A indústria de infraestrutura para o mercado de capitais vem se movimentando a passos largos para não deixar escapar a oportunidade de se posicionar no bilionário mercado secundário de títulos emitidos por empresas, como debêntures, certificados de crédito imobiliário (CRIs) e do agronegócio (CRAs).
Somente nos primeiros seis meses de 2025, o volume de debêntures negociado no mercado secundário, o maior entre os títulos de crédito privado, cresceu 22,6%, atingindo o patamar recorde de R$ 410,1 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). É mais do que o dobro do volume captado no mercado primário de debêntures, que somou R$ 192,7 bilhões no mesmo período.
O mercado secundário deve continuar crescendo, inclusive com a chegada de empresas de menor porte facilitada por novas regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a partir de 2026, o chamado Regime Fácil. B3, Bee4, CSD BR e SL Tools já estão se preparando para abocanhar um pedaço desse mercado, seja das grandes ou das pequenas companhias.
B3, Bee4 e SL Tools têm estratégias semelhantes
A ideia é oferecer um ambiente de negociação e estruturas para o registro e liquidação. A B3 relançou em 2024 sua plataforma para negociação de títulos de renda fixa, públicos e privados. A Bee4 e a SL Tools vieram com estratégias semelhantes este ano. Já a CSD BR está autorizada a registrar a emissão, depositar e liquidar debêntures.
Embora este seja um grande mercado, a dinâmica de negociação destes títulos é bem diferente do que a das ações, que têm um livro central de ordens e papéis padronizados. Os negócios com títulos de crédito privado ocorrem no chamado mercado de balcão, fechados privadamente entre as partes, e não há publicidade de preços.
Esse deve ser o grande desafio das empresas que agora vão testar este mercado, junto a bancos e corretoras, que já têm seus próprios ambientes de negociação, que hoje respondem por quase todo o volume do mercado.
O que está sendo proposto pelas empresas de infraestrutura é a concentração de parte do volume de transações em uma única plataforma, com ordens de compra e venda expostas e negócios fechados ao melhor preço. Essas companhias esperam que, por meio de funcionalidades e ferramentas de gestão e investimento, possam atrair pelo menos parte do mercado.
Há Barreira cultural, não tecnológica
A B3 reinaugurou em novembro do ano passado sua plataforma de negociação de operações de títulos de renda fixa, públicos e privados, que passou a ser chamada Trademate. “Não há uma barreira tecnológica, mas cultural, na forma que o mercado está acostumado a operar”, disse o vice-presidente de produtos e clientes da B3, Luiz Masagão.
Todas as negociações do mercado secundário de títulos de crédito privado passam pela B3, por meio do registro, liquidação e custódia. Desde janeiro, foi registrado na B3 um volume de R$ 786 bilhões em negociações feitas de forma privada no mercado de títulos de crédito público e privado.
“É utópico pensar que todos os players desse mercado estarão dispostos a colocar ofertas de compra e venda na nossa tela”, afirma. Mas ele acredita que deve haver inicialmente aderência para que venham para a tela ao menos os papéis mais líquidos, os quais o mercado já conhece os detalhes.
Para enfrentar a resistência cultural, Masagão afirma que a ideia da B3 é abordar os gestores, que estão na ponta compradora, e podem arrastar os vendedores a mostrarem seus preços. A B3 estuda os caminhos, entre eles a contratação de market makers (formadores de preços) e melhorias na divulgação de preço e publicidade de informação de mercado, para que a ordem ganhe relevância e o preço na tela seja melhor do que quando a operação é feita no balcão.
Masagão comenta ainda que instrumentos de negociação bilateral, onde o comprador envia pedido de compra para alguns vendedores e executa na plataforma, também são visto como opção. De acordo com ele, este é o modelo internacional. Mesmo nos Estados Unidos, observa ele, que é o principal mercado de títulos de crédito privado e uma referência, a tela é capaz de atrair 50% dos negócios. “A imensa maioria opera no modelo bilateral”, afirma.
Operação em setembro
A SL Tools quer colocar em operação em breve sua plataforma de títulos de crédito privado de empresas e bancos. “Em setembro já estaremos aptos a operar todas as debêntures, CRAs e CRIs depositadas na B3. Vamos operar e a B3 vai liquidar”, diz o CEO e cofundador da SL, André Duvivier. Mas apesar de utilizar a B3 para a “cozinha” das transações, a proposta da companhia é ter um ambiente de negociação que concorra com a Bolsa.
Para ele, a competição é natural, à medida que o amadurecimento do mercado de crédito privado e a tecnologia permitem que esse setor ganhe escala. “Virou uma classe de ativos que o brasileiro aprendeu a investir e vai continuar crescendo porque o juro sempre será alto no Brasil”, acrescenta.
A entrada em vigor do Regime Fácil em janeiro de 2026, para facilitar o acesso de empresas de menor porte ao mercado de capitais, deve aquecer ainda mais o mercado de crédito privado. É nesse nicho que está de olho a Bee4, que nasceu focada nas “menores” como o primeiro mercado regulado além da B3 para emissão de ações.
Demanda gigante
A Bee4 recebeu aval da CVM para operar no mercado com debêntures e notas comerciais. A sócia-cofundadora e CEO, Patricia Stille, destaca que existam ao menos R$ 2 trilhões no mercado com demanda direcionada para títulos privados de renda fixa, vindo de investidores como fundos de pensão e seguradoras.
A Bee4 mapeou 380 mil empresas no Brasil com faturamento anual entre R$ 5 milhões a R$ 500 milhões, ou seja, que atendem as regras do Fácil. Elas vão poder fazer emissões de ações e renda fixa de até R$ 300 milhões com regras mais simples e menos burocracias a partir de 2 de janeiro de 2026.
Esta notícia foi publicada no Broadcast+ no dia 06/08/2025, às 16:43.
O Broadcast+ é uma plataforma líder no mercado financeiro com notícias e cotações em tempo real, além de análises e outras funcionalidades para auxiliar na tomada de decisão.
Para saber mais sobre o Broadcast+ e solicitar uma demonstração, acesse.
Fonte: Estadão

