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Trata-se de um cenário assustador para os estrategistas navais dos Estados Unidos, as empresas de navegação e o mundo: o risco de que um Irã acuado e ressentido possa querer reforçar seu gargalo no estratégico Estreito de Ormuz semeando minas mortais por suas águas.
Muitos especialistas em guerra de minas acreditam que Teerã já fez exatamente isso, espalhando alguns poucos dispositivos no leito marinho que poderia ativar a qualquer momento que quiser para ameaçar a navegação por uma rota na qual passa 20% do comércio marítimo mundial.
“Isso é quase certeza”, disse Farzin Nadimi, especialista nas forças navais iranianas no centro de estudos Washington Institute for Near East Policy, com sede nos EUA. “Elas estão esperando para ser ativadas.”
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A ativação dessas armas por meio de sinais acústicos ou de cabos ligados a instalações na costa – ou o lançamento de outros modelos menos avançados do estoque iraniano de mais de 6 mil minas navais – representa um enorme desafio para a Marinha dos EUA que conta com poucas contramedidas eficazes.
Não há confirmação de que minas iranianas tenham de fato sido colocadas e alguns especialistas não tem certeza de que Teerã o tenha feito. No entanto, autoridades em Washington disseram à imprensa americana que o Irã pode já ter posicionado até 12 minas no Golfo Pérsico, que em seu ponto mais estreito tem uma largura de apenas 21 milhas náuticas (38,89 quilômetros).
Os EUA divulgaram na última quinta-feira já ter destruído ou danificado mais de 30 navios lança-minas, mas Teerã ainda poderia espalhar minas a partir de embarcações de ataque restantes ou dispará-las pelos tubos de torpedo de submarinos.
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O número foi reafirmado ontem pelo presidente americano, Donald Trump, que vem cobrando o apoio de outros países em uma missão para permitir uma navegação segura pelo Estreito de Ormuz, por onde os navios praticamente deixaram de trafegar após os ataques com mísseis e drones lançados pelo Irã.
“Acertamos, até onde sabemos, todos os navios deles usados para lançar minas”, disse o republicano. “Agora eles podem colocá-las em outros tipos de navios, imagino, e jogá-las na água, mas não sabemos sequer se alguma delas já foi lançada.
Trump queixou-se da pouca disposição dos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar ocidental liderada pelos EUA, em apoiar um plano, ainda não detalhado por Washington, para usar navios militares em escoltas pelo Golfo Pérsico e também ajudar os EUA em uma eventual retirada de minas do Estreito de Ormuz.
Especialistas dizem que minas simples podem ser despejadas no mar a partir de barcos de pesca, navios de carga ou até dos “dhows”, embarcações de madeira tradicionais do Golfo Pérsico. Às vezes, só é possível perceber um navio lançando minas ao mar pelo barulho de grandes respingos em sua esteira.
“Há uma assimetria imensa entre colocar minas e removê-las, porque uma coisa é muito mais fácil do que a outra”, disse Tom Shugart, ex-comandante de submarino que hoje trabalha no centro de estudos Center for a New American Security.
Além das rudimentares minas de contato, os estoques de minas do Irã incluem versões modernas, capazes de ser detonadas em resposta a assinaturas acústicas, magnéticas e outras características específicas dos navios. Algumas são feitas para flutuar livremente, outras ficam presas por cabos ou repousam diretamente no fundo do mar. O Irã também possui as chamadas minas-lapa, que podem ser fixadas nos petroleiros que passam, a partir de lanchas rápidas.
Os espaços navegáveis estreitos do Golfo Pérsico são particularmente difíceis para a caça de minas, pois deixam os navios vulneráveis a ataques vindos da costa e dificultam o uso de sonares em meio à cacofonia submarina de motores de navios, infraestrutura e até de peixes e outras formas de vida marinha.
Entre os diversos tipos de minas, as que ficam no fundo do mar, que o Irã pode já ter colocado no leito do estreito, são as mais perigosas e difíceis de encontrar. Elas criam bolhas de alta pressão que podem abrir buracos no casco dos navios ou quebrar a quilha de embarcações menores. Para detectar essas minas pode ser necessário examinar imagens extremamente detalhadas do leito marinho em busca de pequenas diferenças que revelem sua presença.
Até as minas de superfície podem ser difíceis de identificar.
De acordo com Steven Wills, ex-oficial de um caça-minas americano que hoje trabalha no Center for Maritime Strategy, navios de transporte de gado podem descartar ovelhas mortas – cujas pernas ficam para fora da água quando incham – que às vezes podem ser confundidas com minas pelos vigias. “Potencialmente, esta é uma missão difícil”, disse ele.
Para agravar o desafio, por décadas, os EUA permitiram que suas capacidades de guerra contra minas se atrofiassem. Além disso, estão em processo de aposentar seus navios da classe Avenger com casco de madeira, os últimos navios caça-minas especializados que ainda restavam em sua Marinha.
Para substituí-los, há três navios de combate costeiro na região que assumiram a função de caça-minas. Em contraste com as embarcações especializadas, capazes de entrar rápido em campos minados, esses novos navios trabalham mina a mina, usando helicópteros com lasers e veículos não tripulados com sonares. “Será um processo lento e trabalhoso”, disse Wills.
Em 1988, durante a guerra entre Irã e Iraque, uma mina de contato iraniana presa por cabo danificou gravemente a fragata americana de mísseis guiados USS Samuel B. Roberts.
Ao longo de décadas, Washington dedicou menos de 1% de seu orçamento naval à guerra de minas, apesar de elas serem responsáveis por quase 80% dos navios de guerra americanos afundados ou incapacitados desde 1945 e por mais de 75% de suas baixas navais desde 1950. Hoje, os europeus têm mais capacidade de guerra contra minas do que os EUA.
“Tudo isso pode estar prestes a se voltar contra nós”, acrescentou Shugart, do Center for a New American Security.
Também seria a primeira vez que os Estados Unidos enfrentariam minas no mar enquanto estão sob ataque desde a Guerra da Coreia de 1950 a 1953.
“É difícil imaginar operações eficazes ou seguras de remoção de minas enquanto a guerra maior estiver em curso”, disse Caitlin Talmadge, do Massachusetts Institute of Technology. “Esta não é uma missão que você gostaria de realizar em meio aos disparos de uma guerra.”
De acordo com Talmadge, se os iranianos se empenharem em lançar minas no estreito, Washington poderia ficar pressionada a encerrar logo a guerra ou se ver obrigada a enviar forças especiais para eliminar ameaças em terra contra seus navios encarregados de caçar as minas e de escoltar outras embarcações.
Criar uma passagem através de um campo minado seria uma tarefa demorada. Os navios que fizessem a limpeza ou os que navegassem depois pelas rotas varridas estariam altamente vulneráveis. Precisariam avançar de forma lenta e previsível, o que tornaria muito mais fácil para o Irã atingi-los com mísseis e drones, segundo Scott Savitz, engenheiro sênior do centro de estudos RAND Corporation.
De acordo com Savitz, que já assessorou os EUA sobre guerras de minas, mesmo um pequeno número delas obrigaria tanto o tráfego comercial quanto o militar a considerar que tipo de risco os navios estariam dispostos a assumir.
“Você pode ter, na prática, um ‘campo minado’ com zero minas, se os demais acharem que isso representa uma ameaça substancial”, disse Savitz.
Especialistas também disseram que o uso de drones de desminagem, como sugerido pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, como uma possível forma de reduzir o controle do Irã sobre o tráfego marítimo na região, também tem sérias limitações que impedem uma mudança significativa na situação em curso no Estreito de Ormuz.
“Nossos sistemas de caça a minas já estão na região”, disse Starmer em uma entrevista coletiva ontem, em que negou um envolvimento maior do Reino Unido na guerra do Irã. “Já conversamos também sobre o que podemos fazer em relação à capacidade anti-drones.”
Esses drones têm autonomia de bateria limitada e precisam retornar aos navios para enviar seus dados se não estiverem em contato constante com controladores humanos. Em um cenário como o do Estreito de Ormuz, que está bem coberto por mísseis antinavio iranianos, isso significa que os drones não eliminam o risco para as empresas de navegação.
Uma forma de contornar isso é usar embarcações não tripuladas de superfície ou submarinas para caça de minas, como os sistemas construídos pela Thales SA e operados pela Marinha Real britânica. O Reino Unido está avaliando se pode ajudar implantando esses veículos autônomos ao lado de aliados. (Tradução de Sabino Ahumada; com agências internacionais)
Fonte: Valor Econômico