Por Marcelo Osakabe e Gabriel Roca — De São Paulo
26/04/2022 05h01 Atualizado 26/04/2022
O próximo presidente do Brasil, qualquer que seja, não deve ter sucesso em respeitar o teto de gastos – norma que disciplina as despesas públicas. De acordo com o vice-economista-chefe do Instituto Internacional de Finanças (IIF), Sergi Lanau, em um país em que a criação de empregos e o crescimento são pequenos, regras muito agressivas para a contenção de gastos públicos dificilmente prosperam.
Mesmo assim, Lanau vê com bons olhos o trabalho realizado nos últimos anos para tentar reduzir as despesas primárias em relação ao PIB. Em entrevista ao Valor, ele afirma que, ainda que o ajuste seja feito de maneira mais lenta que o previsto, o mais importante é enxergar se o país está fazendo um esforço para gastar menos.
Lanau também acredita que os fluxos de capitais, que chegaram em volume elevado ao Brasil no primeiro trimestre, devem se manter positivos nos próximos meses, a despeito da desaceleração observada em abril. A distância geográfica do conflito no Leste Europeu, a característica de ser um país exportador de commodities e os preços dos ativos podem sustentar o fluxo estrangeiro. A seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: Por que acha que o teto de gastos não será respeitado pelo próximo presidente?
Sergi Lanau: Cortar gastos não é algo fácil. O histórico do Brasil nos últimos anos não foi ruim, exceção feita a 2020, quando o país foi um dos que deram maior impulso fiscal em resposta à crise da covid. Gastar mais é sempre mais fácil que voltar a cortar, mas o Brasil conseguiu fazer esse retorno e, este ano, a relação gasto primário em relação ao PIB ficará perto de 18,5%, Não é tão rápido quanto a regra original previa, mas a coisa mais importante é enxergar se o país está fazendo um esforço é para gastar menos.
Valor: Como o sr. avalia a dificuldade do Brasil em controlar gastos?
Lanau: É preciso levar em conta que, em um país em que a criação de trabalho e o crescimento são pequenos, regras de teto de gastos muito agressivas dificilmente vão funcionar. Toda vez em que o Orçamento for discutido a pressão por mais gastos irá voltar e acredito que será o caso neste ano e nos próximos. Para nós, enquanto a proporção de gastos do governo em relação ao PIB cair, mesmo que este seja em proporção menor que o inicialmente planejado, será uma sinalização positiva das autoridades. Sei que estou especulando, mas não me parece que nem Bolsonaro nem Lula conseguirão escapar dessa situação. Qualquer um que assuma em 2023 terá uma situação muito difícil. É claro que cada governo irá ter uma abordagem diferente, mas todos enfrentarão dificuldades e precisarão acomodar isso de forma que o gasto caia, mesmo que de forma mais lenta.
Valor: Quais outras experiências no mundo o Brasil pode buscar na hora de rever sua regra?
Lanau: O que o Brasil tenta fazer tem precedente. Fizemos um estudo com 200 episódios de consolidação fiscal no mundo e, na média, vimos uma redução de cerca de 2,6 pontos percentuais no gasto primário em cinco anos. Claro, há casos que fizeram muito mais e casos que fizeram menos. A regra brasileira previa, em cinco anos, queda de dois pontos percentuais antes da revisão do teto [em 2021]. Não é mais do que a média dos países que fizeram grandes cortes. No caso brasileiro, o que complica é que não houve crescimento nos últimos sete anos. Mesmo após revisar o teto, o gasto primário em relação ao PIB neste ano será 0,5 ponto porcentual menor que em 2019 – 18,9% contra 19,5%. Isto pode ser considerado positivo, especialmente levando em conta o forte crescimento dos gastos em 2020. Sem a revisão, a relação cairia a 17,7% do PIB, mas cortes tão amplos se provaram política e socialmente impraticáveis.
Valor: O conflito entre Rússia e Ucrânia beneficiou as exportações do Brasil. Será suficiente para provocar superávit em transações correntes?
Lanau: Não sei se podemos ir tão longe, em parte porque as importações também vão crescer, mas também porque é raro o Brasil apresentar superávit em conta corrente. O que é importante é saber se existe algum risco do ponto de vista das contas externas e, nesse sentido, diria que não. O déficit em transações correntes deverá ser pequeno, menor que 1% do PIB, e o fluxo de capitais deve mais que compensar a diferença.
Valor: Como a guerra pode afetar os fluxos de capitais para o Brasil?
Lanau: O Brasil, assim como outros países da América Latina, deve sofrer menos que outros emergentes por causa da guerra na Ucrânia. Está longe do conflito e tem poucos laços econômicos ou questões de importância estratégia. Claro que uma Europa crescendo menos não é algo bom, mas acredito que a região como um todo vá se sair melhor que outras.
Valor: A alta forte de juros pelo Fed pode reverter o fluxo para o Brasil?
Lanau: Ainda que se saiba que o Federal Reserve vai elevar bastante os juros, ainda não houve elevação dos juros longos americanos, como ocorreu em 2013. Isso faz esse aperto monetário ser muito mais amigável ao mundo emergente desta vez. Nesse sentido, acreditamos que o Brasil vá crescer ligeiramente acima de 1% neste ano.
Valor: Já há sinais de desaceleração no fluxo estrangeiro em abril. Estamos vivenciando uma reversão ou apenas amenização da tendência?
Lanau: Certamente houve fluxo bastante grande em direção a ações brasileiras, cerca de US$ 12 bilhões neste ano. Vimos essa desaceleração nas últimas semanas, mas acredito que seja um movimento natural, de quem obteve algum ganho e decidiu embolsá-lo. Não é necessariamente uma postura mais pessimista.
Valor: Qual a perspectiva para os fluxos de capitais para o Brasil?
Lanau: Olhando para frente, acreditamos que a situação vai permanecer positiva para fluxos. O principal driver continua a ser as commodities e a percepção de que alguns países vão se beneficiar mais disso que outros, que podem estar mais próximos do conflito e viverão sob mais incerteza. É difícil saber quando essa situação no Leste Europeu vai acabar, então a visão dos investidores deve continuar a de que commodities são um bom hedge contra o conflito.
Valor: Estamos diante de um cenário global de desaceleração econômica tanto nos EUA como na China. Como isso pode afetar as commodities, os mercados emergentes e o Brasil, mais especificamente?
Lanau: Sim, é uma possibilidade que esses eventos prejudiquem o crescimento dos emergentes. Se a recessão nos EUA se concretizar, poderá significar uma mudança nos fluxos em direção a esses países. Simpatizo com a ideia de que é preciso subir os juros mais rapidamente se a inflação sobe muito, mesmo que isso prejudique o crescimento. Só que este não é o maior risco neste momento. O maior risco é se os juros de longo prazo dos Estados Unidos subirem subitamente, como em 2013. No caso das commodities, os preços começaram a subir em meados do ano passado. Desde aquele momento, não houve grande mudança na demanda chinesa por commodities, que também não está alta em perspectiva histórica. É difícil entender o que levou a esse aumento dos preços, mas não é tão óbvio que seja a demanda chinesa.
Valor: O Brasil parece boa alternativa entre os emergentes, neste momento?
Lanau: Por causa das restrições associadas à política de covid zero de Pequim, estamos revendo as projeções de crescimento e acreditamos que poderá ocorrer contração do PIB chinês no segundo trimestre. Dada a dinâmica dos preços recentes, acredito que os preços das commodities podem continuar altos mesmo com a piora da China. Desde 2017 a relação de Pequim com os Estados Unidos e a Europa é complicada e investidores começam a entender que isto torna os investimentos mais arriscados. A Rússia é outro lembrete de como países com problemas com o Ocidente podem virar um problema para o investidor. Então temos visto alguns investidores deixando a China e é possível, sim, que busquem países sem esse tipo de problema, como o Brasil.
Fonte: Valor Econômico
