Uma pesquisa conduzida pela Conquer Business School, com 1.433 profissionais brasileiros, descobriu que para 57,30%, as empresas não preparam os funcionários para lidar com assuntos relacionados à inteligência artificial e ao futuro do trabalho. Para Henrique Camargo, professor especialista em IA da Conquer e diretor de operações na Monest, este é um assunto abordado sem profundidade no ambiente corporativo.
“A inovação não pode vir para você simplesmente falar que está usando. Ela tem que gerar eficiência, diferencial competitivo ou melhoria de alguma forma”, avalia Camargo. Segundo ele, o principal perigo em não preparar os empregados para lidar com a IA é fazer com que ela acabe tornando o negócio menos produtivo. “Quando as pessoas não estão preparadas, isso acaba virando mais uma burocracia; elas passam a ter entregas de menor qualidade e mais lentas”, ressalta.
O levantamento apontou ainda que a maioria dos trabalhadores não teme perder o emprego para as inteligências artificiais, já que apenas 3% disseram ter algum receio nesse sentido. Entre os preocupados, a maioria está nas áreas de marketing e recursos humanos. Ao mesmo tempo, 52,18% dos respondentes estão investindo em cursos livres como a principal forma de desenvolver suas habilidades em IA.
O estudo também procurou compreender o receio dos trabalhadores na utilização das inteligências artificiais. No total, 22,45% das pessoas se preocupam com questões éticas. Casos de deepfakes e infrações de copyright foram fatores destacados.
“Como quase tudo que vem para o bem, o uso de IA pode ter efeitos colaterais”, desenvolve Camargo. Ele explica que deepfake é o termo utilizado nos casos em que a inteligência artificial simula uma fala, um vídeo ou uma foto de algo que, na verdade, não aconteceu. Um vídeo real pode ser modificado para disseminar um discurso falso, por exemplo.
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O professor relembra do caso de deepfake em que uma fotografia foi forjada para representar o Papa Francisco desfilando com uma jaqueta estilo puffer. A imagem teve repercussão mundial nas redes sociais. “Com o avanço da tecnologia, essas falsificações estão cada vez mais críveis. É muito fácil simular a voz de uma pessoa, assim como a imagem de alguém”, diz. “Quando falamos em questões políticas como eleições americanas para presidência, isso pode tomar proporções perigosas”, alerta Camargo.
Por outro lado, segundo o especialista, as infrações de copyright (direitos autorais) são mais difíceis de serem detectadas. “O modelo da inteligência é treinado por um volume gigantesco de dados e não podemos dizer que ela tira isso do nada. A IA tem uma base e usa referências para poder criar”, acrescenta. Ele também explica que dificilmente pode-se atribuir as informações geradas a um autor específico por conta da variedade de fontes que uma IA usa.
O professor, além disso, informa que com o uso da voz a situação pode ser diferente, citando o caso que envolveu a Scarlett Johansson e a OpenAI. Por meio de um comunicado enviado ao jornal “The Washington Post”, em maio de 2024, a atriz disse que foi convidada pelo presidente da OpenAI, Sam Altman, para licenciar sua voz – que faria parte do ChatGPT 4.0. Por motivos pessoais, a artista negou.
Ainda de acordo com o material enviado por Johansson, Altman entrou em contato com ela novamente dois dias antes do lançamento da nova versão da inteligência, a fim de que ela mudasse de ideia. Antes que a atriz pudesse responder, entretanto, o sistema foi publicado com a sua voz. Por essa razão, ela diz ter contratado os serviços de um advogado e, após o envio de cartas à companhia, Johansson afirmou que a OpenAI concordou em retirar sua voz do site.
Camargo acredita, por fim, que as inteligências artificiais não entram como substituição da força humana, mas como uma maneira de potencializar carreiras. “Estamos falando em melhorar o planejamento e adquirir inspiração mais clara para executar e criar projetos, assim como desenvolver novas ideias”, finaliza.
Sob supervisão de Fernanda Gonçalves
Fonte: Valor Econômico