Os Estados Unidos e o Irã ficaram ontem mais próximos de um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, segundo autoridades americanas, mas as expectativas de uma rápida retomada da navegação pela passagem – por onde circulam cerca de 20% do petróleo e gás consumidos globalmente – foram minimizadas pelo presidente Donald Trump, que afirmou que não terá pressa para fechar um pacto com Teerã.
As autoridades dos EUA explicaram a que não havia nada pronto para ser assinado ontem, já que os dois lados negociavam uma redação precisa para questões-chave, e que pode demorar vários dias para que se chegue à aprovação final.
A agência de notícias iraniana Tasnim informou que o esboço de acordo ainda poderia ser rejeitado pelo Irã, pois os EUA têm obstruído a discussão de algumas cláusulas importantes, como a da exigência de Teerã de que seus ativos sejam descongelados.
Com o otimismo em relação ao acordo, o barril do petróleo Brent era negociado na abertura dos mercados na noite de ontem com queda de 4,55%, a US$ 98,83, o menor preço em duas semanas.
A partir da insistência de vários líderes árabes, os EUA e o Irã têm discutido a possibilidade de prorrogar seu frágil cessar-fogo, mas os dois lados fazem descrições diferentes do que faria parte de um acordo provisório. Nas últimas semanas, eles propuseram vários planos, mas não conseguiram concretizar nenhum deles.
“Nossa relação com o Irã está se tornando muito mais profissional e produtiva”, escreveu Trump em um post nas redes sociais. “Mas eles precisam entender que não podem desenvolver ou obter uma arma ou bomba nuclear.”
Trump acrescentou que o bloqueio americano do Estreito de Ormuz continuará até que um acordo seja concluído e que os dois lados devem usar o tempo de que precisarem para “acertar”.
O acordo amplo descrito por autoridades americanas não aborda o arsenal de mísseis do Irã nem contém uma proibição explícita para o enriquecimento de urânio – dois dos objetivos mais importantes de Trump.
A imprensa estatal iraniana têm sido mais cautelosa. A Tasnim informou que os lados ainda divergiam sobre “uma ou duas cláusulas”. Já a agência Fars negou a veracidade das afirmações feitas por Trump no sábado, de que um acordo havia sido “negociado em grande parte”, e disse que elas estão “bem longe da realidade”.
O programa nuclear e o estoque de urânio enriquecido do Irã seguem como principais pontos de discórdia, inclusive pela insistência de Teerã de que não busca desenvolver armas atômicas.
“Estamos prontos para assegurar ao mundo, durante quaisquer negociações, que não estamos em busca de armas nucleares”, teria dito ontem o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, segundo a Student News Network.
Segundo uma autoridade do governo Trump, os EUA planejam suspender o bloqueio do estreito como parte do acordo, e o Irã também concordou, pelo menos em princípio, em se desfazer de suas reservas de urânio altamente enriquecido. A autoridade acrescentou que os EUA não têm planos de descongelar ativos iranianos como parte do acordo que está em negociação. Ela também reiterou a posição do governo Trump de que qualquer sistema de pedágio imposto pelo Irã sobre o tráfego no Estreito de Ormuz é inaceitável.
Além disso, autoridades afirmaram que qualquer relaxamento das sanções dependerá de como Teerã cumpra as diversas disposições do acordo. Elas explicaram ainda que um cronograma para o descarte dos estoques de urânio pelo Irã e uma moratória sobre o enriquecimento de urânio serão negociados posteriormente.
As autoridades americanas disseram esperar um compromisso significativo do Irã de abandonar o enriquecimento de urânio como parte de qualquer acordo final. Segundo elas, os EUA acreditam que podem negociar um mecanismo vinculante que garanta que o Irã não terá uma arma nuclear e que leve a uma relação bilateral mais produtiva. Em negociações anteriores, os EUA buscaram uma moratória de 20 anos para o enriquecimento.
O Irã não confirmou os detalhes e deixou claro que pretende preservar seu estoque de urânio.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, escreveu em um post no X que conversou com Trump sobre as negociações entre EUA e Irã e reiterou que a ameaça de armas nucleares iranianas precisa ser eliminada como parte de qualquer acordo final. “O presidente Trump também reafirmou o direito de Israel de se defender contra ameaças em todas as frentes, inclusive no Líbano”, escreveu.
No sábado, Trump havia dito que um acordo para começar a pôr fim à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã estava perto de ser concluído e o Estreito de Ormuz poderia ser reaberto. Mas ele também enfrentava forte resistência de alguns de seus aliados políticos, que querem que ele retome a campanha militar contra Teerã.
O site Axios noticiou que o pacto envolveria uma prorrogação de 60 dias da trégua atual, e nesse período Ormuz seria reaberto e o Irã teria permissão para vender seu petróleo. Também se dizia que o acordo estipulava o fim da guerra entre Israel e o Hezbollah, apoiado pelo Irã, no Líbano – uma medida que Israel pode relutar em endossar.
Em uma segunda postagem nas redes sociais, Trump rebateu as críticas. “Não deem ouvidos aos fracassados que criticam algo sobre o qual não sabem nada”, disse ele.
Fonte: Valor Econômico