Por Adriana Cotias — De São Paulo
31/03/2023 05h04 Atualizado há 4 horas
A apresentação do novo plano fiscal pelo ministro da Economia, Fernando Haddad, pode ser um gatilho poderoso para a bolsa brasileira, especialmente se o equacionamento das contas públicas andar em paralelo com a reforma tributária. Segundo Alexandre Steinberg, sócio-fundador da gestora de ações Skade Capital, a partir do momento em que o arcabouço traz uma trajetória de dívida descendente, já é suficiente para os investidores fazerem contas e buscarem valor na renda variável. “Se a convergência for rápida ou devagar, está bom, mas que seja descendente. Todo mundo está esperando isso, inclusive o Banco Central.”
Com projeções de inflação ainda escapando da meta, se o ajuste não vier pelo controle das contas públicas, virá pela redução da atividade, o que permitirá ao BC cortar os juros, ou seja, o relaxamento “vem pelo motivo certo ou errado”, afirma Eduardo Cortez, sócio-fundador da Skade.
Os gestores veem verdadeiras barganhas na bolsa, de companhias que tiveram que se adaptar à rápida mudança de cenário, com a Selic saindo de 2% durante a pandemia de covid-19, para os 13,75% atuais.
“Há muitos exemplos na bolsa, cujos diretores financeiros fizeram um trabalho sensacional de redução da dívida, repactuação e rolagens para garantir a liquidez das empresas, e muitas das nossas investidas vão colher os frutos de uma situação de caixa mais confortável, ninguém abre mão disso”, prossegue Cortez. “Mesmo que o crescimento não seja super acelerado, uma eventual redução da taxa de juros, senão no segundo semestre de 2023, no primeiro de 2024, vai ter um impacto forte em algumas companhias que já fizeram tudo na gestão de passivos.”
Guararapes, dona da Riachuelo, a fabricante de reboques e carretas Randon e a de componentes automotivos Iochpe Maxion são alguns dos nomes que compõem a carteira.
No ambiente externo, a transição de economias desenvolvidas rodando com taxas negativas ou próximas de zero, para uma situação normal, com juros, a elevação para 4% a 5% nos Estados Unidos, em apenas 18 meses, se compara ao movimento de “uma placa tectônica, que vai produzir terremotos”, diz Gustavo Aranha, sócio da Geo Capital, casa dedicada a ações globais. “Temos visto alguns desses terremotos, houve um momento na Inglaterra em que os fundos de pensão quase quebraram por uma questão técnica, reflexo da alta de juros nos bonds; no segmento de criptos teve companhia indo à falência e agora alguns eventos relevantes, com o Credit Suisse sumindo como o maior deles.”
Olhando adiante, ele diz que o mais importante é avaliar quais os modelos de negócios, num mundo de juros entre 4% e 6%, que mesmo crescendo eventualmente menos, continuam sendo bons. “Estamos no meio desse movimento, muita coisa caiu na bolsa lá fora, tem companhia barata que já subiu um monte, é um momento de muita incerteza”, diz Aranha. “O cuidado é olhar para a qualidade das empresas e o valor dessas companhias para frente num cenário mais desafiador do que foi nos últimos 15 anos.”
Se o quadro para os próximos seis a oito meses é ainda nebuloso, num horizonte mais longo, há chances de capturar ganhos ao selecionar agora empresas que vão se sair muito bem. “Tem companhia que no preço de hoje é muito boa para investir se deixar numa gaveta por três a cinco anos. Há o desafio de convencer o cliente a ter esse olhar, mas esse é o segredo de se ganhar dinheiro com renda variável. Existem bons negócios e é preciso deixar o tempo trabalhar a favor.”
Na carteira, a Geo tem hoje nomes como Alphabet, a dona do Google, Visa, a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, Booking.com e a CBOE, a bolsa de futuros de Chicago. “São várias companhias dominantes em seus setores a preços e valuations muito atrativos.”
Para Ruy Alves, gestor de fundos macro global da Kinea, deve levar algum tempo para as ações se valorizarem lá fora, porque as projeções de lucros das companhias tendem a ser revisadas para baixo, com o freio econômico que se desenha. “Nem acho que haja uma crise bancária aguda, que vá quebrar um banco por semana, mas passa a ser crônica porque o Fed [banco central dos EUA] está tirando depósitos do sistema, o ‘quantitative tightening’ faz isso e gradualmente e vai apertar o crédito, cercear as emissões [de dívida].”
Fonte: Valor Econômico

