_Quadrilhas extorquem dinheiro de estabelecimentos, além de usá-los para lavagem de recursos e para vender carga roubada; polícia diz que faz operações e fecha locais
- O Estado de S. Paulo.
- 25 Aug 2022
- HUGO BARBOSA
Um levantamento do Conselho Regional de Farmácia (CRF) do Rio aponta que milícias dominam áreas do Estado onde funcionam 1.217 farmácias. Nessas regiões, milicianos cobram taxas de proteção dos estabelecimentos farmacêuticos, que são usados ainda para lavar dinheiro ilícito e vender cargas roubadas. Os criminosos também dificultam ou impedem o trabalho dos fiscais do CRF-RJ.
O levantamento cita vários casos nos quais funcionários do conselho sofreram intimidação e ameaças das milícias – quadrilhas de policiais, bombeiros e criminosos comuns, com cobertura política, que se fortaleceram a partir dos anos 1990. Os incidentes ocorreram quando os fiscais tentaram checar o cumprimento de normas legais, como a obrigatoriedade da presença de um farmacêutico na loja e o registro do estabelecimento.
RELATOS.
As abordagens, em diferentes ocasiões nos últimos anos – algumas sem data especificada, por precaução –, incluíram exibição de armas. “Quem manda aqui é (sic) nós”, ouviu, de um criminoso, um fiscal que teve furados três pneus do veículo da fiscalização do CRF, em ação de seis milicianos, em 2017. O mesmo método foi usado em Angra dos Reis, no litoral sul fluminense, também em 2017. “Durante a fiscalização realizada na margem da Rodovia Governador Mário Covas em Angra dos Reis, esvaziaram os dois pneus do carro do CRF-RJ no momento em que eu estava fiscalizando a farmácia, impossibilitando minha saída do local”, contou um funcionário.
Mais recentemente, em 2019, um fiscal contou ter sido ameaçado fisicamente por dois milicianos quando fiscalizava uma farmácia em Campo Grande, na zona oeste da capital. Após o incidente, ele disse que deixou o local por medo. O estabelecimento funcionava sem farmacêutico.
No mesmo bairro, onde atua a Liga da Justiça (atual Bonde do Ecko), a maior milícia do Estado e que incorporou traficantes, um miliciano informou a um funcionário do CRF que “aquela área era dele e na próxima vez não iria avisar de novo”. O criminoso também ameaçou com uma arma de fogo o fiscal que tentava multar a farmácia. “O miliciano falou que não era para autuar, caso ocorresse iria perseguir o carro onde quer que fosse”, afirmou. Há registros de ameaças em outras regiões do Estado. Nem o Conselho Regional de Farmácia nem os fiscais ameaçados quiseram comentar.
Segundo levantamento feito no fim de 2021 pela Associação do Comércio Farmacêutico, há 7.220 farmácias no Rio. Os estabelecimentos farmacêuticos que, segundo o estudo do conselho regional, ficam em territórios dominados por milícias equivalem a mais de 16% do total. Para se ter uma ideia, o número de negócios da área sob o domínio miliciano no Rio supera a terceira maior rede do setor no Brasil, que tem cerca de 1.100 unidades. Calcula-se que o mercado fluminense seja o segundo maior do País, movimentando R$ 10 bilhões anuais. “Essas taxas (de proteção) são uma das fontes de renda prioritárias do crime organizado”, diz Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Federal Fluminense.
DETALHAMENTO.
O levantamento revela ainda que a zona norte da capital fluminense é a região com o maior número de farmácias em territórios sob o controle miliciano. São 366 estabelecimentos ou 30% do total. Em seguida vem a Baixada, com 296 unidades nesta situação. Há ainda o eixo Itaboraí, Niterói e São Gonçalo, com 249 drogarias sob a influência dos criminosos.
Para Hirata, o predomínio de grupos milicianos em algumas partes do Estado é consequência de “um histórico bastante antigo que remonta aos grupos de extermínio atuantes na Baixada Fluminense”, explica. “Em um formato um pouco diferente, se formaram grupos como a própria Liga da Justiça, na zona oeste. A zona norte é o lugar onde os corredores logísticos criados a partir da zona oeste e da Baixada Fluminense se encontram. É uma região bastante importante na disputa das milícias com o tráfico de drogas.”
Procurada, a Polícia Civil informou que “já realizou operações e fechou diversas farmácias” ligadas a milicianos. A instituição não recebeu o levantamento do conselho, conforme apurou o Estadão. •
“Essas taxas (de proteção) são uma das fontes de renda prioritárias do crime organizado.”
Daniel Hirata Coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF