16 May 2024
EDUARDO LAGUNA FRANCISCO CARLOS DE ASSIS
Diante de questionamentos do mercado sobre o compromisso com a meta de inflação dos indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para compor o Banco Central, o diretor de Política Monetária da autarquia, Gabriel Galípolo, afirmou ontem que é uma obrigação manter os juros em patamar restritivo pelo tempo necessário para a convergência da inflação à meta.
“Quero fazer coro à fala de Campos Neto (Roberto Campos Neto, presidente do BC) sobre como funciona o arranjo de política monetária. Meta não se discute, se persegue. O CMN (Conselho Monetário Nacional) determina a meta, e cabe aos diretores do BC tornar a taxa de juro restritiva o suficiente para levar a inflação à meta”, afirmou Galípolo, em evento promovido pelo jornal Valor Econômico em Nova York.
Segundo Galípolo – que foi o número 2 do Ministério da Fazenda –, todos os nove integrantes do Copom “concordam com esse ponto e todos sabem que discussões não afetam esse objetivo (de fazer com que a inflação convirja para a meta)”. Ainda segundo ele, a discussão durante a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) na semana passada, que terminou com um corte de 0,25 ponto porcentual da Selic em meio à divisão do colegiado, era sobre o que seria perdido ou ganho com o fim do chamado “forward guidance” (ou sinalização) ao mercado.
Os quatro diretores indicados por Lula votaram por um corte maior da taxa básica de juros (de 0,5 ponto), o que acendeu no mercado o temor de que isso poderia indicar leniência com a inflação depois do fim do mandato de Campos Neto, em dezembro. Galípolo é visto, por ora, como favorito para ocupar o posto.
MUDAR VOTO. Ele afirmou que chegou a cogitar apoiar a proposta de corte de 0,25 ponto em vários diálogos, mas que entendeu que haveria um custo – um “risco reputacional”, como foi mencionado na ata do encontro – para a credibilidade da comunicação da autarquia. “Minha preocupação foi em romper a lógica da comunicação do BC, mas, se tivesse votado em 0,25 ponto, estaria confortável em justificar o meu voto. Mas tinha esse custo de abandonar o guidance”, disse o diretor.
Poucos dias antes da reunião do Copom, durante evento em Washington, Campos Neto deu declarações que levaram o mercado a abandonar a sinalização anterior (“guidance”) do próprio BC de um corte de 0,5% da Selic.
Endossando a mensagem contida na ata, Galípolo disse que hoje há o entendimento de que a desancoragem das expectativas (ou seja, a distância das previsões para a meta oficial de inflação) incomoda muito. “O meu mandato vai até março de 2027. Eu só quero ganhar credibilidade, preciso mostrar coerência entre minhas falas e ações. Do meu ponto de vista particular, me preocupo com função e reação que eu poderia passar com a comunicação. Se quero ganhar credibilidade, preciso mostrar coerência entre as minhas falas e minhas ações”, disse. •
Aata do Comitê de Política Monetária (Copom) dissipou as dúvidas do mercado de que o Banco Central (BC) estaria disposto a adotar uma postura mais leniente com a inflação. O tom do documento foi considerado duro e houve um esforço para esclarecer as razões pelas quais quatro dos diretores – todos indicados pelo presidente Lula da Silva – votaram por uma redução maior da taxa básica de juros.
Como esperado, a ala dissidente preferia seguir o rumo sinalizado na reunião anterior, na qual o BC indicou a possibilidade de uma última redução de 0,50 ponto porcentual (p.p.) na Selic. Para esses diretores, por maiores que fossem as incertezas externas e domésticas, a política monetária já estaria em nível suficientemente contracionista, e o custo de mudar a sinalização anterior poderia ser elevado demais.
Já os diretores que preferiram votar pela redução de 0,25 p.p. reforçaram que o cenário mais benigno com o qual trabalhavam até março não se confirmou. Ficou implícito, para esse grupo, que as declarações dadas pelo presidente Roberto Campos Neto em um evento em Washington, em abril, já eram uma indicação de que o BC não hesitaria em fazer o necessário para levar a inflação à meta.
Tecnicamente, a ata entregou as explicações esperadas e deixou a impressão de que os juros não mais cairão a um dígito, dada a avaliação unânime sobre a necessidade de uma política monetária “mais contracionista, mais cautelosa e sem indicações sobre os próximos passos”. Politicamente, no entanto, o BC ainda parece ter algo a dizer, haja vista que três integrantes do Copom saíram a público para fazer comentários adicionais sobre a última reunião do Copom.
À Bloomberg, o diretor de Assuntos Internacionais, Paulo Picchetti, sustentou que o comitê deveria “priorizar mecanismos oficiais de comunicação” que resultam de “conversas entre membros do conselho”, uma crítica não tão velada à atitude de Campos Neto.
Campos Neto, por sua vez, não escondeu o desconforto. Na abertura da Conferência Anual do Banco Central do Brasil, em Brasília, ele reforçou que as expectativas de inflação estão desancoradas e que a política monetária não permite discussões sobre o centro e a banda da meta de inflação. “Nossa meta é 3% e deveríamos persegui-la”, disse.
Já o diretor de Política Monetária do BC, Gabriel Galípolo, provável sucessor de Campos Neto no cargo, contemporizou. Em um evento em Nova York, endossou a declaração do presidente do BC sobre a necessidade de firme persecução da meta, mas não deixou de dar razão a Picchetti ao mencionar que Campos Neto não consultou os demais diretores antes do discurso em Washington, que pavimentou a decisão adotada na última reunião do Copom.
A piora nas expectativas, aliada ao conteúdo da última ata, já foi suficiente para o mercado ajustar suas posições – e já há quem espere que a Selic será mantida inalterada na próxima reunião, em junho. Fato é que o BC precisará aparar arestas e afinar sua comunicação antes disso – não para preparar o mercado para suas decisões, mas para preservar a credibilidade da instituição.
Fonte: O Estado de S. Paulo.
