Carlos Sequeira, do BTG: “Houve crescimento razoavelmente bom das receitas e um avanço ainda maior dos lucros” — Foto: Rogerio Vieira/Valor
Puxada pela expansão da receita, melhora nas margens e ganhos financeiros, a temporada de resultados do terceiro trimestre foi positiva, em termos gerais, com crescimento na eficiência e na rentabilidade das companhias em meio a uma economia forte e juros mais fracos na comparação anual.
O levantamento do Valor Data, que leva em consideração 399 empresas não financeiras, mostra que o lucro líquido do terceiro trimestre cresceu 84,5% no comparativo anual, para R$ 64,4 bilhões, ao passo que a receita subiu 13,6% ano a ano, para R$ 983,7 bilhões. O lucro operacional (Ebit) avançou 32,8%, para R$ 133,8 bilhões.
Os dados excluem PetrobrasCotação de Petrobras e Vale, que pela sua grandeza distorcem o levantamento, assim como companhias que passam por recuperação judicial e Sabesp, Eletrobras e Natura &Co, que tiveram impactos não recorrentes em seus balanços que desequilibram a base de comparação.
O desempenho positivo já era esperado pelo mercado, uma vez que o cenário macroeconômico favorecia a maioria das empresas. “Os resultados mostram que a economia continua bastante robusta”, diz Daniel Gewehr, estrategista-chefe de ações para América Latina do Itaú BBA.
Carlos Sequeira, chefe da área de análise do BTG Pactual, afirma que o terceiro trimestre manteve a tendência positiva que já foi apresentada nos resultados financeiros do segundo trimestre.
“Houve um crescimento razoavelmente bom das receitas e um avanço ainda maior dos lucros, causado pelo ganho de eficiência, que se beneficiou da redução das despesas financeiras, causadas por juros menores”, diz ele.
A alta de mais de 80% na última linha dos balanços se explica pelas despesas financeiras líquidas menores, que somaram R$ 46,1 bilhões no trimestre, uma redução anual de 17,2%, segundo levantamento do Valor Data.
Ao final de setembro, a taxa Selic estava em 10,75%, dois pontos percentuais abaixo dos 12,75% do mesmo mês em 2023. Sequeira explica que essa diferença nos juros impulsionou os resultados das companhias que possuem dívidas atreladas ao CDI. Além disso, por mais que o Copom tenha iniciado um ciclo de alta na Selic durante o terceiro trimestre, os seus efeitos ainda não foram sentidos na economia.
Os analistas também destacam que parte do crescimento apresentado no terceiro trimestre foi causada pela base de comparação mais favorável em relação ao mesmo período de 2023.
Por outro lado, Gewehr, do Itaú BBA, observa que houve uma desaceleração no crescimento anual do Ebitda consolidado das companhias no terceiro trimestre, que registrou cerca de 5% de alta anual conforme os cálculos do banco, em comparação com o avanço de 11% apresentado no segundo trimestre. Para ele, isso levanta um ponto de atenção sobre uma eventual compressão no Ebitda.
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“Foi mais uma temporada de resultados decentes, do ponto de vista da qualidade das empresas que reportaram os resultados. Também tivemos uma atividade econômica ainda bastante resiliente no Brasil. Os dados do PIB do terceiro trimestre ainda não foram divulgados, mas provavelmente teremos mais um crescimento, que estimamos em 0,5% em relação ao segundo trimestre, além de um mercado de trabalho superaquecido”, comenta Ricardo Peretti, estrategista de ações da Santander Corretora.
Entre os setores da economia doméstica, Peretti destaca construção, varejo de vestuário, bancos e alimentação e bebidas, em especial o segmento de proteínas, que reportaram resultados acima das expectativas dos analistas.
Olhando para as 296 empresas voltadas para o mercado interno, que incluem os setores de bens duráveis, semi e não duráveis, serviços não financeiros e mobilidade, o lucro líquido do terceiro trimestre cresceu 67,8% na comparação anual, segundo o Valor Data, superando o aumento de 44,9% no lucro das 48 companhias relacionadas a commodities e exportação, incluindo a PetrobrasCotação de Petrobras e a Vale.
O maior crescimento do lucro final das companhias voltadas ao mercado interno é resultado da menor diferença entre o resultado antes dos impostos sobre o lucro e o resultado final.
Já o desempenho operacional dos dois grupos foi parecido, de alta 19,2% para o Ebit das exportadoras e empresas de commodities e 19,4% para o das atuantes no mercado interno.
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Porém, as margens operacionais das companhias que atuam no mercado externo superaram as do interno, por causa do maior controle sobre as despesas operacionais líquidas, que caiu 7,9% na comparação anual para empresas de commodities e exportadoras, enquanto as com operações focadas no mercado interno apresentaram um crescimento de 11,2%.
Também é interessante destacar que a receita líquida das empresas de commodities e exportadoras subiu 12,1% no ano, um pouco acima da alta de 11,3% no faturamento reportado pelas companhias do mercado interno.
Sequeira explica que essa diferença nas receitas pode ser atribuída ao setor de papel e celulose, que conseguiu se recuperar dos prejuízos obtidos um ano antes, mesmo que o segmento de mineração tenha sido impactado negativamente pela queda no preço do minério de ferro, causada pelo enfraquecimento do mercado na China.
Em termos de difusão dos resultados, de 401 empresas analisadas pelo Valor Data, incluindo PetrobrasCotação de Petrobras e Vale, 63,6% tiveram melhoria no resultado líquido final, seja com maiores lucros, reversão de perdas ou menores prejuízos. Ao todo, 300 empresas fecharam o terceiro trimestre de 2024 com lucro, cerca de 75% da amostragem.
Para o quarto trimestre, Sequeira espera que os resultados continuem fortes, mesmo que haja uma desaceleração no ritmo de crescimento. O chefe da área de análise e pesquisa do BTG explica que, apesar da taxa Selic já ter subido para 11,25%, ante os 10,75% de setembro, essa alta ainda não é suficiente para ter um impacto significativo na atividade econômica.
Para 2025, dependendo do ritmo e intensidade do ciclo de alta nos juros, a expectativa é que o cenário se torne mais desafiador para as empresas, com as despesas financeiras pressionando os resultados. “A tendência é que haja um menor impulso fiscal [em 2025], o que junto com juros mais altos, deve trazer alguma desaceleração na economia”, também comenta David Beker, chefe de economia para Brasil e estratégia para América Latina do Bank of America (BofA). Para o especialista, o anúncio fiscal que o governo federal pretende anunciar nos próximos dias deve auxiliar a direcionar melhor as expectativas para o próximo ano.
Uma análise do Santander aponta um aumento de citação da palavra “inflação” pela administração das companhias durante suas teleconferências de resultados. “Isso me dá uma sensação de que as gestões das empresas começam a ficar um pouco mais preocupadas não só com a inflação corrente, mas principalmente com a inflação futura, dado que as expectativas, segundo o próprio Boletim Focus do Banco Central, já estão se deteriorando”, opina Peretti.
Para o especialista, um ambiente de inflação voltando a acelerar, em vez de desacelerar, passaria a ser o foco de preocupação para as empresas, principalmente no repasse de inflação para o consumidor, aumentando a estrutura de custo. “Olhando para frente, podemos observar como os gestores vão se comportar em relação a esse ambiente de inflação que em tese está piorando na margem”, diz.
Fonte: Valor Econômico
