Por Eric Platt — Financial Times
21/07/2022 05h03 Atualizado há 3 horas
Quando os negócios com as ações ordinárias da Berkshire Hathaway dispararam inesperadamente no ano passado, os investidores do grande conglomerado que engloba de seguros a companhias industriais ficaram atônitos. Três acadêmicos ofereceram uma resposta surpreendente: os volumes de negócios com a ação mais cara dos Estados Unidos foram e continuam sendo artificialmente inflados pela maneira como corretoras como a Robinhood relatam negociações fracionárias de ações.
Em novo trabalho de pesquisa, professores da Universidade da Califórnia em Berkeley, da Universidade Columbia e a Universidade Cornell afirmam ter descoberto o que descrevem como “negócios fantasmas e não existentes”.
O salto nos volumes de transações divulgados publicamente com ações da Berkshire e outras companhias foi motivado pelo aumento dos negócios fracionários e pelas regras da Finra, o órgão autorregulador de Wall Street, que direciona as corretoras a arredondar essas operações acionárias – independentemente de quão pequenos elas sejam – para um único papel.
Esse arredondamento significa que o “boom” dos negócios com frações de ações – em que um cliente pode comprar ou vender um pedaço de uma única ação – inflou os volumes de transações relatados em todo o mercado acionário dos EUA.
E isso teve um efeito particularmente desproporcional sobre as ações classe “A” da Berkshire, que são pouco negociadas e chegaram a custar mais de US$ 500 mil neste ano. Nenhuma ação negociada publicamente nos EUA tem um preço maior, segundo dados da Refinitiv.
“A regra de Finra para divulgação dos negócios fracionários criou distorções significativas… e isso provavelmente moldou o comportamento de negociação de pelo menos alguns participantes do mercado”, escreveram os professores Robert Bartlett, Justin McCrary e Maureen O’Hara.
O estudo constatou que o salto nos volumes de negócios com os papéis da Berkshire apareceu pela primeira vez em fevereiro de 2021, quando a corretora Robinhood começou a informar as suas transações. Embora a corretora, que ajudou a popularizar os negócios com frações de ações, tenha oferecido negociações em incrementos de menos de uma ação desde 2019, ela inicialmente não informou os negócios ao banco de dados da Finra, que registram transações realizadas fora da bolsa. Posteriormente, foi informada pela Finra que deveria reportar esses negócios e começou a fazer isso no começo do ano passado.
Em outubro, a DriveWealth, que processa transações com ações para as startups de banco digital Revolut e Cash-App, também começou a reportar os negócios com frações de ações da Berkshire ao banco de dados da Finra, segundo descobriu o estudo. Os professores disseram que conseguiram isolar os negócios informados pela Robinhood e pela DriveWealth com base nas pequenas demoras que ocorrem nas divulgações das ordens de compra e venda dos papéis.
O volume diário de ações classe A negociadas foi de 357 unidades nos dois anos antes que a Robinhood começasse a informar transações fracionadas. Desde então, a atividade parece ser mais de cinco vezes esse nível, com quase 1.900 ações trocando de mãos todos os dias, segundo a Bloomberg.
O aumento dos volumes criou confusão no mercado, já que o próprio presidente-executivo da Berkshire, Warren Buffett, havia lamentado anteriormente o quanto era difícil encontrar vendedores das ações classe A da companhia para seu programa de recompra de ações.
“Se nossas ações fossem detidas em grandes volumes por especuladores de curto prazo, tanto a volatilidade do preço como os volumes negociados iriam aumentar materialmente”, escreveu Buffett aos acionistas em sua carta anual divulgada em fevereiro deste ano. “Esse tipo de reformulação nos daria oportunidades muito maiores para criar valor por meio de recompras.”
As constatações divulgadas ontem desafiam as especulações de que o aumento dos negócios ao longo do último ano foi motivado por um comprador ou operador estrangeiro, que não teria que divulgar as transações.
A Finra afirmou que “já está trabalhando ativamente na questão e está envolvida em discussões contínuas com empresas e autoridades reguladoras. Os atuais sistemas de informe de negócios -que não o Consolidated Audit Trail – não suportam a entrada de uma quantidade fracionada de ações”.
Embora o público não soubesse que os negócios fracionários estavam inflando erroneamente os números dos volumes, as autoridades com acesso ao Consolidated Audit Trail – um sistema que monitora os negócios com ações nos EUA – teriam entendido que os negócios eram em sua maior parte minúsculos.
Berkshire, Robinhood e DriveWealth não responderam a pedidos para comentários.
Fonte: Valor Econômico

