Por Anaïs Fernandes — De São Paulo
13/07/2023 05h00 Atualizado há 4 horas
O crescimento da massa salarial ampliada do Brasil neste ano ainda deve ser mais que o dobro do comportamento estrutural da medida, que engloba salários, contribuições previdenciárias e transferências federais e tem importantes efeitos sobre o consumo das famílias e, portanto, sobre o Produto Interno Bruto (PIB) do país.
Estudo do Santander assinado pelos economistas Gabriel Couto e Ítalo Franca estima o crescimento da massa salarial ampliada brasileira no longo prazo – isto é, a partir de 2026 – em 1,4% ao ano.
No ano passado, segundo o Santander, a massa salarial ampliada saltou 8,7%. Neste ano, deve desacelerar para 3,9%, acima, porém, da previsão anterior, de 3,1%.
“Neste ano, ainda vemos efeito da resiliência do mercado de trabalho, com uma taxa de desemprego bem abaixo do que seria o ‘desemprego estrutural’, posição em que deve ficar, pelo menos, até meados de 2024”, explica Couto. “Com isso, os salários reais devem continuar robustos, ainda que não tanto quanto no ano passado, quando, além da recuperação pós-pandemia, contribuiu a forte desaceleração da inflação.”
Para 2024 e 2025, as projeções do Santander de massa ampliada foram ajustadas para baixo, de 1% para 0,9% e de 1,6% para 1,4%, pela ordem, mais por causa de revisões na série e do efeito de uma base mais alta em 2023 do que por premissas diferentes, pondera Couto.
“Para o ano que vem, vemos uma desaceleração bem mais considerável e um crescimento abaixo do que estimamos ser o estrutural, em parte porque o mercado de trabalho começa a sentir, com defasagem, de maneira mais clara o ciclo monetário contracionista”, afirma Couto. Além disso, diz, a “herança positiva” que a recuperação dos salários reais no segundo semestre de 2022 deixou para 2023 não deve se repetir de novo na passagem deste ano para o próximo.
“Para 2025, devemos ter um crescimento mais alinhado com a estimativa estrutural, até porque também já devemos ter um PIB mais em linha com o seu potencial de longo prazo, que estimamos em 1,5%”, aponta Couto. “Em relação à massa salarial ampliada e o ao crescimento de longo prazo, vemos as coisas bastante próximas.”
O comportamento estrutural da massa ampliada reflete, segundo o Santander, o comportamento de três variáveis: a população ocupada, os salários reais médios e as transferências governamentais.
Para o crescimento da população ocupada, o Santander assume uma taxa média de 0,8% ao ano. A estimativa reflete projeções do IBGE para a expansão da população em idade produtiva até o fim da década e os pressupostos do banco de que, no longo prazo, tanto as taxas de participação quanto as de desemprego permanecerão estáveis.
Em relação aos salários reais médios no longo prazo, o Santander observou, nas duas últimas décadas, uma correlação positiva com o crescimento da produtividade. Essa relação não é perfeita porque a produtividade do trabalho tende a aumentar em um ritmo ligeiramente mais rápido do que os salários reais. Como o Santander projeta um crescimento da produtividade de longo prazo em torno de 1% ao ano, o banco espera um crescimento anual de 0,6% para os salários reais no período.
Por fim, para calcular as transferências do governo, o Santander assume uma regra em que o salário mínimo real, que indexa vários benefícios, aumenta pela inflação e é acrescido da alta média do PIB nos últimos dois anos. Além disso, os economistas assumem um aumento vegetativo médio real de beneficiários de 2%; que os gastos com Bolsa Família devem ficar ao redor de R$ 165 bilhões ao ano, com algum possível ganho de eficiência do programa ante os R$ 175 bilhões previstos para 2023; e que os benefícios previdenciários, depois da reforma, devem ficar estáveis ao redor de 8,5% do PIB.
Couto e Franca também calcularam a elasticidade entre a massa salarial e o consumo das famílias, estimada atualmente em 1,05 – ou seja, cada 1% de aumento na massa salarial real eleva o consumo em 1,05%. Essa relação chegou a superar 1,5% na pandemia, mas a expectativa do banco é que vá retornando ao nível pré-covid, de 1%.
“Esse é o impacto médio ao longo do tempo. Não necessariamente, todo ano será assim. Por mais que a gente projete a massa ampliada crescendo quase 4% em 2023, por exemplo, não temos crescimento de 4% para o consumo das famílias, porque outros fatores impactam, como a desaceleração do crédito”, diz Couto.
No longo prazo, dois vetores limitam o crescimento da massa ampliada, segundo ele. Primeiro, com a população crescendo cada vez menos – como já indicam os primeiros dados do mais recente Censo do IBGE -, a força de trabalho e a população ocupada também avançam menos. Segundo, o Brasil se depara com um problema de baixo crescimento da produtividade, o que acaba impactando os salários.
Reverter a tendência demográfica de crescimento populacional menor, um fenômeno até mundial, é difícil, diz Couto. “Por outro lado, a produtividade é uma questão que ainda temos como endereçar e ajudar a contrabelancear o efeito demográfico negativo”, afirma. Franca acrescenta que a questão da produtividade passa por reformas como a tributária e outras que tragam mais eficiência à economia brasileira.
Fonte: Valor Econômico

