Mesmo pagando um dos juros mais altos do mundo, o Brasil entregou ao investidor um retorno bem inferior ao dos Estados Unidos. O chamado kit Brasil — o conjunto de ativos que melhor traduz o risco do país — rendeu menos da metade do kit EUA nos últimos 15 anos.
A conta aparece em um levantamento da gestora WHG, que analisou o desempenho combinado do Ibovespa, do real e do IMA-B — índice que acompanha as NTN-Bs, os títulos públicos atrelados à inflação — além do juro nominal, a Selic.
O resultado é eloquente. Entre 2011 e 2025, o kit Brasil teve um retorno médio anual de 8%, o equivalente a 79% do CDI.
No mesmo intervalo, o kit US rendeu 17% ao ano — cerca de 180% do CDI — já convertido para reais. Nesse caso, entraram na conta o desempenho do S&P 500 e o juro do título do Tesouro americano de três meses.
À primeira vista, os números soam contraintuitivos. Países emergentes, como o Brasil, são classificados como investimentos de risco justamente porque, em tese, oferecem um prêmio maior ao investidor. E, olhando apenas para a taxa básica de juros, o país parece cumprir esse requisito: poucas economias pagam tanto quanto o Brasil.
O problema, explica Fernando Fenólio, economista-chefe da WHG, está na volatilidade. Ativos brasileiros — sobretudo a bolsa e o câmbio — oscilam muito.
Ganhos expressivos em um ano costumam ser parcialmente devolvidos no seguinte, o que corrói o retorno acumulado ao longo do tempo.
Os números ilustram bem esse vaivém. Em 2023, o kit Brasil subiu 22%. No ano seguinte, caiu 10%. Em 2015, a perda foi de 8%, depois de um avanço de 7% no ano anterior. A trajetória é marcada por solavancos.
Nos Estados Unidos, o movimento tende a ser bem mais linear. Segundo Fenólio, isso reflete o que ele chama de “fortaleza das empresas americanas”. Mesmo em um ambiente de choques na margem, a economia mantém capacidade de gerar resultados.
“Em 2025, por exemplo, a economia americana sofreu alguns abalos, mas ainda assim cresceu 12% em dólar e 26% em reais”, afirma.
O contraste ajuda a explicar por que juros altos, sozinhos, não garantem retorno elevado — e por que, no longo prazo, consistência costuma valer mais do que prêmio aparente.
Fonte: CNN Brasil

