A reorganização dos fluxos globais em direção a mercados emergentes deve prosseguir nos próximos meses e, no Brasil, pode se combinar ao início do ciclo de cortes de juros, abrindo espaço para a valorização de ativos que ficaram para trás. Essa é a avaliação de Fernando Lovisotto, sócio responsável pelas estratégias de hedge funds e investment solutions da Vinci Compass, em entrevista ao Valor, que inaugura uma série do blog Intraday com gestores brasileiros.
O gestor revela ter posições em NTN-Bs de longo prazo, vê espaço para a continuidade do rali da bolsa e mantém posições compradas em real, ao acreditar que o ambiente externo pode levar o dólar para a casa de R$ 4,70. “Qualquer movimento pequeno para fora dos EUA é enorme para o resto do mundo”, enfatiza Lovisotto, para quem a indicação de Kevin Warsh para o comando do Federal Reserve (Fed, banco central americano) não altera as estratégias de alocação agora. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Valor: Neste ano, a palavra de ordem nos mercados globais tem sido “diversificação”. Por quê?
Fernando Lovisotto: Passamos por um momento, no ano passado, em que as pessoas se deram conta de que os portfólios estavam excessivamente concentrados nos Estados Unidos, e, dentro dos EUA, em S&P 500, que, por sua vez, é concentrado em empresas de tecnologia. No Brasil, a pessoa física está concentrada em LCI, LCA e debêntures incentivadas, e o investidor institucional, em NTN-B. É um nível de concentração muito alto. Não existe um grau de certeza suficiente para afirmar que apenas isso é bom.
Valor: O que mudou?
Lovisotto: As coisas são cíclicas. O Trump acabou dando a oportunidade para as pessoas perceberem isso e pensarem em diversificação, principalmente, o investidor global. Esses fluxos começaram a ser reorganizados. E qualquer movimento pequeno para fora dos EUA é enorme para o resto do mundo. O nível de concentração era tão grande que, mesmo aqui, qualquer entrada de capital gerou esse efeito significativo.
Valor: Há uma saída de capital dos EUA ou um redirecionamento de novos fluxos?
Lovisotto: Não é exatamente uma saída. Existe saída em alguns momentos, mas, na maior parte do tempo, ainda há entrada, só que menos do que antes. Os novos fluxos já vêm mais diversificados. Essa entrada não vai 100% para os EUA; parte dela vai para outros países. A partir daí, os investidores olharam o que estava mais caro e o que estava mais barato.
Valor: E isso privilegiou os mercados emergentes…
Lovisotto: Os emergentes, desde 2008, vinham sofrendo em relação aos mercados desenvolvidos, então estavam mais descontados. Veio, então, esse fluxo para emergentes como um todo. Não dá para dizer que foi só o Brasil. Teve Brasil, mas também Chile, Peru, Colômbia, Argentina, Coreia do Sul… É um fluxo bastante disseminado.
Valor: A nomeação de Kevin Warsh para o Fed muda algo?
Lovisotto: Eu gostei da indicação. É uma pessoa séria e tem reputação no mercado. Não acredito que apenas sua indicação mude a dinâmica de fluxos e diversificação de portfólios. Não é um fator que nos faria repensar a alocação.
Valor: A independência do Fed é uma preocupação?
Lovisotto: Sim, e acho que é um pouco por isso que a curva vai inclinando. Mas, na hora em que o novo presidente estiver sentado lá, vai ser fundamental observar como vai se comportar. Não basta olhar o discurso ou a expectativa; é preciso ver como a pessoa se comporta quando se senta na cadeira.
Valor: E quais seriam os principais riscos no cenário global?
Lovisotto: Vivemos em um mundo em que a maior parte dos presidentes é gastadora. O que veio de novo com a covid-19 foi esse fiscal forte, e ninguém tirou o pé. É muito difícil para um presidente reduzir gastos, porque isso pode custar a eleição. Muita gente achava que o Trump reduziria o déficit de algo como 6% do PIB para 3%, mas não. Continua em 6%, aumenta, e ainda pressiona o Fed para cortar juros… Ou seja, é o pé no acelerador tanto na política monetária quanto na fiscal. Já vimos o que acontece nesse tipo de situação: a economia acaba superaquecendo. Ainda há toda a questão geopolítica. Parece que todo mundo está se reorganizando, mas agora isso ganha um contorno mais forte, até bélico. Isso ficou mais intenso do que a gente imaginava. A partir daí, começa um movimento que também passa a puxar as commodities, e isso dá outro impulso para os emergentes.
Valor: Até onde isso vai?
Lovisotto: Ainda vai continuar. Essa questão geopolítica tende a permanecer, e a dinâmica das commodities, pelo jeito, também deve durar mais tempo. O petróleo, por exemplo, só começou a subir agora… Além disso, tem aquelas commodities de que todo mundo fala e que ninguém sabe exatamente quais são, como as terras raras. O Trump não parece cansado da política de pressionar o Fed, de querer juros mais baixos. Isso acaba se refletindo em preços. Inclusive, recentemente, ele voltou a falar do dólar fraco e comentou que não caiu muito, o que reforça essa leitura de que esse discurso e essa postura ainda vão seguir presentes.
Valor: O maior risco é, então, um aumento da inflação nos EUA?
Lovisotto: Sim. E ainda tem a questão de o Trump colocar todas as fichas na ideia de ganhar as “midterms”. A lógica é deixar todo mundo feliz: consumidor, chefe, todo mundo. Todo mundo recebendo cheques, é fiscal na veia. Quando isso pega? Na hora que a economia superaquecer. E, para isso, precisa aparecer na inflação. Isso não tem acontecido e, ao olhar os dados, nosso economista [José Carlos Carvalho] acredita que essa inflação vai demorar para aparecer, já que alguns preços de moradias caíram nos EUA.
Valor: O exterior, então, segue positivo para o Brasil agora?
Lovisotto: Ele ajuda bastante. Tem o vento dos fluxos e, agora, um vento muito forte com a redução de juros. Isso, com certeza, impulsiona os ativos. Mesmo que a curva já tenha se movido, acho que agora, com o início efetivo do ciclo de cortes, alguns investidores que estavam esperando passam a entrar. Tem investidor que prefere entrar quando o juro já está sendo cortado, não antes. Isso deve dar um impulso grande aos ativos locais.
Valor: Todos os mercados devem ser beneficiados?
Lovisotto: Sim, inclusive os que ainda não andaram. As NTN-Bs andaram pouco e agora começam a reagir com a perspectiva de queda de juros. Na bolsa, o movimento foi muito mais no Ibovespa, e não nas “small caps”, que estão muito descontadas e podem começar a performar melhor agora. Temos esse movimento de “catch-up” [recuperação] dos ativos que ficaram para trás com o fluxo e o corte dos juros. Parece ser o próximo vetor de mercado.
Valor: Existe espaço para uma queda das taxas das NTN-Bs?
Lovisotto: É um mercado que nós gostamos, mas que, nos últimos dois ou três anos, tem sido bem difícil. O mercado acabou retirando prêmio da inflação “implícita” e as NTN-Bs praticamente não se mexeram. Elas foram punidas. Agora, com a chegada do ciclo de corte e com o mercado procurando ativos que ficaram para trás, acho que elas têm espaço para andar.
Valor: Essa já é a expectativa do mercado há um bom tempo
Lovisotto: Sim, e, por outro lado, existe uma questão importante do lado de demanda. Os maiores compradores de NTN-Bs são os fundos de pensão e os RPPS e eles já estão bastante carregados nesse ativo. Esse tipo de comprador basicamente já se esgotou. A pergunta passa a ser: quem é o novo comprador? Hoje, não está claro que exista um. Além disso, houve o efeito do Tesouro emitindo muitos papéis. Mas, dito isso, acho que o próximo movimento tende a ser de fechamento de prêmio. Gostamos das NTN-Bs mais longas e temos posição nelas. Inclusive, vemos alguns estrangeiros olhando esse mercado, o que não é comum.
Valor: Depois desse rali de janeiro, a bolsa ainda está barata?
Lovisotto: Do meio de 2021 até março de 2023, nós tivemos um “bear marke” e, logo depois desse período, a bolsa estava barata. O preço/lucro (P/L) estava no chão. Agora, com esse fluxo e essa puxada recente, já tem gente dizendo que a bolsa está cara. Por outro lado, o “bull market” começou em março de 2023… As pessoas falam pouco disso. O rali não começou no ano passado; ele começou em março de 2023. De março de 2023 para cá, a bolsa já acumula quase 90%, partindo de algo em torno de 100 mil pontos. Não é pouca coisa…
Valor: Por que não pareceu um “bull market”?
Lovisotto: Foi um “bull marketp” estranho. Em 2023, a bolsa só subiu de fato entre novembro e dezembro. Foram dois meses com altas de cerca de 10%. Todo mundo acabou não acreditando que já tinha entrado em um “bull market”. Aí, em 2024, que vinha andando bem, devolveu tudo entre outubro e dezembro. Ou seja, 2023 e 2024 já era um “bull market”, mas com uma dinâmica muito irregular. Em 2025, engrenou depois do Trump: começou subindo, caiu no mês de abril e depois voltou a subir.
Valor: Os fundos de ações seguem exibindo resgates…
Lovisotto: Os gestores locais enfrentaram muita dificuldade. Para o gestor, é duro: o “bull market” aqui é um “bull market” sem entrada e com resgate. Esse é o ponto. É um “bull market” vindo do estrangeiro, que comprou EWZ – basta olhar a quantidade de emissão de EWZ, que foi enorme. Ao mesmo tempo, a abertura da “boca de jacaré” entre “small caps” e o Ibovespa está em algo como 40% a 50%, dependendo da janela. Ou seja, não é um “bull market” em que tudo sobe. E é justamente por isso que eu acho que ainda tem continuidade.
Valor: Como viu o anúncio de início do ciclo de flexibilização monetária no Brasil em março?
Lovisotto: Já havia condição de cortar. Só deixamos de acreditar que não haveria corte porque a curva não sinalizava nada e o Banco Central não tomaria uma medida sem a chancela do mercado. Na nossa leitura, o corte é de 0,5 ponto em março. Pode até acelerar – tem gente achando que pode ir para 0,75 ponto -, mas a nossa cabeça é de 0,5 ponto. E seguir cortando de 0,5 ponto em 0,5 ponto, em um ciclo que, na nossa avaliação, dá pelo menos 3,5 pontos. Este ciclo, para o Brasil, é duradouro e acho que deve empurrar bastante os ativos.
Valor: Como as eleições podem interferir no ciclo?
Lovisotto: A eleição deve começar a ser importante em breve para o mercado, quando soubermos quem serão os candidatos. Se olharmos para as outras variáveis, parece estar tudo bem. O dólar acabou ajudando muito, beneficiando a inflação. Agora, no início do ano, a questão é a seguinte: se todo esse cenário continuar igual, o dólar tende a cair e o real a se valorizar.
Valor: Então vocês têm posição no real agora?
Lovisotto: Estou na ponta dos que acham que o dólar pode ficar abaixo de R$ 5. Sempre acreditei em algo ali perto de R$ 4,70. Eu gosto do real. Do lado do investidor, abre condição de ele fazer uma diversificação de portfólio e mandar uns 2% do patrimônio para fora. Este é um bom momento, e não com o dólar a R$ 6,30… Se não tiver nenhuma trombada de fora, esse é o cenário. Se tiver uma trombada, o dólar pode andar e aí o BC, eventualmente, pode ter que rever sua estratégia. Sobre as eleições, será preciso ver o que o candidato que ganhar vai falar sobre o fiscal. Seguimos com um problema nessa questão, o que não é novidade.
Valor: O problema fiscal do Brasil não tem tido tanto efeito nos mercados desde o ano passado…
Lovisotto: Os EUA têm se comportado um pouco como um país emergente e, por isso, um solavanco externo pode ser grande. Podemos viver dois mundos neste ano: na primeira metade do ano, um mundo muito positivo, de continuidade do ano passado; e, na segunda metade, um ambiente de maior risco. E não sei se isso terá tanto a ver com a eleição. Se o Brasil não cuidar do fiscal, em algum momento isso vai se tornar um problema grande. Quando o ambiente externo estiver desfavorável, essa conta pode ser mais cara. Claro que piora no relativo. Poderíamos estar discutindo cortar os juros para 8%… Não acredito que esta discussão fiscal, agora, seja capaz de interromper a tendência. Mas, quando o mundo piora, essas dificuldades ficam mais evidentes.
Fonte: Valor Econômico

