Por Gabriel Roca — São Paulo
24/05/2023 05h02 Atualizado há 2 horas
A possibilidade de alteração da meta de inflação, acompanhada de perto pelos participantes do mercado devido às suas implicações para a política monetária, tem sido a principal responsável pela “desancoragem” nas projeções dos economistas, segundo estudo elaborado pelo Santander. A conclusão é que, se o governo decidir manter o alvo no patamar atual, de 3%, as estimativas podem recuar.
A mediana das projeções de inflação no Boletim Focus – coletado pelo Banco Central (BC) junto a economistas de mercado – está atualmente em torno de 4%. No entanto, pode voltar para perto dos 3,4% se a meta for mantida, indica o levantamento.
“Nosso modelo mostra que a discussão sobre uma possível elevação da meta de inflação já levou os agentes a anteciparem essa mudança e considerarem em suas expectativas um aumento de 0,6 ponto percentual na meta de inflação, para 3,6%. Com isso, estimamos que, caso a meta não seja alterada, os agentes teriam que reavaliar suas hipóteses, o que poderia levar a uma queda de 0,60 pp nas expectativas de inflação, do nível atual de aproximadamente 4% para algo próximo a 3,4%”, afirmam os economistas Daniel Karp e Felipe Kotinda, autores do estudo.
Eles ponderam que, dadas as incertezas relacionadas à elaboração de qualquer modelo, uma queda de 0,3 a 0,4 ponto percentual nas projeções de inflação seria mais provável, ao menos em um primeiro momento de reavaliação dos agentes financeiros.
Neste sentido, Karp aponta que, se a meta fosse alterada para um número próximo de 3,6%, não deveria haver deterioração adicional nas projeções de inflação, já que este seria o nível “implícito” de meta com que o mercado trabalha atualmente. Por outro lado, caso a meta subisse para além de 3,6%, poderia haver outra rodada de deterioração nas expectativas.
“No exemplo de uma mudança para 4%, e assumindo a ancoragem total na nova meta, o que é uma forte suposição, as expectativas poderiam chegar a pelo menos 4,5%; se a mudança da meta for para 4,5%, as expectativas podem chegar a pelo menos 5,1%. Se as expectativas não forem totalmente ancoradas na nova meta, as expectativas podem ser ainda maiores do que essas estimativas”, diz o Santander.
Outra conclusão é que uma mudança na percepção dos agentes sobre a política fiscal do Brasil, ocorrida desde a pandemia, também teve impacto sobre as expectativas de inflação. Segundo os economistas, os resultados do estudo mostram que o impacto negativo da dinâmica fiscal sobre as expectativas de inflação começou a ser sentido em março de 2020, no início da crise da covid-19, quando começaram a vigorar as primeiras exceções ao antigo teto de gastos.
“O efeito aumentou ao longo do tempo, à medida que novas exceções foram adicionadas, até atingir 0,15 ponto percentual de impacto nas expectativas de inflação no fim de 2021 e permanecer nesse nível até outubro de 2022. Então, após as eleições e com as discussões sobre o novo quadro fiscal, outra rodada de impacto começou, adicionando 0,10 ponto percentual às expectativas”, calculam os economistas do banco.
Assim, segundo eles, caso a percepção sobre a política fiscal do governo melhore, pode haver espaço adicional de queda nas projeções de inflação em torno de 0,25 ponto percentual.
Na elaboração do estudo, os economistas levaram em conta três variáveis para a modelagem das expectativas de inflação: a própria meta, medidas de ancoragem fiscal e medidas de desancoragem da inflação corrente, já que choques de curto prazo podem contaminar as expectativas longas.
“A partir disso, fizemos uma hipótese. Se conseguimos modelar esses fatores com sucesso, o resíduo do modelo, ou seja, aquilo que o modelo não conseguiu explicar sobre a dinâmica das expectativas, poderia ser atribuído à percepção de mudança na meta de inflação”, diz Karp.
O economista afirma que, das três variáveis, a meta de inflação é a que apresenta maior impacto nas expectativas. “Em um cenário de ausência de choques, com uma política fiscal e monetária harmonizadas, a expectativa dos agentes vai acabar convergindo para a meta. Isso reforça a importância da discussão sobre a meta nas expectativas. É bastante relevante e por isso o mercado está se debruçando tanto sobre o assunto.”
Fonte: Valor Econômico
