12 Jun 2023 LUIZ GUILHERME GERBELLI
“Há disposição para reindustrializar o País, mas usando medidas do passado. E não tem motivo para imaginar que dessa vez vai ser diferente. Lembra muito o Mantega. Quem gritava mais levava”
Ex-diretor do Banco Central (BC), Alexandre Schwartsman está pessimista com o futuro da economia brasileira. Ele não vê o arcabouço fiscal como algo capaz de resolver o problema das contas públicas do
País e enxerga retrocesso na condução da política econômica com a tentativa, por exemplo, de mudar o marco do saneamento e os ataques do governo ao BC. “Isso não vai terminar bem. É uma reprise do segundo governo Lula e do governo Dilma com condições internacionais piores do que as enfrentadas naquele período.”
Em relação aos anúncios do governo para o setor industrial, Schwartsman também vê problemas. Ele afirma que todas as medidas pensadas foram usadas no passado, como subsídio e proteção, mas que fracassaram. “Lembra muito o Mantega (Guido Mantega, ministro da Fazenda nos governos Lula e Dilma). Quem gritava mais levava.” A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como o sr. analisa os primeiros sinais deste começo de governo?
De maneira geral, são ruins. Não diria que é inesperado. Eu acho que a gente tem algumas dimensões importantes, começando pela mais óbvia, que é a questão fiscal. Apesar de o mercado ter reagido positivamente à aprovação do arcabouço, eu acho ruim. O arranjo que ele produz é pior do que o que tínhamos com o teto de gastos. Eu entendo que o mercado sempre compara a alternativa, que era não ter nada. É mais ou menos como envelhecer. Envelhecer é ruim, mas a alternativa é muito pior. Eu acho que acabam encarando dessa forma.
O sr. não está otimista com o arcabouço, então?
Não consigo ficar otimista. Primeiro, porque dificilmente ele (arcabouço) entrega a trajetória de gasto público previsto, intervalo entre 0,6% e 2,5%, porque a gente não está mexendo na estrutura de gasto obrigatório. Na verdade, ela piorou.
E sobre a proposta do governo para o setor industrial, qual é a avaliação do sr.?
Há disposição de reindustrializar o País, mas usando medidas do passado. E não tem motivo para imaginar que dessa vez vai ser diferente. Então, a gente está vendo o BNDES mostrando as garras. Já tem ali todo mundo babando em cima de o que poderiam ser os prováveis novos subsídios. Não tem nenhuma medida que a gente tenha tentado no passado e que não tenha fracassado, de subsídio, proteção e, agora, a história dos automóveis. Lembra muito o Mantega. Quem gritava mais levava.
Como assim?
É tudo meio atirando. O presidente falou que o carro precisa ficar mais barato. Bacana, vamos reduzir o preço do automóvel. Você vê que a coisa é toda mal pensada. E fora o ataque ao marco do saneamento, à privatização da Eletrobras, a recusa em se engajar em comércio internacional e os ataques ao BC. Isso não vai terminar bem. É uma reprise do segundo governo Lula e do governo Dilma com condições internacionais piores do que as enfrentadas naquele período.
Vai haver uma piora de percepção de risco com a economia brasileira, então?
Vai haver uma piora, com juro longo mais alto, dólar mais caro. De maneira geral, é o caminho que a gente deve seguir.
O relatório do grupo de trabalho da reforma tributária foi apresentado. Qual é a avaliação do sr.?
Não é a ideal. O ideal é que fosse um IVA só, mas, nesse caso, um IVA dual é muito melhor do que o que temos hoje. A proposta traz um avanço considerável em várias dimensões, como na redistribuição de carga entre setores. Tem uma série de coisas que eu acho positivas e que, pelo que entendi do projeto, vão seguir, mesmo que se possa fazer ressalvas para questões de tratamento diferenciado para setores. Se for aprovado, é muito bom.
Essa reforma não pode mudar o cenário?
Vamos pôr em perspectiva. Quando esse negócio entra em vigor? Vai precisar de mais um ano para regulamentar a reforma toda. Não estou dizendo que não vão conseguir. Estou só dizendo que vai precisar de mais tempo e sabe-se também que você não vai desligar a chave dos atuais impostos e ligar a chave do imposto novo numa tacada só. Não vai ser um processo tão rápido. As vantagens vão aparecer num horizonte de mais de cinco anos. Ele (o projeto) é muito bom, tem de fazer, nada contra, mas não vai gerar milagre. •
Fonte: O Estado de S. Paulo
