03/05/2024 05h03 Atualizado há 4 horas
O ajuste dos ativos domésticos no retorno do feriado do Dia do Trabalho foi intenso, ao sustentar um desempenho bastante positivo dos mercados locais ao longo de toda a sessão. O dólar anotou a maior queda diária contra o real em pouco mais de oito meses; os juros futuros despencaram; e a bolsa teve alta firme. Nesse ambiente, o risco Brasil medido pelo spread dos contratos de CDS de cinco anos (espécie de seguro contra calotes) exibiu um alívio bem mais relevante que o de outros emergentes, em sinais renovados de que parte da boa performance dos ativos locais pode ter guardado relação com a melhora da perspectiva do rating soberano brasileiro pela agência Moody’s.
Entre o fechamento de terça-feira e o de ontem, o CDS de cinco anos do Brasil caiu relevantes 4,18%, para 143,9 pontos. No mesmo período, outros países emergentes também mostraram alívio, mas que não foi tão intenso quanto o desempenho do risco Brasil.
“A notícia é marginalmente positiva. Acredito que o mercado não esteja dando tanta bola porque o grau de investimento ainda está um pouco longe. Mas, do ponto de vista de mais longo prazo, é, sim, uma notícia positiva. É um reconhecimento de tudo o que o Brasil fez nos últimos anos, uma série de reformas estruturantes”, afirma o chefe da corretora de ações do Scotiabank Brasil, Michel Frankfurt.
Segundo ele, no entanto, uma melhora mais clara do ponto de vista do fluxo estrangeiro para o Brasil deve ocorrer apenas caso o país atinja o grau de investimento. “Provavelmente a melhora da perspectiva não vai trazer muitos efeitos no curto prazo, apesar de ser uma sinalização positiva, mas coloca o Brasil em uma posição mais próxima do limite para o grau de investimento. Se, do ponto de vista da organização do Estado, as coisas se mantiverem mais ou menos constantes, poderíamos ficar a um ‘upgrade’ do grau de investimento daqui a seis meses ou um ano”, diz.
O forte desempenho dos ativos domésticos despertou a atenção dos participantes do mercado na sessão. Boa parte da valorização desses ativos veio após uma leitura do mercado de que o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, adotou um viés mais suave na quarta-feira, o que proporcionaria um ambiente positivo doméstico.
O dólar fechou em queda de 1,53%, a R$ 5,1134, e o Ibovespa avançou 0,95%, aos 127.122 pontos. Já no mercado de juros, a descompressão de prêmios de risco foi significativa, especialmente entre as taxas de longo prazo. Assim, a do DI para janeiro de 2027 recuou de 11,01% para 10,785%.
“Pareceu ser um movimento de ‘stop’ de posições pessimistas após um leilão de prefixados pequeno e um Fed menos duro. O mercado não conseguiu sustentar uma continuidade do pessimismo de antes”, diz o trader de renda fixa da tesouraria de um grande banco.
Na avaliação do chefe de pesquisas da Ativa Investimentos, Pedro Serra, o mercado optou por ver o copo “meio cheio” após a decisão do Fed, o que gerou a reação positiva dos ativos locais. Além disso, para ele, a melhora na perspectiva do rating brasileiro pela Moody’s pode ter alguma importância no âmbito de fluxo estrangeiro. “Pode acabar validando narrativas, diferenciando países e até impactando o mandato de alguns fundos. O investidor local, que acompanha mais de perto, faz suas próprias contas. A piora do mercado local nas últimas semanas ocorreu, também, por ruídos políticos e fiscais”, lembra.
Na leitura do economista-chefe do Banco Pine, Cristiano Oliveira, “o mercado não achava que o Fed seria tão ‘dovish’ [suave] quanto foi, ao dizer que não fazia parte dos planos elevar as taxas de juros”. Ele elenca esse como um dos motivos que levaram o mercado a adotar um viés mais positivo na sessão de ontem e cita, ainda, o conjunto recente de indicadores americanos, que afastou o risco de reaceleração do crescimento, e a perspectiva positiva atribuída pela Moody’s ao rating brasileiro.
“O Brasil tem apresentado um crescimento que é continuamente revisado para cima, o que sugere algum aumento de PIB potencial pós-covid; a inflação tem desacelerado continuamente; as contas externas estão indo muito bem; e há uma redução do risco político/institucional, já que deixamos para trás muitos ruídos vindos de embate entre poderes para uma relação um pouco mais amistosa”, diz Oliveira, ao elencar os motivos que geraram a melhora da perspectiva para a nota de crédito do Brasil.
Nesse sentido, o economista ressalta que o país ainda está em nível especulativo, mas diz que é possível voltar ao grau de investimento em alguns anos. “Não é algo para o curto prazo, mas a sinalização de ontem [quarta-feira] é de que, provavelmente, em 12 meses, o Brasil vai ter um ‘upgrade’. E outras agências também podem reconhecer um conjunto de variáveis que melhoraram ao longo do tempo, o que é positivo para o país”, afirma Oliveira. Para ele, não é novidade dizer que os analistas domésticos são mais pessimistas que os estrangeiros. “E o Brasil já merecia um ‘outlook’ positivo”, enfatiza.
Da mesma forma, o economista Ítalo Franca, do Santander, acredita que a perspectiva positiva atribuida pela Moody’s é válida. “Tem espaço para a nota do Brasil subir mais um degrau? Tem. E não seria nenhum absurdo se o Brasil continuar com um ritmo forte de crescimento, a questão fiscal não se deteriorar, a regulação da reforma tributária for aprovada No entanto, o caminho para a recuperação do grau de investimento tende a ser mais longo e precisaríamos ver frutos do ajuste fiscal, as metas de resultado primário serem cumpridas Temos desafios à frente.”
O “timing”, na visão de Franca, “causou estranheza” após a mudança das metas de resultado primário de 2025 em diante, por mais que o mercado já achasse que elas não seriam cumpridas. “Por isso vimos algumas críticas, mas a mudança na perspectiva ‘cabe’”, defende o economista do Santander.
Na visão de Franca, é como se o próximo degrau a subir – o da nota ‘BB+’ no caso das agências S&P e Fitch e ‘Ba1’ na Moody’s – fosse menor do que o degrau seguinte, que faria o Brasil retornar ao grau de investimento. “Temos contas externas robustas, o crescimento surpreendeu e tivemos avanço na seara fiscal, mas esse item ainda não está completo. Tivemos uma mudança de meta fiscal e postergamos o objetivo de alcançar superávit primário para 2026, mas se começarmos a ter mais firmeza com a robustez do crescimento econômico, o próximo degrau, que é menor, pode ser alcançado. Já para chegarmos ao outro precisaríamos ter fatos mais concretos”, enfatiza. (Colaboraram Arthur Cagliari e Augusto Decker)
Fonte: Valor Econômico
