Por Marsílea Gombata — De São Paulo
09/11/2023 05h10 Atualizado há 4 horas
A China se prepara para uma nova era, com líderes vindos de uma geração de filhos únicos ultraqualificados, com valores diferentes, educados no Ocidente e que adoram consumir – muito distinto da geração de seus pais, que passaram por enormes turbulências econômicas, são poupadores e avessos ao risco. Nessa nova era, o crescimento econômico não será a grande preocupação, afirma a economista chinesa Keyu Jin, professora da London School of Economics, que adota o padrão ocidental de nome seguido de sobrenome em sua identificação.
“Creio que no futuro a China se dirige para algum ponto em que dependerá muito mais dos mercados e do setor privado do que do Estado, o que foi útil no passado, mas se tornará mais obstrutivo no futuro”, afirma Jin ao Valor.
Apesar de organismos internacionais e entidades de direitos humanos, como as Nações Unidas e a Anistia Internacional, denunciarem a prisão de centenas de pessoas todos os anos por infringirem leis que reprimem a liberdade de expressão, de reunião e de associação, a economista relativiza o que chama de visão “ocidental” sobre o controle e autoritarismo do governo chinês. “Se olharmos pesquisas, vemos que coisas totalmente intoleráveis aos olhos ocidentais são esperadas e até normais na China.”
Jin, que será uma das palestrantes, hoje, na 14ª edição do evento Macro Vision, do Itaú BBA, é doutora pela Universidade Harvard e filha de Jin Liqun, ex-vice-ministro das Finanças chinês, e está à frente do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. Seguem os principais trechos da entrevista:
Valor: Em seu livro “The New China Playbook: Beyond Socialism and Capitalism”, a senhora diz que a China está entrando em uma nova era, cada vez mais moldada por uma geração jovem. Será uma China diferente do que é hoje?
Keyu Jin: A nova era para a China significa, antes de tudo, atores diferentes, uma nova geração de filhos únicos altamente qualificados, que têm valores muito diferentes, mente aberta, foram educados no Ocidente, adoram consumir e têm ótimo estilo de vida, muito diferente da geração de seus pais, que passaram por enormes turbulências, econômicas, psicológicas, eram poupadores e não consumidores, avessos ao risco e conservadores.
Esses novos líderes da nova era da China não estão tão focados no crescimento astronômico [da economia], mas estão tentando encontrar algo entre o socialismo e o capitalismo, eliminando o capitalismo americano de extrema desigualdade. Tentam definir o modelo de uma nova era na qual o crescimento não é a única coisa que importa, mas também uma gama de objetivos sociais.
Valor: A senhora diz que a China funciona sob um modelo único de centralização política e descentralização econômica. Quais problemas esse modelo pode trazer?
Jin:A China tem esse modelo único de centralização política e descentralização econômica. A ausência de qualquer um deles não teria feito ele funcionar como foi na China. E foi [como] a China conseguiu mobilizar e coordenar a nível macro e implementar a nível local. Se você observar a distribuição dos unicórnios de tecnologia na China, realmente eles estão em todo o país, e não apenas em Pequim e Xangai. E isso vem de uma dinâmica de competição em que governos locais fornecem ajuda aos empreendedores privados.
Esses são pontos fortes. Mas também existem desvantagens significativas e que poderão ser ainda mais no futuro. A elevada proporção da dívida em relação ao PIB também é consequência do modelo de economia política em que os governos locais levam adiante atividades econômicas extras à custa de muito empréstimo.
Essa nova era já não se baseia em uma simples medida do PIB, mas em uma métrica mais ampla de prosperidade comum, estabilidade social, proteção ambiental e também PIB. Creio que no futuro a China se dirige para algum ponto em que dependerá muito mais dos mercados e do setor privado do que do Estado, o que foi útil no passado, mas se tornará mais obstrutivo no futuro.
Valor: O que seria estabilidade social na China?
Jin: Estabilidade social no sentido de dar oportunidades às pessoas, dar a elas esperança de que a próxima geração terá condições melhores. E segurança, que os chineses mostraram em diversas pesquisas internacionais ser mais importante do que outras coisas como liberdade e autonomia.
A estabilidade social é necessária no futuro próximo porque a China ainda tem 1 bilhão de pessoas que vivem com menos de US$ 300 por mês. [Oferecer isso] será fonte de legitimidade e estabilidade social no futuro. Não podemos pensar na China como um país de renda alta ou média-alta como um todo. Pequim e Xangai atingiram níveis de renda equivalentes à da Coreia do Sul, enquanto a renda em regiões do centro e oeste do país, estão mais próximas de países menos desenvolvidos.
Valor: Essa nova geração forçará a um novo tipo de governo?
Jin:A nova geração olha para o mundo exterior e não encontra muita inspiração nas democracias e sociedades do Ocidente. Penso que há pouca vontade de realmente reformar o sistema na China.
Mas talvez [seja preciso] mudar alguns aspectos e recalibrar. Não espero uma mudança drástica porque a China promoveu um equilíbrio único, adequado às suas condições. Não necessariamente seguindo o modelo ocidental, mas muito próximo da economia de mercado, um modelo diferente que leva em conta a sua história e cultura.
Valor: Há hoje na China um nível de controle e autoritarismo, inaceitável para os países ocidentais. Por que isso é tolerado na China?
Jin:A maneira como vemos a relação com a autoridade é muito diferente em comparação com o Ocidente. Essa linha tênue entre deferência a uma autoridade e o exercício do livre arbítrio é algo com o qual os chineses sempre tiveram que conviver ou aprender a equilibrar, desde quando se é jovem, com a família e com professores, entre a crianças e os pais.
Se olharmos pesquisas, vemos que coisas totalmente intoleráveis aos olhos ocidentais são esperadas e até normais na China. Na verdade, os chineses esperam e até querem que o governo intervenha, mesmo que isso signifique interferência em sua vida cotidiana. Isso seria totalmente incompreensível no Ocidente.
De fato, há mais controle na China, mas as pessoas não veem isso necessariamente da mesma forma que um cidadão ocidental. E, apesar desse controle, há um debate cívico muito dinâmico nas redes sociais [na China]. Com exceção de alguns tópicos, há discussões variadas que vão da coordenação de protestos à crítica ao governo.
Há mais regras e vigilância, mas se você conversar com um chinês comum, não acho que ele se sinta infeliz como os ocidentais o descreveriam. Na verdade, pesquisas mostram que os chineses são menos infelizes que as pessoas que vivem no Ocidente.
Novos líderes buscam algo entre o socialismo e o capitalismo, eliminando o capitalismo americano, que causa da desigualdade” — Keyu Jin
Valor: Olhando para a disputa entre EUA e China, como dois países tão diferentes, que competem entre si, podem chegar a um consenso?
Jin: Gostaria de enfatizar que há mais semelhanças nos objetivos e expectativas dos dois países e nas motivações e desejos de seus povos do que acreditamos. Pense em todas as colaborações científicas entre as duas maiores economias do mundo, com os melhores pesquisadores em tecnologia de ponta, medicina e biotecnologia, sem falar em mudanças climáticas e colaborações contra o terrorismo.
Por que desperdiçar essa colaboração preciosa? Só porque eles não se comunicam bem, não expressam seus interesses com o outro lado? Não se justifica, seja pelo potencial perdido, mas também pelas possíveis calamidades que poderiam ocorrer no mundo louco em que vivemos hoje.
O novo celular da Huawei que usa chips semicondutores produzidos na China, por exemplo, é um tapa na cara no que diz respeito a controles de exportação, apesar do debate sobre o quão sustentável é e em qual escala. Esse é o início de uma jornada muito agressiva em direção a maior inovação e tecnologias de ponta e ao fato de que não se pode controlar fluxos tecnológicos, de conhecimento, de equipamentos nessa economia global.
Valor: Podemos esperar um conflito militar entre China e EUA?
Jin: No curto prazo, os desafios internos da China serão sobre estabilidade – a China se tornará um país e uma sociedade muito mais complexos, e haverá muito mais coisas com as quais terá [de lidar] para satisfazer os cidadãos, não apenas em relação à segurança econômica e ao meio ambiente, mas também quando se trata de um senso de identidade, de um propósito. Os EUA, por sua vez, têm muitas coisas para resolver. Acho que ambos não querem arriscar um erro de cálculo. Portanto, no curto prazo apostaria mais na paz do que no conflito. No longo prazo, não creio que esses dois países tenham uma diferença tão fundamental em valores e pontos de vista que leve a um conflito.
Valor: Quais os principais impactos de movimentos como reshoring e nearshoring para a China?
Jin: É lamentável que muitos governos usem isso como desculpa para se esconder atrás de um protecionismo velado, que é o que está acontecendo. A China se beneficiou muito da globalização, mas acredita que outros países devem se beneficiar dela, especialmente os em desenvolvimento. [Esses movimentos] impulsionarão muito mais a cooperação sul-sul, porque o ambiente geopolítico é mais favorável, e o comércio regional na Ásia. Muitos outros países sentem que não podem depender só da China como fornecedor intermediário, mas, de novo, essa dependência pode coexistir com a visão de globalização e não necessariamente ser uma contradição.
Valor: Em um artigo à revista “Times”, a senhora disse que o setor de tecnologia dos EUA precisa da China. Por quê?
Jin: Um dos princípios básicos da teoria econômica é que a competição impulsiona a inovação. Se você está confortavelmente sentado em sua cadeira, não será motivado a mudar. A concorrência internacional também é importante. Veja o exemplo EUA-Japão. EUA e Japão competiam muito na década de 1980. E o Japão ultrapassou os EUA em semicondutores. E isso nos levou a mudanças importantes em termos de inovação.
Também estamos vendo isso com a China. O fato de os veículos elétricos chineses serem tão competitivos e tão bons está levando os europeus a fazer mais. Os fabricantes chineses de baterias estão pressionando os americanos e o governo alemão a quererem fazer mais.
Valor: Quais os principais riscos para a economia chinesa hoje?
Jin: Não concordo com a visão ocidental de que a China chega ao seu pico demográfico, e o envelhecimento significa um declínio permanente na economia chinesa. Penso que o principal problema reside na capacidade de levar reformas adiante. Ainda há muitas reformas a serem implementadas, incluindo em relação ao fato de não haver fluxo de mão de obra entre as regiões sem causar grande desigualdade geográfica, à má alocação de recursos e ao sistema financeiro, tão crítico em uma era impulsionada pela inovação.
Muitos dos desafios econômicos de curto prazo são mais cíclicos que estruturais. O fato de durante a pandemia e no pós-pandemia não ter havido um grande estímulo para apoiar as famílias, ter ocorrido queda na confiança devido à grande incerteza no ambiente macroeconômico são questões mais cíclicas. As questões realmente estruturais são reformas e mudanças nos incentivos para governos locais, dado o alto nível da dívida.
Valor: O que significa para o mundo uma desaceleração chinesa? Para fornecedores de commodities como o Brasil seria alerta de que se deve depender menos da China?
Jin: Primeiramente, eu não dependo sempre de uma fonte, como princípio. Porque a demanda externa, seja China ou de outro lugar, está sujeita a muitas flutuações e crescentes riscos geopolíticos. A China é super importante, contribuiu para um terço do crescimento global nos últimos 10 anos, e uma desaceleração significativa pesará sobre a economia mundial.
O problema é que estamos nos escondendo atrás desse véu do protecionismo, usando a segurança nacional como desculpa, e quem sofre são as pessoas. O que a redução do comércio entre os EUA e a China está fazendo? Apenas desviando o comércio para o Vietnã e o México. E os custos de inovação vão subir por causa desses movimentos de desacoplamento.
Fonte: Valor Econômico
