Por Marcos de Moura e Souza — De São Paulo
16/05/2023 05h00 Atualizado há 5 horas
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As novas medidas da Argentina para tentar conter a disparada inflacionária foram recebidas ontem com ceticismo por analistas. A avaliação é que os efeitos serão limitados, que são tomadas por um governo que se vê espremido por uma inflação de 109% ao ano e por uma eleição presidencial marcada para outubro. Segundo as pesquisas de intenção de voto, a oposição terá um caminho aberto para surfar na insatisfação dos argentinos com a deterioração da economia.
Numa reação aos últimos dados de inflação que vieram mais altos do que o esperado, o Banco Central da Argentina promoveu ontem um nova alta da taxa básica de juros, de 91% para 97%. Em abril, a alta tinha sido ainda mais forte: dez pontos percentuais.
O BC também passou a intensificar suas intervenções no câmbio. Nas ruas de Buenos Aires, no entanto, o movimentado mercado informal da moeda americana seguiu sua toada de alta: o chamado dólar blue subiu ontem 9% para 483 pesos.
“Num momento de emergência são medidas corretas, mas não solucionam o problema a médio e longo prazos”, aponta Esteban Fernández Medrano, analista na Argentina da consultoria Global Source Partners, com sede em Nova York. “Medidas mais contundentes são difíceis de serem tomadas num momento que a credibilidade do governo vai se reduzindo”, acrescenta ele. Medrano diz ainda que agora o ministro da Economia, Sergio Massa, estaria pensando a aceitar a necessidade de um ajuste fiscal mais forte. “Mas essa visão chega muito tarde, a poucos meses da eleição. Lembra um pouco o governo Macri em seu último ano, que fez um esforço para melhorar as contas fiscais, algo que deveria ter feito antes.”
O economista Dante Sica, sócio-fundador da consultoria argentina Abeced e ministro da Produção no governo Mauricio Macri (2015-2019), diz que o país ruma para um quadro de estagflação, com os preços subindo ao ritmo superior a 100% ao ano e uma atividade econômica prevista para avançar apenas 0,2% este ano. Para Sica, as novas medidas tratam meramente dos sintomas dos males que afligem a economia. “Nenhuma das medidas [que entraram em vigor ontem] tende a solucionar os desequilíbrios e as causas que geram esses desequilíbrios. São todas as medidas de contenção para poder superar a ausência de dólares”, diz ele. “Para poder corrigir esse quadro, será necessário um programa de estabilização macroeconômica e de reformas estruturais”.
Com o objetivo de tentar trazer algum alívio para a crise, Massa tenta negociar com o Fundo Monetário Internacional (FMI) a antecipação para junho os desembolsos do acordo de crédito de US$ 44 bilhões. Pelo programa do FMI, a Argentina tem a receber US$ 10,6 bilhões entre junho e dezembro.
Além do desarranjo econômico e financeiro que se arrasta por anos, a Argentina convive este ano com outro fator que só reforça a volatilidade: eleições. Depois que o presidente Alberto Fernández anunciou em abril que não tentará a reeleição, os peronistas ainda não sabem em quem apostar.
Mas a oposição tampouco ainda não definiu em quem apostar. A ex-ministra da Segurança no governo Macri Patrícia Bullrich é um dos nomes que tentam se cacifar como alternativa ao governo de Alberto Fernández e Cristina Kirchner. Patrícia tem Dante Sica com o um de seus assessores na pré-campanha.
Nesse vácuo dos políticos tradicionais cresce a candidatura de um outsider da política, Javier Milei.
Ele empolga uma fatia do eleitorado com a defesa uma plataforma com ideias para lá de heterodoxas, entre elas a eliminação do Banco Central. Seus adversários o acusam de tentar vender soluções mágicas para problemas complexos.
Entre incertezas argentinas, uma avaliação parece se tornar dominante entre analistas. “Quando a inflação cresce desse jeito e quando isso acaba afetando o poder de compra esse é um indicador de que o governo, seja ele quem seja, vai perder a eleição”, diz Esteban Medrano.
Fonte: Valor Econômico
