13 Jun 2023 ADRIANA FERNANDES THAÍS BARCELLOS
“Quando o consumidor contrata o cartão de crédito, quando entra no rotativo, ele tem pouca visibilidade dos juros que vai pagar”
Apontado pelo mercado como um dos integrantes mais linha-dura do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do BC, Renato Dias Gomes, defende que o banco não deve ter pressa na redução dos juros. Para ele, a perda de fôlego da inflação tem sido lenta em serviços e as expectativas ainda estão desancoradas (sem convergir para a meta), apesar da queda observada ontem no Boletim Focus.
“Não tem de ter pressa, porque um afrouxamento açodado tem custos elevados para o País no futuro. A minha posição é de cautela”, disse ao Estadão/Broadcast na primeira entrevista desde que chegou ao BC, em abril de 2022. Gomes foi um dos dois diretores que votaram a favor de um aumento da taxa Selic – atualmente em 13,75% ao ano –, em setembro do ano passado.
A entrevista foi feita na véspera do início do período de silêncio antes da próxima reunião que definirá os rumos da Selic, nos dias 20 e 21 de junho, e no momento em que ganha força no mercado financeiro a expectativa de antecipação do primeiro corte da taxa básica de juros após números favoráveis do IPCA. Ele antecipa medidas para enfrentar os juros elevados do rotativo do cartão de crédito – entre elas, fazer valer a portabilidade das dívidas. Os juros dessa modalidade bateram 447,7% ao ano em abril. A portabilidade permite ao cliente escolher o banco em que quer pagar suas dívidas. Gomes também antecipa os detalhes do Pix Automático, BolePix e o Pix Garantido.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
O presidente do BC disse que o cenário de inflação tem ‘clareado’, mas tem ponderado que é apenas um voto de nove no Copom. Em setembro, o sr. foi a favor de mais uma alta de juros, a 14%. Como vê o cenário agora?
Tem tido indícios preliminares de melhora. A última leitura do IPCA foi favorável, a composição melhorou. O índice de preços ao atacado também mostrou alguma melhora. No mercado de crédito, estamos vendo retração em vários segmentos. Por outro lado, a desinflação tem sido lenta em alguns setores, notadamente serviços, o que reflete o mercado de trabalho resiliente. As expectativas permanecem desancoradas.
Mas houve redução das expectativas de inflação em todos os horizontes.
A desancoragem recuou na margem, mas ainda está lá. Se olharmos o PIB pelo lado da oferta, tem surpreendido positivamente. Está certo que é muito puxado pela agricultura, mas há uma incerteza residual sobre o impacto da política monetária sobre o produto pelo lado da oferta. Temos de continuar com cautela.
Com a surpresa no IPCA, muitos no mercado já esperam queda de juros em agosto, se somando com a pressão do governo. Como o BC atua nesse ambiente?
Os indícios de desinflação ainda são preliminares. Uma leitura do IPCA melhorou, principalmente a composição, mas, no horizonte de inflação, se olharmos o ano-calendário de 2024 e de 2025, não terminamos o trabalho.
Quais as mudanças que poderão sair do rotativo do cartão de crédito?
Aqui no BC também existe preocupação. Falta transparência. São preços “salientes”. Quer dizer que, no momento da contratação, quando o consumidor contrata o cartão de crédito, quando ele entra no rotativo, ele tem pouca visibilidade dos juros que vai pagar.
O que mais preocupa?
Outra fonte de preocupação é que, ao contrário dos Estados Unidos, onde a dívida de cartão de crédito é facilmente portável de uma instituição financeira a outra, aqui no Brasil não é o caso.
Qual a saída para mudar esse quadro?
No primeiro momento o que estamos perseguindo são soluções de maior transparência nas tarifas.
A portabilidade tem prazo para entrar em vigor? É para esse ano?
Eu acredito que sim.
O Pix vem batendo recordes consecutivos e os saques de dinheiro físico, caindo. O Pix já supera os saques? O que vai sair de novidades do Pix neste ano?
A entrega mais próxima é o Pix automático, que é uma versão melhorada do débito automático. O débito automático hoje em dia funciona na base do convênio. A prestadora de serviços tem convênio com os bancos. Normalmente, são poucos com poucos bancos – de tal maneira que, se você quiser fazer uso desse serviço, tem que ser cliente de um desses bancos que têm convênio. Isso é uma barreira à entrada no mercado.
O Pix automático vai servir para que tipo de pagamento? Telefonia, energia, uma loja com parcelas longas?
Isso seria uma modalidade. São pagamentos recorrentes. Está previsto para o fim do ano. Facilita a vida. O sujeito vai conseguir estabelecer o Pix automático no balcão da academia. Se fizer uma compra online, vai ter um iniciador que permitirá a ele contratar esse serviço. Tanto para a compra online como offline.
Qual o cenário com o qual o BC trabalha para o Pix daqui para frente?
Além do Pix, teremos o BolePix, que é uma versão do Pix para o boleto. Ele replica o boleto. Vai haver aprimoramentos no recálculo da dívida, existe um banco de dados para dizer se o boleto já foi pago, por um cônjunge. É um QR code que aparece como boleto. A liquidação será instantânea. Se aliaria às funcionalidades do boleto, que é essa base centralizada, que vai dizer se foi pago ou não, o recálculo das tarifas. Poderá ser pago sábado e domingo. Não posso definir prazos. Mas para o ano que vem será possível.
O que mais podemos esperar de avanços no Pix?
O papel do BC está no sentido de observar e guiar o mercado com uma mão mais reguladora e menos empreendedora, que é o Pix Garantido. Isso está sendo desenvolvido agora. Há soluções em que (o consumidor) vai finalizar uma compra e a firma te liga às instituições financeiras que vão oferecer uma opção de crédito para compra via Pix. •
Fonte: O Estado de S. Paulo
