09/08/2022 05h00 Atualizado há 4 horas
A constatação de que há algo de errado na forma como os bancos centrais têm atuado face à inflação afeta a condução da própria política monetária. Não bastasse a demora em admitir que o aumento de preços era mais duradouro do que se supunha, a comunicação errática com sinais antagônicos a respeito do estado da economia e as perspectivas de médio prazo apontam para algo inusitado: ao invés de “guiarem” as expectativas, as chamadas autoridades monetárias demonstram insegurança e comprometem a previsibilidade de suas atuações.
Alguns especialistas justificam o comportamento confuso dos bancos centrais como uma fatalidade decorrente dos inesperados acontecimentos políticos e econômicos que parecem prolongar o estado de excepcionalidade inaugurado no mundo pela pandemia da covid-19. Ocorre, porém, que saber ler os sinais da economia, ainda que conflitantes, é uma condição necessária para o bom desempenho da política monetária assentada no sistema de meta de inflação. Sem a padronização dos dados que caracterizaram o comportamento das economias na era da globalização fica difícil sustentar aquele sistema introduzido a partir da década de 90.
As maiores críticas têm sido endereçadas ao Fed, o banco central dos EUA, que depois de patinar meses a fio sem saber o que fazer face à alta dos preços resolveu entrar com tudo. Começou a subir a taxa de juros em março de forma tímida – para a faixa de 0,25% a 0,50% -, mas viu-se diante da necessidade de puxar os juros novamente em maio e em junho até chegar a patamar mais alto em julho, quando as taxas de curto prazo foram fixadas entre 2,25% e 2,50%. Um aumento substancial em pouco tempo. Não se descarta a perspectiva de mais arrocho monetário em setembro.
Depois de titubear entre os dois mandatos que orientam a sua atuação, o Fed parece ter elegido afinal o combate à inflação como prioritário em detrimento da manutenção do nível de emprego. Diante do baixíssimo desemprego, ao redor de 3,5%, a decisão do banco central dos EUA de apertar as condições monetárias objetiva justamente sacrificar aquele indicador. O nível elevado da renda do trabalho implica maior pressão sobre os preços, apesar da economia já ter entrado em processo de retração.
Já o Banco Central Europeu (BCE) jogou a toalha, como se diz no jargão, ao finalmente decidir-se há vinte dias pelo aumento dos juros de curto prazo, cuja taxa passou para sinal positivo depois de ter estacionado por um longo tempo ao redor de zero. Está agora em 0,50%. a primeira alta em dez anos.
Também abandonou o instrumento do “forward guidance”, uma invenção entre as muitas que passaram a fazer parte dos manuais de atuação dos bancos centrais nos últimos tempos. O BCE passará a operar não mais com a preocupação de guiar as expectativas futuras através da transparência de informações e credibilidade em uma conduta previamente definida, mas com os olhos fixados nos dados econômicos conforme se apresentam no “mundo real do aqui e agora, em ritmo de passo a passo”, conforme deixou claro a presidente da instituição, Christine Lagarde.
O Banco da Inglaterra, em linha com seus homólogos ocidentais, custou a dar-se conta do grau de persistência da inflação. Em doze meses, o CPI (índice de preços ao consumidor) atingiu 9,4% na posição de junho, com a expectativa de chegar a 13% devido ao impacto dos preços da energia, segundo diz o próprio relatório do Comitê de Política Monetária.
A taxa de juro de curto prazo subiu de 0,1% em dezembro de 2021 para 1,75% no início de agosto, e tende a aumentar ainda mais. O Reino Unido tem o mesmo dilema dos EUA, com o desemprego na baixa taxa de 3,8%. A procura por mão de obra é grande, os níveis salariais têm aumentado e pressionam a inflação.
A rigor, a grande instabilidade mundial de ordem econômica, social e política dos últimos anos torna impossível aos bancos centrais continuarem a fazer de conta que são magos a conduzirem suas políticas monetárias com varas de condão. O ciclo da certeza de crescimento com estabilidade foi rompido por fatos inesperados tão grandiosos como uma pandemia mundial e uma guerra na Europa, em um cenário de agravamento do desequilíbrio ambiental que perturba a oferta de produtos agrícolas.
O sinal vermelho acendeu para o BCE quando a inflação de junho na zona do euro, anunciada em julho, chegou a 8,6%, bem acima da previsão anterior. Até então, a autoridade ainda tinha esperanças de influenciar as expectativas e chegou a indicar um possível aumento dos juros para setembro, mas não conseguiu esperar até lá. Mesmo com a alta na taxa de curto prazo promovida pelo BCE em julho, as estimativas da Eurostat para a zona do euro apontam para inflação de 8,9% em doze meses. Na União Europeia (27 países) a inflação anual até junho foi de 9,6%.
O BCE descobriu que nenhum “forward guidance” será capaz de demover a ânsia de Putin pelo controle da Ucrânia com todas as consequências nos preços dos combustíveis e da energia ou de mudar a política chinesa de blindar as cidades contra a covid-19 ou, ainda, de convencer os árabes a inundarem o mundo de petróleo.
Aqueles são exemplos que afetam diretamente o comportamento dos preços de modo geral, mas há outros a contribuírem de forma indireta para a instabilidade regional, como o desmantelamento da aliança que sustentava Mario Draghi no governo italiano, a falta de alinhamento ideológico do partido conservador no Reino Unido e as dúvidas quanto às eleições parlamentares deste ano nos EUA. Nem se está a imaginar os efeitos que teria sobre a economia mundial um choque militar entre a China e os EUA.
Em pouco tempo, o mundo parece ter virado de cabeça para baixo, deixando os bancos centrais atônitos diante de uma inflação inesperada contra a qual a busca da estabilidade a partir de um direcionamento aglutinador de expectativas não tem surtido efeito. A previsibilidade deixou de chancelar a atuação das autoridades monetárias.
Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin – Comunicação Inteligente e autora do livro “A Real História do Real”. Escreve mensalmente às terças-feiras.
Fonte: Valor Econômico