Por Joshua Franklin — Financial Times, de Nova York
21/07/2022 05h03 Atualizado há 3 horas
O banco de investimento J.P. Morgan Chase criou uma unidade para enfrentar a concorrência cada vez mais intensa das firmas de crédito direto, comprometendo uma “fatia de capital significativa” para manter empréstimos alavancados em seu balanço.
O J.P. Morgan está financiando os empréstimos e pretende mantê-los até o vencimento, em vez de subscrever a dívida com grupos sindicalizados, uma área na qual o banco já é dominante.
“Sempre estávamos pegando este peixe, só que o jogávamos de volta – agora, queremos ficar com ele”, disse Kevin Foley, chefe mundial de mercados de capital de dívidas, em entrevista ao “Financial Times”.
Ele disse que o J.P. Morgan comprometeu “uma fatia significativa de capital” com as operações da unidade, sem dar mais detalhes. O banco começou a conceder esse tipo de crédito em 2021 e já concluiu cerca de 20 operações, com valores entre US$ 50 milhões e US$ 500 milhões, segundo Foley.
“Este é um relacionamento de empréstimo dos dias modernos”, acrescentou o executivo. “Temos uma equipe de seis pessoas dedicadas a créditos diretos ao longo [das áreas] bancária, de mercados e bancária comercial”.
A iniciativa do J.P. Morgan, o maior banco dos Estados Unidos em ativos, é um dos primeiros sinais que permitem vislumbrar como os bancos poderiam realinhar suas operações de empréstimos alavancados para conquistar clientes e recuperar a participação de mercado perdida para firmas de crédito direto como Apollo, Ares e Golub Capital.
Essas firmas estão financiando um número cada vez maior de aquisições alavancadas feitas por grupos de private equity. O setor de crédito direto cresceu para mais de US$ 500 bilhões em ativos sob gestão no fim de 2021, em comparação aos menos de US$ 50 bilhões de dez anos atrás, segundo dados da Preqin.
Vários bancos, incluindo o J.P. Morgan, têm levantado recursos externos por meio de seus braços de gestão de ativos para investir no segmento. Não é o caso, no entanto, dos empréstimos em que a equipe de Foley está trabalhando, que são custeados pelo banco e não por investidores.
O J.P. Morgan normalmente fornece financiamento para aquisições alavancadas por meio de empréstimos alavancados e títulos de dívida de alto rendimento, que o banco subscreve com a intenção de vender, principalmente, para outros investidores. Há mais de dez anos, o banco vem sendo um dos dois principais nomes nos mercados de empréstimos alavancados e de bônus de alto rendimento dos EUA, de acordo com dados da Refinitiv.
Essa forma de financiamento geralmente é mais barata para o captador do dinheiro, pois a dívida é oferecida a uma gama mais ampla de compradores, de maneira que continua sendo a opção principal para a maioria das aquisições. No entanto, ela é mais vulnerável a oscilações de mercado e os termos podem ser menos confiáveis.
Também pode deixar os bancos com perdas pela marcação a mercado em empréstimos que concordaram em subscrever, mas depois têm dificuldade para vender. Os bancos, incluindo o J.P. Morgan, deparam-se com a possibilidade de perdas de dezenas de bilhões de dólares em empréstimos-ponte que financiaram aquisições alavancadas acordadas antes de a fase de queda dos mercados ter tornado mais difícil transferir a dívida para fundos especializados.
Como alternativa, as firmas de crédito direto, que captam bilhões de dólares em recursos externos de investidores, prometem financiamentos menos dependentes do mercado como um todo e com maior grau de certeza de que o captador receberá os recursos.
Essas firmas normalmente concedem créditos a empresas menores – que muitas vezes têm dificuldade para conseguir acesso ao mercado de empréstimos alavancados sindicalizados – das quais os bancos tradicionais se afastaram na esteira das regulamentações pós-crise financeira mundial.
Aos poucos, elas também vêm fazendo negócios cada vez maiores. Um exemplo de destaque em 2021 foi o financiamento via dívida de US$ 2,6 bilhões para a aquisição da Thoma Bravo pela Stamps.com, por US$ 6,6 bilhões, que foi fornecido inteiramente por firmas como Ares, Blackstone e PSP Investments.
A nova unidade do J.P. Morgan faz parte de seus esforços para aprofundar sua linha de produtos para os clientes empresariais de médio porte e chega como uma resposta à demanda dos clientes, de acordo com Foley.
“O tamanho não tem sido uma restrição. Trata-se mais do conjunto de oportunidades. Estamos dispostos a fazer negócios maiores”, acrescentou.
Um obstáculo que bancos regulamentados, como o J.P. Morgan, enfrentaram ao competir contra firmas de crédito direto é que precisam levar em conta as orientações das autoridades reguladoras do setor bancário para os empréstimos alavancados. As orientações recomendam – embora não sejam obrigatórias – que os bancos não emprestem para empresas com uma relação de dívida sobre lucro superior a seis vezes.
A firmas de crédito direto, por serem instituições não bancárias, não estão sujeitas às mesmas restrições, o que as ajuda a financiar aquisições particularmente muito alavancadas, como as de empresas do setor de tecnologia que prometem alto crescimento, mas ainda não têm lucros significativos.
“Podemos fazer a maioria dos empréstimos, mas continuar disciplinados em nossa abordagem”, disse Foley. (Colaborou Antoine Gara, de Nova York)
Fonte: Valor Econômico

