Por Adriana Mattos, Valor — São Paulo
11/05/2023 17h03 Atualizado há 7 horas
A rede de vestuário Marisa, em processo de reestruturação de dívidas, teve dois pedidos de falência solicitados por credores nos últimos dias. Ainda há uma terceira ação que continua em andamento desde abril, da Plasútil Indústria e Comércio de Plásticos. No total, estão em aberto dívidas de R$ 882,7 mil.
A companhia afirma que tratam-se de valores “muito pequenos” e vai se defender nos autos.
A primeira ação tramita desde o dia 3 na 3a Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, no valor de R$ 363,5 mil, e foi requerida pela MGM Comércio de Acessórios de Modas. Nos autos, a fabricante informa que foi fechado um acordo para os pagamentos em atraso, mas não “foram adimplidas as devidas parcelas”. A carta de citação à rede foi expedida na quarta-feira.
O segundo pedido feito neste mês, da fabricante de calçados Oneflip, na 2a Vara de Falências, refere-se a uma dívida de R$ 345,7 mil — a ação tramita no tribunal desde a terça-feira. O terceiro caso, da Plasútil, refere-se a um valor de R$ 173,5 mil, e tramita na 3a Vara desde o dia 31 de março. Até ontem à tarde, não havia depósito em juízo para as três ações.
O presidente da Marisa, João Pinheiro Nogueira Batista, disse ao Valor ontem que os pedidos de falência são de valores “muito pequenos”, e tratam-se de montantes que restaram no processo de negociação com fornecedores e bancos.
“São coisas bem pequenas, e nada representativas perto dos mais de 90% dos fornecedores com quem já contatamos e conseguimos alinhar conversas, tudo de forma muito organizada. Estamos com um processo avançado de renegociação de dívidas, criando uma empresa mais saudável, e com apoio da ampla maioria de nossos parceiros”, disse ele.
“Tentamos acordos [com os credores que ajuizaram ações] e agem assim porque não quiseram, então houve oportunidade para negociarmos”, acrescentou.
A Marisa está em processo de renegociação de dívidas, após aumento do juros, desaceleração das vendas e a crise de crédito no setor desencadeada com o rombo contábil da Americanas, que veio à tona em janeiro. Esse cenário afetou os indicadores financeiros da rede de moda e também de boa parte das varejistas brasileiras.
Notas das demonstrações de resultados da Marisa do último trimestre de 2022 mostram que, pelos contratos com bancos, a rede precisa respeitar cláusulas de “covenants”, que exigem a manutenção da razão entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (ebitda), em patamar inferior a 3,5 vezes.
Como o limite foi desrespeitado (a dívida líquida era de R$ 560 milhões em dezembro para um ebitda de varejo de R$ 63 milhões), ela abriu negociações com Bradesco e Safra, ambos com “covenants” renegociados neste ano.
Em termos de empréstimo e financiamento à Marisa e ao MBank, banco digital do grupo, eram R$ 470 milhões com vencimento no curto prazo, segundo as demonstrações. Os números do primeiro trimestre devem ser publicados no dia 15.
No balanço do ano passado, portanto, antes da reestruturação financeira em andamento, a auditoria da rede, a EY, fez um alerta (chamado “ênfase”) relativo a incerteza relevante sobre continuidade operacional da Marisa.
Relatou que, no exercício de 2022, o passivo circulante superou o ativo circulante em R$ 174,8 mil, e houve desenquadramento da operação da MPagamentos junto aos limites do Banco Central. Essa questão foi debatida no BC neste ano, comunicou a rede semanas atrás, com a apresentação de proposta de capitalização do negócio pelos controladores. A cadeia entende que isso resolve a questão.
Há um plano de reestruturação da Marisa em andamento, com fechamento de 90 lojas com resultado abaixo do esperado (quase 30% da base), redução de despesas e busca de receitas extras. Em março, a empresa vendeu parte de seus direitos creditórios de natureza fiscal pelo preço antecipado de R$ 100 milhões à gestora Quadra.
Sobre pedidos de falência, a rede informou esta semana que tomou conhecimento pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A autarquia questionou a rede sobre as ações requeridas por Plasútil e MGM. A varejista informou que não havia sido citada no processo e apresentará a sua defesa tão logo isso ocorra. Acrescentou que o caso da Plasútil não é novo, e já se manifestou sobre ele em abril. (Colaborou Felipe Laurence)
Fonte: Valor Econômico

