No momento em que os debates sobre uma bolha da inteligência artificial (IA) vêm à tona no mercado, os investidores devem se mostrar atentos, sobretudo, aos negócios de tecnologia em nuvem. Isso porque, na avaliação do analista Thomas Humpert, da Neo Investimentos, alguns sinais sobre possível falta de demanda por IA já começam a assustar alguns participantes do mercado, ainda que de forma pontual.
Desde a temporada de balanços do segundo trimestre, começaram a surgir notícias de negócios entre os grandes nomes do setor, o que acendeu um alerta entre os agentes financeiros à medida que são sempre as mesmas empresas dominantes anunciando investimentos bilionários entre si. “Esses negócios são um sinal amarelo, porque podem indicar falta de demanda… Ainda não é nada concreto, mas pode ser um sinal”, afirma Humpert, ao Valor.
A Nvidia, que tem estado no centro do rali das ações ligadas ao desenvolvimento de inteligência artificial, anunciou um investimento de US$ 100 bilhões na OpenAI em setembro, com a condição de que a empresa compre seus chips. No mesmo mês, a OpenAI, dona do ChatGPT, firmou um acordo de US$ 300 bilhões com a Oracle, gigante no setor de negócios de nuvem, e outro de US$ 6,5 bilhões com a CoreWeave para o uso de seus data centers, que são equipados com infraestrutura da Nvidia. A Oracle também teria comprado cerca de US$ 40 bilhões em chips da Nvidia, como parte do projeto Stargate, segundo o Financial Times.
“A expectativa em torno da IA é gigantesca e existem dúvidas sobre o quanto é possível sustentar esse investimento, porque você precisa de tecnologia, energia, data centers Por outro lado, existe uma demanda que é muito longe de ser óbvia, que é o quanto a inteligência artificial vai revolucionar o dia a dia das pessoas e o trabalho como um todo”, pondera o analista da Neo. “Um dos sinais de que essa demanda não está acontecendo são esses acordos. Está tudo dentro das mesmas empresas, que estão dominando o mercado.”
Por outro lado, Humpert aponta que, embora os “valuations” [avaliação de mercado] dos grandes nomes relacionados ao desenvolvimento de IA, como a Nvidia, estejam elevados, ainda não são “assustadores” e estão longe de onde estavam essas métricas na bolha da internet, no início dos anos 2000. “Não acho que seja uma bolha como a da internet, que viu ações de empresas relevantes despencarem mais de 80% em um período curto de tempo. São empresas muito estruturadas, que geram muito caixa e conseguem se adaptar muito rápido. Seria um susto, mas vamos ter um momento de adaptação.”
Um dos sinais de que demanda por IA não está acontecendo são os acordos; está tudo dentro das mesmas empresas”
Desde a recuperação após o “Dia da Libertação” de Donald Trump, em 2 de abril, as bolsas de Nova York vêm sucessivamente atingindo novos recordes, em um rali liderado pelas empresas de tecnologia. O setor acumula valorização de mais de 20% no S&P 500 no ano. Humpert avalia que a continuidade desse movimento depende do desempenho das empresas desse setor daqui para a frente, o que “pelo menos no curto prazo, não deve mudar”.
“É um momento muito complexo. Enquanto uma parte enorme do mercado está achando que pode ser uma bolha, a outra está ganhando muito dinheiro”, observa Humpert. “Mas enquanto não tivermos uma resposta, o mercado deve continuar pagando para ver.”
No entanto, Humpert também alerta que o bom desempenho das bolsas está concentrado nas empresas de tecnologia, o que acaba “mascarando” o real desempenho do mercado de ações americano. “A economia americana, como um todo, vai bem, mas tem uma dúvida de até que ponto isso está sendo empurrado pelos investimentos de grandes empresas e a concentração de renda, que é muito grande”, afirma. Atualmente, as cinco maiores empresas de tecnologia nos Estados Unidos representam cerca de 16% de todo o mercado global de ações.
Fonte: Valor Econômico
