A manutenção do discurso de que a Selic precisa ficar parada por um período prolongado durante as reuniões da última semana do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial reforçaram a percepção de que o Banco Central do Brasil é, no momento, o mais “hawkish” (conservador, favorável a juros mais altos) entre as principais autoridades monetárias do mundo.
Não é pouco, mas não chega a ser uma novidade. Afinal, o Brasil tem ido na contramão do mundo, e até mesmo de outras economias emergentes, por ter elevado o juro básico a 15% e, até agora, não ter dado nenhuma pista mais clara sobre quando a Selic começará a ser reduzida.
Um participante do mercado que esteve em Washington compartilhou uma impressão com o Valor: pelos discursos mais recentes dos membros do Copom, um corte na Selic não vem tão cedo e algumas pessoas já falam até mesmo em postergar as apostas para um início do ciclo de flexibilização para abril.
É algo que vai na linha do comentário enviado a clientes pelo chefe de estratégia macro para América Latina do HSBC, Joseph Incalcaterra. “O mercado espera um ciclo de afrouxamento monetário, mas os comentários mais duros do BC indicam que essa ação pode não ocorrer até algum momento do fim do primeiro trimestre ou início do segundo trimestre de 2026”, diz.
Essa sensação casa, ainda, com a precificação do mercado de opções digitais. Se, no fim de setembro, o mercado chegou a flertar com um corte nos juros em dezembro e a possibilidade de uma redução na Selic em janeiro era majoritária, hoje isso mudou. No fechamento de ontem, a probabilidade de a taxa básica seguir em 15% em dezembro estava em 85% e a chance de a Selic continuar nesse mesmo nível também em janeiro estava em 58%.
Também presente em Washington nos últimos dias, a diretora de macroeconomia para o Brasil na UBS Global Wealth Management, Solange Srour, compartilha dessa opinião, ao avaliar que o BC foi visto pelos estrangeiros como “muito, muito ‘hawkish’”. “E foi um discurso muito alinhado, com os diretores [Nilton David e Paulo Picchetti] fazendo questão de não mostrar nenhum ruído.”
Para Srour, a ideia do BC parece ser levar o mercado para a direção de que querem chegar o mais próximo possível de uma inflação em 3%. “Está sendo visto como o BC mais ‘hawkish’ do mundo, mas isso tem ajudado a manter o câmbio bem comportado e, na margem, melhor que os outros mercados emergentes”, enfatiza.
Fonte: Valor Econômico
