Por Eduardo Magossi — De São Paulo
11/09/2023 05h03 · Atualizado há uma hora
Embora as ações das empresas chinesas estejam baratas e subvalorizadas, a China não é um bom lugar para se investir atualmente e nem deverá ser nos próximos dez anos, na
avaliação do diretor-chefe de pesquisas da Ásia do banco suíço Julius Baer, Mark Matthews.
Em rápida passagem pelo Brasil, Matthews, que é sediado em Cingapura, falou com o Valor sobre sua desconfiança com os números oficiais de crescimento da China, sobre a política de flexibilização monetária japonesa e a pujante economia da Índia. Leia os principais pontos da entrevista.
Valor: A China é um bom lugar para se investir?
Mark Matthews: Não, não é. A China é uma destruidora de capital, embora oficialmente ela tenha crescido muito mais que os demais países do mundo nos últimos 30 anos. O PIB chinês cresceu 4.225% nesse período, mas o investidor que colocou US$ 100 lá em 1993, teve um retorno de apenas US$ 150 depois de todo esse tempo. Por outro lado, os Estados Unidos cresceram 280% no mesmo tempo e o investidor sacaria US$ 1790, considerando a valorização do S&P 500.
Valor: Qual o problema da China para o investidor?
Matthews: Falta transparência e também é um mercado muito controlado pelo governo. Veja, depois de crescer muito durante muito tempo, agora ela está desacelerando. Mas não estamos vendo um efeito dominó que uma desaceleração lá deveria ter provocado. E isso é um mistério. Talvez a economia chinesa esteja crescendo a taxas menores que as divulgadas há mais tempo. Não vemos um enfraquecimento da economia mundial provocado pela China. Pelo contrário, veja a força da economia americana, por exemplo. O PIB chinês do segundo trimestre foi de 6,3%, ao mesmo tempo que o desemprego entre os jovens bateu os 21%. Não faz muito sentido. E veja os preços do petróleo e os preços do minério de ferro, não estão caindo. Muitos fazem uma correlação entre o enfraquecimento da China e os preços do petróleo, mas os EUA são os formadores dos preços, porque são os maiores consumidores. Além disso, eles possuem uma grande dificuldade em mudar a política.
Valor: O governo chinês está implementando estímulos…
Matthews: Sim, eles podem fazer efeito daqui a uma década, mas a visão do governo tem que mudar. Nenhum país deveria ter 30% de seu PIB no setor imobiliário, por exemplo. A China tem US$ 62 trilhões investidos no setor imobiliário, dos quais 20% é estoque, e USS$ 19 trilhões em renda fixa e US$ 13 trilhões em ações. Já os EUA possuem US$ 34 trilhões em imóveis, US$ 48 trilhões em renda fixa e US$ 47 trilhões em ações. Eu posso entender porque eles querem mudar o setor imobiliário, que é um grande problema, e posso entender porque querem reprimir grandes plataformas de tecnologia, como Alibaba e Tencent, que possuem práticas monopolistas que estão afetando as pequenas e médias empresas. Mas tudo isso afeta os mercados. Além do controle estatal. A China possui 34% de capitalização do mercado acionário da Ásia, seguido de 19% do Japão. Mas ao se tratar de capitalização de mercado de ações disponíveis, o ‘free float’, o Japão tem 45% ante 14% da China, porque as grandes empresas são do governo.
“A China é uma destruidora de capital, embora oficialmente ela tenha crescido muito mais que os demais países”
Valor: E o Japão? O sr. acredita que eles abandonarão os juros negativos em breve?
Matthews: Não. Em um primeiro momento, a flexibilização do controle da curva de juros pareceu indicar que o Japão, o único país que ainda está com os juros negativos, iria abandonar esta postura. Mas o mercado não interpretou dessa forma. Ele viu o contrário, que o Banco do Japão vai evitar fazer um aperto real o máximo que puder. E provavelmente isso é verdade porque o Japão teve 20 anos de deflação e agora estão adorando a inflação. E a política ultraflexível ajuda a manter esse cenário. O Japão é um país rico. As famílias detêm cerca de US$ 13 trilhões em ativos financeiros. Eles podem bancar 10% a mais por qualquer coisa. E as coisas não estão caras no Japão. O iene está competitivo, embora nossa projeção é que ele se valorize 15% nos próximos 12 meses à medida que o mundo comece a encerrar seu ciclo de aperto monetário e o dólar passe a cair.
Valor: Qual é o melhor lugar para se investir na Ásia?
Matthews: A Índia. Aqueles mesmos US$ 100 se fossem investidos no mercado de ações da Índia geraria um retorno de US$ 1520. Não bate o S&P 500, mas chega perto. A Índia está passando por grandes transformações com um grande crescimento interno. A economia indiana deve crescer três vezes nos próximos dez anos, a renda per capita praticamente dobrou nos últimos anos e tem uma população ativa de cerca de 1 bilhão de pessoas, diferente das economias desenvolvidas onde a força de trabalho segue em queda. E a Índia tem feito sua lição de casa em reformas, como a expansão da cobrança de impostos. A coleta explodiu e o governo pode investir US$ 1 trilhão em infraestrutura, o que vem atraindo cada vez mais empresas. A Apple vai aumentar sua produção na Índia de 7% para 25%. Empresas como Samsung e Boeing também estão indo para lá. Então, demografia, tamanho de mercado, liquidez e reformas conspiram para fazer da Índia o país que mais vai contribuir para o crescimento mundial nos próximos dez anos. E veja, os CEOs de Adobe, YouTube, Channel, Starbucks, Fedex, Microsoft, Google, IBM, Deloite, Vimeo, Gap, entre mais de 20 grandes empresas globais, são indianos. Não acho coincidência.
Fonte: Valor Econômico
