Por Harriet Clarfelt — Financial Times, de Nova York
07/03/2023 05h02 Atualizado há 4 horas
Empresas nos Estados Unidos e Europa que levantaram recursos baratos durante anos vêm se deparando com a volta de um antigo medo: o risco de rebaixamento de suas notas de crédito.
Os custos de captação de recursos decolaram desde que o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) começou a elevar sua taxa referencial de juros para tentar conter a inflação. Os investidores agora querem pagamentos de juros em torno a 9% ao ano das empresas americanas classificadas com notas de crédito baixas pelas agências de classificação de risco, em comparação aos pouco menos de 5% registrados em março de 2021.
Diante desse preço salgado, as empresas que têm altos ratings, para não correr o risco de vê-los rebaixados, estão evitando emissões de títulos de dívida para financiar expansões ou aquisições e, em vez disso, recorrendo mais ao capital acionário.
“A grande mensagem é que você precisa de mais capital acionário agora do que há 18 meses, porque [agora] seu rating é mais importante”, disse Andreas Bernstorff, chefe de mercado de capitais na Europa do BNP Paribas, em Londres. “O acesso ao mercado [para empresas] com notas de investimento especulativo não está bom e está caro.”
Quando as taxas referenciais de juros estavam baixas nos anos que se seguiram à crise financeira mundial em 2008 e os bancos centrais compravam títulos para apoiar o mercado, as empresas podiam se dar ao luxo de não se preocupar com as classificações de crédito. Agora, entretanto, mesmo empresas nos EUA com notas boas, de investimento não especulativo, estão precisando pagar uma média acima de 5,7% ao ano para captar dinheiro no mercado de títulos, em comparação a apenas 2% há dois anos.
Esse forte aumento nos juros a pagar – e o crescimento na diferença entre o custo de captação dos emissores de alta qualidade e o daqueles com notas de investimento especulativo – têm alimentado temores quanto a possíveis rebaixamentos de crédito. Ao mesmo tempo, isso tem coibido o apetite por transações, financiadas por bônus, que possam comprometer essas notas.
“As empresas estão mais interessadas em proteger os ratings agora”, disse Teddy Hodgson, codiretor global de dívidas sindicalizadas no Morgan Stanley. “Não vejo nenhum apetite por qualquer alavancagem [de fusões e aquisições por meio da emissão de títulos] que traga a ameaça de um rebaixamento para ratings de investimento especulativo.”
As empresas estão realizando “menos grandes transações para aquisições alavancadas”, disse Gregg Lemos-Stein, analista sênior da S&P Global Ratings. “Sempre que houver uma alta nas taxas de juros, no mínimo isso dará a qualquer empresa um estímulo para pensar em sua estrutura de capital ideal”, afirmou.
Os sinais de persistência da inflação impediram uma recuperação no preço dos títulos no início de 2023, com os mercados agora apostando que as taxas dos EUA permanecerão altas por mais tempo – chegando a 5% até o fim do ano. Hoje, estão na faixa de 4,5% a 4,75%. Essa mudança provocou algumas grandes oscilações nos mercados de títulos – o que é má notícia para as empresas que pretendem captar e têm classificações de crédito mais baixas.
“O mercado de alto rendimento pode ficar fechado em tempos de volatilidade”, disse Arvind Narayanan, gerente sênior de portfólio da Vanguard. “As empresas estão muito preocupadas” em manter seu acesso ao mercado de maior qualidade, disse.
Um relatório recente da S&P Global Ratings revelou que 25% dos captadores com classificação “BBB” – a mais baixa entre as notas de investimento não especulativo – do setor de produtos de consumo dos EUA cortaram suas metas de alavancagem de longo prazo em 2022, em parte pelas altas taxas de juros. Ao mesmo tempo, os autores disseram que “o mix de financiamento de fusões e aquisições mudará e que provavelmente mais capital acionário será usado”.
Os altos custos dos empréstimos e a falta de clareza quanto às perspectivas econômicas, por sua vez, levaram mais empresas a considerar financiar-se por meio de ações, incluindo títulos conversíveis. Esses bônus começam a vida como qualquer outro título, mas incluem opção que permite aos investidores trocá-los por ações, caso elas atinjam determinada cotação. Os conversíveis podem permitir que os emissores captem mais barato do que com um título normal, de forma que há menos risco adicional de rebaixamento.
As emissões de conversíveis nos EUA diminuíram quase 70% em 2022, mas a emissão mensal em fevereiro foi a maior desde novembro de 2021, segundo dados da Refinitiv. “O mercado de conversíveis reabriu com força”, disse Tammy Serbée, diretora de mercados de capital de renda fixa nas Américas do Morgan Stanley.
Algumas empresas não têm mostrado acanhamento em anunciar negócios financiados por títulos, mas tendem a ser aquelas com classificações mais altas ou em setores vistos como de menor risco. Os mercados “ainda estão abertos” para captadores de empréstimos de ratings altos, disse Tim Kurpis, chefe de operações de investimento não especulativo da AllianceBernstein, citando a emissão pelo laboratório farmacêutico Amgen de bônus de US$ 24 bilhões em fevereiro para financiar a aquisição da Horizon Therapeutics.
“Os tipos de aquisição sendo vistos estão em setores a respeito dos quais os investidores se sentem muito mais confortáveis; setores mais defensivos”, disse Narayanan. “Muitas são empresas de alta qualidade envolvendo-se em fusões e aquisições, [que] não sofreriam necessariamente um rebaixamento ao fazer isso.”
Os executivos de banco de investimento, contudo, podem estar pensando duas vezes quanto ao impacto nas classificações de crédito das empresas antes de levar a cabo algumas transações – em especial se isso deixar as empresas mais perto de perder seu cobiçado status de investimento não especulativo. “Se os custos aumentam quando se é um ‘anjo caído’, há mais incentivos para se evitar isso”, disse Lemos-Stein.
Fonte: Valor Econômico

