Os fundos multimercados no Brasil ficaram caracterizados por serem personalistas, gigantes e com poucas opções de investimentos, cuja monotonicidade na gestão fez com que ficassem para trás de forma geral. A avaliação é de Laurence Mello, que há cerca de seis meses passou a ser executivo-chefe de investimentos (CIO) de fundos macro, alternativos e de crédito na AZ Quest. Com visão distinta da média do mercado, o executivo está começando a implementá-la na gestora: a ideia é ampliar o campo de atuação dos multimercados, incluindo crédito e commodities, principalmente.
“A indústria global está migrando para o modelo americano, que usa várias estratégias, incluindo criptomoedas. Ainda estamos fazendo fundos macro como 20 anos atrás.” Para ele, a classe no Brasil sempre foi muito baseada na capacidade do gestor, mas a complexidade dos mercados mundiais vem deixando claro que cada vez menos essas pessoas dão conta da tarefa. A indústria, recorda, também era mais simples, dividida entre renda fixa, ações e multimercados. “Esse lugar mais próximo do que se está fazendo nos EUA não está ocupado no Brasil. O mercado precisa se movimentar para recuperar a confiança do investidor na classe, e já estamos fazendo isso.”
Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), os multimercados estão a caminho de fechar o quarto ano seguido de captação líquida negativa em 2025. De janeiro de 2022 a novembro de 2025 já acumulam saldo negativo de R$ 675,2 bilhões, embora neste ano tenha havido melhora, com resgates superando os investimentos em R$ 61,8 bilhões, frente a R$ 315 bilhões de igual período de 2024.
Mello diz que os juros altos e a concorrência dos investimentos isentos de Imposto de Renda (IR), como Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio (LCIs e LCAs) e debêntures incentivadas, vêm sendo usados por gestores como “muleta” para justificar erros de estratégia. “Os isentos existem desde 2014 com liquidez diária e nunca ninguém abriu a boca. Agora que eles não têm conseguido performar, virou uma justificativa fácil.”
Por isso, afirma, é preciso processo e controle. Os sistemas de registro de posições na gestora estão sendo revistos para permitir entrar e sair do risco mais rapidamente. A ideia é ter uma fatia pequena de crédito no Brasil e uma maior no exterior, cuja complexidade é maior. “Lá fora o spread de crédito é negociado igual a câmbio e bolsa, a liquidez é alta, dá para atuar de forma muito inteligente.”
A indústria global está migrando para o modelo americano, que usa várias estratégias, incluindo criptomoedas”
Mello cita como oportunidades o setor imobiliário na Península Ibérica e de infraestrutura na Europa em geral. Os regulamentos dos fundos da AZ Quest, comenta, já permitem esses mandatos mais amplos e o processo de estruturação deve estar azeitado, incluindo patrimônio e equipe, em no máximo cinco anos. Mas já no fim do primeiro semestre de 2026 as cotas vão mostrar os efeitos das mudanças, afirma. “Tenho viajado bastante para fazer parcerias.”
O CIO da AZ Quest lamenta a perda de peso da indústria de fundos nos últimos anos, e diz que a gestora conseguiu crescimento relevante graças à decisão de ser multiprodutos com muita atenção ao varejo, sem deixar de atender a private e institucional. De R$ 18 bilhões em 2021, o total sob gestão foi a R$ 38 bilhões neste ano. “Aprendemos a nos comunicar com o varejo com os agentes autônomos, de forma que o mercado é cíclico e o público vai mudando de produto, mas o dinheiro fica na AZ Quest. Não importa o que estava acontecendo, a gente está lá.”
Uma das grandes vias de crescimento, aponta, foram os fundos de crédito líquidos e a entrada, no fim de 2021, na área de alternativos, hoje com R$ 6 bilhões, em agronegócio, imobiliário e infraestrutura, com fundos fechados de prazo longo ou negociados em bolsa. O executivo diz também que a gestora “não estica a corda” do mandato e abre mão de ser a primeira do pódio para estar no primeiro quartil. “Uma das minhas funções é provocar os gestores ou os originadores para adaptar os investimentos para trazer para o nosso mandato, buscando por exemplo garantias adicionais.”
Neste ano, nos fundos de crédito líquidos, ele afirma que a captação “está de lado”. O foco foi maior em alternativos e, em menor grau, em ações. Daqui para frente, prevê, estará cada vez mais em estruturados, com liquidez em 45 ou 60 dias. Mello vê o boom de crédito privado de 2024 para cá como consequência dos juros muito altos, que levaram o segmento a um espaço maior do que deveria estar. Ele acredita que, quando o afrouxamento monetário começar, haverá um ajuste. “Mas não de repente, vai ser uma readequação confortável.”
Fonte: Valor Econômico
