Por Roseli Loturco — Para o Valor, de São Paulo
22/03/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
O setor de saneamento volta ao foco dos investimentos privados este ano, ao mesmo tempo em que retorna ao rol da disputa por financiamento a seus projetos. O marco regulatório do setor trouxe uma série de regras que facilitaram a concessão desses serviços e criaram novas possibilidades de crédito, o que tem acirrado a competição dos bancos nos últimos dois anos.
No âmbito federal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem atuado nos financiamentos considerados de maior risco e prazo mais longo, deixando para as instituições privadas a estruturação de empréstimos via mercado de capitais e com mais garantias.
Com 90 operações de crédito para empresas de saneamento, que somam R$ 30 bilhões, o BNDES quer fomentar ainda mais projetos. Desse total, R$ 20 bilhões são empréstimos concedidos em 2022. “O que mostra como a gente acelerou recentemente. E vamos fazer mais. O marco regulatório é uma evolução do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, de 2007 – e precisa ser ampliado”, afirma Luciana Aparecida da Costa, diretora de infraestrutura, transição energética e mudanças climáticas do BNDES.
O banco desenvolveu estrutura de project finance com foco no setor e linha de empréstimo-ponte para grandes projetos. “O BNDES entra com linha de crédito que cobre o gap da construção até o momento em que o projeto entra em operação. A partir daí, o cliente pode cobrir com operações de mercado de capital e de outros bancos”, observa Costa. Esses recursos vêm do balanço do banco e servem de alternativa também em momentos como o atual, em que o mercado de capitais se apresenta mais reticente.
Uma das maiores operações em que esteve envolvido no ano passado foi a concessão dos blocos 1 e 4 da Cedae, companhia de saneamento do Rio de Janeiro, vencido pela Aegea. “O empréstimo, de R$ 19 bilhões, foi para a concessionária Águas do Rio e foi o maior já realizado no setor de saneamento”, afirma.
Nas operações de mercado de capitais, o BNDES tem entrado tanto como coordenador quanto como investidor, quando compra parte da emissão. Em 2022, entrou como investidor âncora da emissão de R$ 2 bilhões da BRK RMM. Agora, o banco se prepara para participar do financiamento dos outros dois blocos da Cedae (2 e 3) e dos blocos B e C em Alagoas e no Amapá.
As emissões de debêntures pelas empresas de saneamento levantaram R$ 6,39 bilhões de janeiro de 2021 a fevereiro deste ano, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Dos bancos privados, o BTG tem sido um dos mais atuantes e em dezembro do ano passado liderou a primeira emissão de debêntures azuis no Brasil e do setor de saneamento no mundo. A oferta, no valor de R$ 1,95 bilhão, tem prazo de 20 anos, e foi emitida pela BRK Ambiental RMM. “O selo azul é focado em água e os recursos vão financiar projetos com benefícios ambientais de preservação de recursos hídricos. Fomos para a COP apresentar esta emissão”, conta Daniel Vaz, chefe de mercado de capitais, de renda fixa e project finance do BTG Pactual.
O banco também liquidou uma operação para a Aegea no último dia 15, no valor de R$ 550 milhões para empréstimo de três anos, com participação de 20 investidores institucionais. O papel deve pagar CDI + 3,5% ao ano. “O mercado estava turbulento, mas não está 100% fechado”, diz Vaz. No pipeline do BTG há mais cinco operações no setor que, se vierem a mercado, demandarão transações da ordem de R$ 10 bilhões.
Já o Fator, que está envolvido em duas operações de estruturação de financiamento em saneamento, acredita que este ano será marcado mais por concessões municipais no primeiro semestre. As duas transações ficam no Nordeste e se vierem a mercado devem levantar próximo a R$ 1 bilhão. “Entre licitação e estruturação, hoje estamos envolvidos em quatro operações em saneamento”, observa Ewerton Henriques, diretor de infraestrutura do Banco Fator. A expectativa é de que os projetos estaduais mais relevantes fiquem para o segundo semestre e para o ano que vem.
Saneamento também tem sido o foco do Banco do Brasil (BB) nos últimos anos. “Mapeamos pelo menos 13 grandes leilões. Desses, assessoramos 60% das companhias no pré-leilão. E no pós, estamos presentes em cerca de 50% na estruturação financeira”, afirma Juliano Marcatto, gerente executivo e head de project finance do BB. O volume total de Capex envolvido nessas 13 concessões é de R$ 60 bilhões e mais R$ 34 bilhões de outorgas. “Já participamos com R$ 5,6 bilhões, em um misto entre operações de mercado de capitais e do balanço do banco”, conta Marcatto.
Fonte: Valor Econômico
