriam esses medicamentos, e leva anos para construir novas fábricas. Mas temos uma situação muito melhor em relação ao abastecimento agora. Quando você olha para trás, os medicamentos para baixar a pressão arterial e o colesterol também foram usados inicialmente para a população com maior mortalidade e, quando eles foram mais bem estudados e perderam a patente, houve espaço para um uso mais amplo. Acho que será o mesmo para os medicamentos para obesidade porque esse é o modelo de negócios da indústria farmacêutica: precisamos ter o direito sobre nossas próprias invenções por algum tempo e, posteriormente, você pode ter esse uso mais amplo.
Mesmo com a ampliação de fábricas e queda da patente, é uma tecnologia de alto custo. No futuro, podemos ter um cenário em que a obesidade se torne uma doença apenas de pessoas sem recursos financeiros, que não podem pagar por esses medicamentos?
Não parece ser apenas uma doença dos pobres, parece ser um problema que temos na sociedade, onde de certa forma nos preparamos para o fracasso porque temos um ambiente alimentar que não ajuda o indivíduo. Temos muitos alimentos processados, temos comida em todo o lado, há um Starbucks em cada esquina aqui nos EUA. Estamos consumindo calorias demais e fomos geneticamente projetados para viver em cavernas e ter muita dificuldade em encontrar comida e proteger nossa família. Não estamos em uma sociedade que realmente se encaixa com nossa composição genética. Na minha opinião, esse é o problema e talvez precisemos que muitos países tenham uma conversa sobre isto: como estamos tornando a sociedade inclusiva e saudável para todos?
Temos dados sobre a segurança dos medicamentos análogos de GLP-1 no curto prazo, mas ainda não houve tempo suficiente para analisar os efeitos de longo prazo e há dúvidas sobre as consequências para o corpo e o cérebro no futuro. Quais são as principais incertezas, particularmente em relação à segurança?
Acho que temos muitos dados. Esses medicamentos estão no mercado desde 2005, quando o primeiro remédio análogo de GLP-1 foi aprovado. Especificamente para a nossa segunda geração de análogos de GLP-1 (semaglutida), temos dados de 43 mil pessoas em ensaios clínicos e temos milhões de pessoas expostas se olharmos para o cenário do mundo real. Em alguns dos ensaios mais longos que temos, de até cinco anos com até 20 mil pessoas, temos registros muito detalhados de como eles funcionam. Então, na verdade, temos uma classe de medicamentos muito bem descrita, com benefícios para o sistema cardiovascular, para o fígado, para o coração, para os rins, para o cérebro, bem como o perfil de segurança desses medicamentos.
*A repórter viajou para a ObesityWeek 2025 a convite da Novo Nordisk.
Fonte: Estadão