Por Gabriel Roca e Victor Rezende — De São Paulo
29/03/2023 05h03 Atualizado há 9 horas
Na esteira da divulgação da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central e de declarações de membros da autoridade monetária, que procuraram manter o tom duro emitido no comunicado da semana passada, os agentes desfizeram parcialmente as apostas prematuras de cortes na Selic, o que levou os juros curtos a fecharem o pregão em alta. A mensagem conservadora do Copom também deu força ao real e, na bolsa, a valorização das commodities impulsionou o Ibovespa, que retomou o nível dos 100 mil pontos.
O Copom enfatizou que a execução da política monetária requer “serenidade e paciência” para avaliar os efeitos da alta dos juros na inflação e voltou a demonstrar preocupação elevada com o movimento de desancoragem das expectativas. A mensagem do BC foi considerada dura por parte dos agentes de mercado, especialmente por aqueles que esperavam sinalizações mais amigáveis ao governo, no contexto atual de elevada pressão política sobre a autarquia.
Nesse contexto, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 subiu de 13,055% para 13,13%, enquanto a do DI para janeiro de 2025 avançou de 11,88% para 11,97% na B3.
A mensagem da ata acabou reforçada pelo diretor de política econômica do BC, Diogo Guillen, em evento do Goldman Sachs ontem. Segundo ele, a queda da inflação no Brasil pode ser vista em dois estágios. O primeiro, já encerrado, foi impulsionado por medidas tributárias e commodities, e o segundo, em curso, é mais lento e é mais impactado pela política monetária. “Há indicação neste início de ano de resiliência dos núcleos. Neste segundo estágio, a velocidade de desinflação é menor”, disse. “O segundo ponto é a questão das expectativas de inflação desancoradas até 2027, quase 100 pontos-base [1 ponto percentual] da meta estipulada pelo CMN”, afirmou.
Na avaliação da economista-chefe do Credit Suisse Brasil, Solange Srour, ainda que o texto da ata da última reunião do Copom possa ter sido percebido como duro por parte de economistas e agentes de mercado, o tom foi correto, diante do processo de desancoragem das expectativas de inflação, das incertezas acerca do arcabouço fiscal e do nível das metas de inflação.
“Entendo que o tom possa ser percebido como duro, mas acho que é o correto. Estamos em um processo de desancoragem das expectativas, incertezas fiscais e quanto à mudança nas metas. Por mais que os juros estejam altos e a economia desacelerando, não temos visto nem o BC e nem o mercado diminuindo suas projeções de inflação. Ninguém vê a inflação indo em direção à meta”, diz Srour.
Apesar das sinalizações duras da autoridade monetária, agentes financeiros continuam a demonstrar confiança de que a tendência do mercado de juros pode melhorar, especialmente após a divulgação do arcabouço fiscal. Para o economista-chefe da Exploritas, Andrei Spacov, a ata passou a sensação de que a autarquia “está ‘hawkish’ [conservadora], mas, se houver alguma melhora na percepção do mercado sobre as contas públicas e se não existir um grande movimento parafiscal do BNDES, a situação tende a melhorar à frente.”
“Temos duas reuniões até agosto onde a Selic deve ficar parada, no nosso cenário. A ata não aliviou em relação ao comunicado, mas foi mais explicativa”, nota o economista. Spacov observa que o Copom abordou algumas questões, como a reoneração dos combustíveis, mas que também emitiu alguns avisos sobre a política parafiscal do BNDES, ao indicar que uma postura expansionista pode elevar a taxa de juros de equilíbrio.
A mensagem do BC e a ausência de mais atritos entre o governo e a autoridade monetária também acabaram contribuindo para uma valorização do real. O dólar comercial fechou o dia aos R$ 5,1643, em queda de 0,81%.
Já o Ibovespa terminou o pregão em alta e voltou a superar o patamar de 100 mil pontos, com apoio do avanço dos papéis de commodities. O principal índice da bolsa subiu 1,52%, aos 101.185 pontos, mesmo com a ligeira queda dos índices em Nova York. Por lá, o S&P 500 caiu 0,16%, o Dow Jones recuou 0,12% e o Nasdaq perdeu 0,45%.
Fonte: Valor Econômico

