Por Matheus Prado — De São Paulo
07/07/2022 05h03 Atualizado há 32 minutos
Com incertezas externas e internas, o Ibovespa tem mostrado dificuldade para retomar o desempenho positivo anotado nos primeiros meses de 2022, quando chegou a avançar cerca de 16% em moeda local. Hoje, o índice opera abaixo dos 100 mil pontos e tem desvalorização de 5,8% no ano, o que reflete os riscos de recessão global, uma reabertura mais lenta que o esperado da economia chinesa e o imbróglio fiscal doméstico.
Ainda assim, a média das projeções de bancos e corretoras consultados pelo Valor aponta que o Ibovespa encerrará este ano em 122.694 pontos. A mediana é de 123.750 pontos. Apesar de o preço-alvo atual apresentar uma redução em relação à média de 124,5 mil pontos da pesquisa anterior, realizada em janeiro – o que indica um movimento, ainda que restrito, de revisões -, o referencial teria de avançar 24,2% em relação ao fechamento de ontem para cumprir a expectativa.
As projeções de 18 instituições financeiras consultadas variam entre os 110 mil pontos, nas mais pessimistas (alta de 11,4% até o fim do ano), e os 135 mil pontos, o que representaria ganho de 36,7% para o índice nos próximos seis meses. Mais adiante, no fim de junho de 2023, Goldman Sachs e Morgan Stanley projetam que o referencial estará em 118 mil pontos e 130 mil pontos, respectivamente.
O principal indicador da bolsa local chegou a ultrapassar os 120 mil pontos no início de abril, carregado por empresas ligadas a commodities e pelo setor financeiro. Adotou então tendência negativa e, desde 28 de junho, não fecha acima do nível psicológico dos 100 mil pontos, afetado por riscos externos e pela piora na percepção de risco fiscal no Brasil. A retomada das altas, dizem os profissionais, passa pela recuperação dos ativos ligados à economia local e pela estabilização das commodities.
Ao se considerar que os principais inibidores de uma melhor performance do índice partem de fatores macro, os resultados corporativos ainda não sofreram – e podem nem sofrer – revisões. Diversas métricas de “valuation” (avaliação de empresas) do Ibovespa se mostram atualmente em patamares fortemente deprimidos. A relação entre o preço e o lucro (P/L) das empresas que compõem o índice, por exemplo, está próxima de 6,8 vezes, bem abaixo do nível de 11,5 vezes da média histórica.
“Ninguém discorda que, em termos de ‘valuation’, o Ibovespa está barato. E o endividamento das empresas também diminuiu, o que mostra a qualidade das empresas. Mas a discussão neste momento é menos sobre as companhias e mais sobre o cenário macro”, aponta Marcelo Sá, estrategista-chefe do Itaú BBA. “O ambiente econômico se deteriorou em algumas variáveis: inflação alta e mais persistente; expectativa de juros mais elevados no Brasil e nos EUA; e o impacto fiscal.”
O executivo conta que revisou recentemente sua projeção para o índice no fim de 2022 de 115 mil pontos para 110 mil pontos, porque, entre outras variáveis, o custo de capital das ações locais cresceu. Segundo os cálculos da casa, o valor saltou de 13,15% para 14,75%, reflexo dos impactos macroeconômicos acumulados durante o ano.
“Em relação ao investidor estrangeiro, que esteve na ponta compradora dos ativos locais no início do ano, fizemos ‘road show’ recentemente nos Estados Unidos e entendemos que, neste momento, estão ‘underweight’ em Brasil, apesar de o interesse se manter elevado. Eles estão buscando entender quando será o pico da inflação por aqui e, consequentemente, em que ponto acaba o ciclo de aperto monetário local. Também estão de olho no fiscal, na sustentabilidade da dívida/PIB e nas incertezas eleitorais”, afirma Sá.
Caesar Maasry, chefe da área de mercados emergentes e investimentos globais do Goldman Sachs, acredita que o Brasil está mais bem posicionado que boa parte dos seus pares emergentes para os próximos 12 meses, mas também considera a eleição presidencial um ponto de atenção ainda não precificado por agentes internacionais.
Além disso, ele entende que os mercados acionários globais ainda estão “caros” em relação ao avanço das taxas de juros. E, no intervalo de um ano, para o qual tem projeção de 118 mil pontos para o Ibovespa, Maasry opina que os ativos locais poderão perder prioridade em relação ao próprio mercado americano, que passa por correção mais profunda do que aqui.
“No curto prazo, ainda estamos cautelosos na tomada de riscos, principalmente porque os juros seguem elevados. Ademais, o Ibovespa está 20% melhor que o S&P 500 este ano, o que sugere que o melhor posicionamento dos ativos brasileiros ‘já foi pago’ pelo investidor. A nossa visão, a partir disso, é que mesmo que haja ‘upside’ [viés de alta] para o índice local, e até acreditamos que há, será difícil bater a performance do S&P 500 quando este começar a subir”, afirma.
Entre os riscos positivos para o mercado brasileiro, por outro lado, Maasry aponta que uma indicação de conclusão do ciclo de aperto monetário do BC brasileiro abrirá oportunidades entre ativos mais ligados à economia doméstica. “Ao contrário dos mercados desenvolvidos, a correlação entre as ações de emergentes e as taxas locais tem sido consistentemente negativa na última década. Historicamente, o pico da curva, talvez acompanhado por preços mais baixos de petróleo desta vez, é um presságio positivo para a performance dos mercados acionários emergentes”, diz.
Anand Kishore, gestor de renda variável da Daycoval Asset, que tem projeção de 134,5 mil pontos para o Ibovespa no fim do ano, espera que a reversão do ciclo de aperto monetário doméstico seja um grande propulsor do índice já no segundo semestre. Nessa linha, ele vê a volta do investidor a ativos de risco como questão de tempo.
“Daqui dois, três meses, o mercado não vai estar mais discutindo quando o ciclo de aperto vai acabar, e sim quando a reversão irá começar. Na minha visão, o BC deve iniciar seu processo de corte de juros no segundo semestre de 2023 e, quando o mercado tiver clareza disso, os ativos começarão a andar rapidamente.”
O gestor afirma ainda, que, caso o governo chinês queira realmente entregar o crescimento econômico de 5,5% previsto para 2022, precisará estimular a atividade, o que pode voltar a impulsionar ações ligadas a commodities metálicas. Sá, do Itaú BBA, tem visão semelhante. “A China está reabrindo e tem eleição este ano, então temos visão positiva para o minério de ferro. Pode até cair, mas não será um colapso. E o petróleo, mesmo mais ligado à economia global, tem problema de oferta, o que deve manter preços elevados.”
Fonte: Valor Econômico
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