Com uma ata que, no geral, adotou um tom bastante duro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) buscou reforçar que o ciclo de aperto dos juros não chegou ao fim e que, diante da “elevada incerteza” do cenário, optou por sinalizar apenas a direção — de alta — do próximo movimento da Selic. O documento foi bem recebido no mercado, mas não modificou de forma relevante a sensação de que o ciclo deve continuar até junho e de que os juros devem ficar ao redor de 15%, nos maiores níveis desde 2006.
Três pontos de análise de conjuntura foram os que mais chamaram a atenção dos agentes de mercado: a posição do comitê sobre a desaceleração da atividade econômica; o apontamento sobre a importância de os canais de transmissão da política monetária ficarem desobstruídos; e a preocupação com a desancoragem adicional das expectativas de inflação.
Nesses três pontos, o colegiado foi visto como mais conservador pelos participantes do mercado, o que fortaleceu a percepção de juros mais altos e por um período prolongado. “O cenário de convergência da inflação à meta torna-se mais desafiador com expectativas desancoradas para prazos mais longos e exige uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”, escreveu o próprio comitê na ata.
“O ciclo de alta de juros não acabou”, diz o economista-chefe para Brasil do Bahia Asset Management, Luiz Felipe Maciel, para quem a ata foi “consistente com o cenário macroeconômico que estamos vivendo”. O cenário base defendido pela gestora inclui a Selic em 15,25% no fim do ciclo, em junho, com a taxa mantida em níveis elevados por um longo período.
“A ata mostra que existe, sim, uma continuidade do processo de aperto, mesmo que em menor magnitude”, enfatiza Maciel, ao destacar tanto o apontamento do Copom de que deve haver harmonia entre as políticas monetária, fiscal e parafiscal quanto o termo utilizado pelo colegiado, de “obstrução da política monetária”. “Novas medidas de crédito público, parafiscal e contabilidade criativa atrapalham a vida do BC, que está tentando apagar o incêndio da inflação com os juros, mas que pode ter um lado obstruindo”, afirma o economista.
Maciel enfatiza que, pelo que indicou o Copom, uma desaceleração da atividade econômica é esperada e é essencial para a convergência da inflação para a meta de 3%. “O grau da desaceleração vai fazer toda a diferença no processo”, diz o economista, cuja projeção de crescimento para este ano é de 2,5%, o que indicaria uma desaceleração gradual e, portanto, um processo lento de desinflação.
“O mercado já precifica queda de juros e o Focus tem uma Selic de 12,5% no fim de 2026. Nós não acreditamos que a Selic vá para esses níveis no próximo ano, porque, no nosso cenário e no do próprio BC, existe uma inflação significativamente acima da meta. Vemos uma convergência lenta”, alerta.
A visão guarda semelhanças com a do economista Marco Antonio Caruso, do Santander, para quem a ata apresentou um viés mais conservador, mas sem alterar drasticamente a precificação do mercado para o aperto monetário em curso. A curva de juros, no momento, aponta para uma Selic em torno de 15,5% no fim do ciclo.
Na avaliação do economista, embora mantenha o caminho à frente em aberto por conta da incerteza, o Copom sugere que os juros ficarão “altos por mais tempo” ao citar a defasagem do impacto da política monetária sobre a economia real, além de acrescentar que a convergência de inflação “exige uma restrição monetária maior e por mais tempo”. De forma geral, Caruso acredita que, mais uma vez, o nível de 15,25% “soa como teto para o BC”.
No caso do economista-chefe e estrategista da AZ Quest, André Muller, o Copom deve efetuar um aumento de 0,5 ponto no juro básico em maio e uma elevação de 0,25 ponto em junho, o que levaria a Selic a 15% no fim do ciclo.
“A postura do BC é a de se manter mais conservador para, até mesmo, intensificar o processo de ancoragem [das expectativas de inflação]”, diz o economista, ao notar que, recentemente, houve uma queda da inflação “implícita”, ainda que bastante limitada. Dados da Anbima apontam que, no fim da sessão de ontem, a inflação extraída da NTN-B com vencimento em agosto de 2026 estava em 5,46% contra 6,36% no início do mês.
Muller avalia, inclusive, que, para haver um debate sobre o início de um processo de flexibilização monetária, é necessária a queda das expectativas para um menor esforço do lado da atividade, diante da intenção de combater as pressões inflacionárias. “O ambiente dos últimos três meses deve prevalecer para termos isso, sem haver mudanças na direção da política fiscal e com o BC tendo liberdade para agir”, diz o economista.
Por outro lado, o economista Leonardo França Costa, do ASA, avalia que o comitê não pode encerrar um ciclo de aperto com uma postura mais suave, o que o leva a acreditar que a alta da Selic esperada para maio deve ser a última. Para ele, as menções ao efeito defasado da política monetária e à expectativa de uma política monetária restritiva por mais tempo são sinais de que o Copom está “criando um cenário no qual ele para e mantém os juros elevados”.
Na visão de Costa, a atividade econômica mostra sinais de recuperação após um quarto trimestre “fora da curva” e o quadro inflacionário como um todo se mantém bastante pressionado. “O que a gente vê é que o Copom está tentando ganhar tempo. É como se estivesse dizendo que entregou os 3 pontos percentuais de alta e vai entregar mais um pouco, e que é possível acreditar que algum efeito vai vir desse aperto”, afirma.
Embora não seja o seu cenário-base, o economista do ASA não descarta a possibilidade de o Copom aumentar a Selic em 0,5 ponto mais uma vez em junho, para 15,25%, a depender da dinâmica da atividade econômica e da inflação até o fim do semestre.
Vale notar ainda que, na ata, o Copom destacou a incerteza no ambiente global e na atividade doméstica, além do cenário adverso da inflação. Para o colegiado, mais incertezas globais e movimentos cambiais abruptos exigem “maior cautela na condução da política monetária doméstica”.
No caso da economia dos Estados Unidos, apesar de ressaltar que o cenário-base do colegiado continua sendo de “desaceleração gradual e ordenada”, o Copom levantou que há dúvidas em “diversas dimensões”, como sobre restrições de oferta de trabalho, abrangência e intensidade da elevação de tarifas de importação e possíveis estímulos fiscais.
“A incerteza sobre a implementação das tarifas também tem impacto sobre expectativas, determinação de preços e inflação. Desse modo, parte dessa deterioração do cenário, que também já foi discutida em reuniões anteriores, já começa a se materializar”, disse o colegiado na ata. Houve menção, ainda, ao cenário europeu, onde há “renovadas pressões para uma expansão do gasto público.
Fonte: Valor Econômico
