Por Ricardo Bomfim — De São Paulo
03/05/2024 05h02 Atualizado há 10 minutos
O modelo de sucesso da Tether, empresa responsável pela emissão do USDT, a maior moeda digital atrelada ao valor do dólar no mundo, atraiu diversos concorrentes para o negócio. O principal deles, a Circle, com sua USDC, chegou a ameaçar o domínio da líder ao oferecer uma moeda com maior transparência de reservas e supostamente mais segurança, mas acabou perdendo fatia de mercado por sua exposição ao falido Silicon Valley Bank (SVB). Hoje, mesmo com um ambiente ainda mais concentrado, novas empresas despejam no mundo todo suas “stablecoins”, como são conhecidas as moedas digitais atreladas a uma divisa soberana.
Uma delas é a Ripple, famosa pelo “token” para transferências internacionais XRP. A companhia anunciou no começo de abril que lançaria uma stablecoin pareada com o dólar para explorar de forma complementar à sua criptomoeda principal. “Este é um passo natural para a Ripple continuar a preencher a lacuna entre as finanças tradicionais e as criptomoedas”, afirmou em nota Brad Garlinghouse, CEO da Ripple.
Outra empresa que foca nesse mercado é a Paxos, emissora da USDP, uma stablecoin regulada em jurisdições como Estados Unidos, Cingapura e Abu Dhabi. Juliana Felippe, líder da operação da Paxos no Brasil, diz ver stablecoins como o futuro do dinheiro, capazes de resolver as ineficiências que existem atualmente no sistema financeiro. “O Pix resolveu apenas a questão dos pagamentos internamente, enquanto qualquer tipo de transação pode ser feita com stablecoins, inclusive transfronteiriças”, afirma.
O valor de uma stablecoin é mantido sempre estável em relação a alguma divisa tradicional, como o dólar americano, na proporção de um para um. Um USDT, USDC ou USDP vale sempre US$ 1 (ou, pelo menos, deveria valer). Para manter tal proporcionalidade, os emissores de stablecoins montam uma reserva da moeda que se quer parear, representada principalmente por ativos seguros equivalentes a dinheiro, como títulos do Tesouro dos EUA. Uma stablecoin com US$ 100 bilhões de oferta precisaria ter US$ 100 bilhões nesses ativos para garantir que cada dólar digital tem lastro real.
Esse modelo de negócios se mostrou extremamente rentável por poder ser mantido a um custo relativamente baixo. A Tether, que possui uma oferta de US$ 110 bilhões de USDT, reportou um lucro de US$ 4,52 bilhões no primeiro trimestre deste ano, sendo que pelo menos US$ 1 bilhão deste montante foi resultado do pagamento de juros pelo Tesouro dos EUA. Com apenas 125 funcionários, o lucro da companhia equivale a US$ 36,2 milhões por funcionário.
O problema para os novos entrantes é que o mercado é extremamente concentrado. O valor de mercado somado de todas as stablecoins existentes é de US$ 160,9 bilhões, segundo dados do CoinGecko, sendo 68,4% do total só da Tether. O USDC, por sua vez, responde por US$ 33,4 bilhões, ou 20,8%. Todos os outros tokens do tipo competem pelos 8,8% restantes do mercado. O Pax Dollar, USDP, da Paxos, tem uma capitalização de US$ 139 milhões, e o PayPal USD (PYUSD), também emitido pela Paxos, de US$ 302 milhões.
Christian Bohn, cofundador e CSO da Parfin, diz que a utilidade das stablecoins é inegável. Uma delas é a de transferir dólares instantaneamente via blockchain a um custo baixo para qualquer lugar do mundo sem precisar passar por uma cadeia de bancos intermediários, como ocorre no sistema internacional Swift. No entanto, Bohn avalia que Tether e USDC já estão com narrativas que, atualmente, dão conta do mercado.
“A USDC está indo para uma visão extremamente regulada baseada nos EUA. Hoje, eles se associam a bancos de primeira categoria, como o J.P. Morgan”, conta. Do outro lado, a Tether acaba funcionando como o sistema para quem não quer se expor aos EUA. “Se eu abrir conta na Tether, não posso ter nenhuma entidade nos EUA. As reservas deles são de contas abertas em Malta, Bahamas e outras jurisdições, algo que atrai países que possuem restrições com os EUA, como Rússia e China”, explica. Para ele, sobrou pouco espaço para outras narrativas que sustentem a criação de novas stablecoins, motivo pelo qual, na opinião dele, diversas stablecoins, como a Binance USD (BUSD), acabaram desaparecendo. “Uma exchange grande pode tentar impulsionar uma stablecoin para seus usuários, mas existirão poucas empresas com capital para manter essa estratégia.”
A Paxos, contudo, diverge desta visão e defende que o negócio de stablecoins não funciona de maneira tão padronizada. “As pessoas que usam nos EUA são diferentes das que precisam dessa tecnologia no Brasil e na Argentina”, diz Felippe. Na opinião dela, os vencedores deste mercado serão aqueles que conseguirem apresentar um diferencial, como proteção ao consumidor e facilidade de uso. “O design das stablecoins deve evoluir.” A executiva lembra que no caso da PYUSD, a stablecoin do PayPal, houve uma interconexão importante de soluções com a plataforma africana Yellow Card, que permitiu maior utilização da moeda digital para clientes da região.
Fonte: Valor Econômico
