Por Liane Thedim — Do Rio
31/08/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
Pedro Boainain, novo diretor de investimentos de crédito, renda fixa e indexados na Itaú Asset Management, está à frente do que chama de “transformação” na área. Ele assumiu o cargo em março e, em seu diagnóstico, “as coisas estavam mais paradas do que deveriam”. Diante disso, está revendo a grade de produtos e concentrando esforços nos mais complexos, para deixar para trás o rótulo de que renda fixa é aplicação conservadora e ponto final. A ideia, diz, é estar preparado para os próximos movimentos dos investidores, diante do início do ciclo de queda de juros no país.
“Na renda fixa tradicional, a que não corre risco de crédito, a indústria ficou atrasada no tempo. Então, hoje, deveria atrair muito interesse, mas está expulsando dinheiro. Faz muito tempo que sofre resgates, sem considerarmos os de fundos de crédito. Foram perdendo para multimercados, CDBs”, avalia.
Segundo Boainain – cuja área responde por R$ 500 bilhões do total de R$ 680 bilhões sob gestão na Itaú Asset -, o investidor se acostumou, de um lado, com uma renda fixa que tinha risco e rendimento baixos e, do outro, com os fundos multimercados. “Ficou um deserto entre as duas coisas. Então, criamos produtos no meio”, afirma.
O executivo se refere aos fundos de renda fixa “unconstrained”, que buscam retorno por meio da exposição a juros nominais, reais ou índices de preços no Brasil e, em alguns casos, também no exterior. A Itaú Asset aloca em países como África do Sul, México, Estados Unidos e Japão. Moedas entram em operações de proteção das exposições a juros lá fora. São cinco produtos que têm como meta superar o CDI, geridos por diferentes times. Há ainda um fundo cujo objetivo é superar a inflação. A volatilidade, diz Boainain, fica entre 2% e 3% ao ano, patamar próximo ao dos multimercados mais conservadores.
Seguindo o raciocínio de maior esforço na busca por resultados, na renda fixa ativa, a gestora reduziu a taxa de administração a 0,9% ao ano e criou a taxa de performance de 20% sobre o que exceder 100% do CDI. No fundo IPCA Action, a taxa é cobrada sobre o que exceder os ganhos do IPCA mais juros reais. “Os fundos de renda fixa não cobravam performance porque na maior parte não fazia sentido. Por que vai cobrar num produto que performa pouco?”, questiona. “É uma transformação que se dá por um conjunto de várias pequenas coisas e que vai nos colocar de maneira mais diferenciada da indústria.”
“Na renda fixa tradicional, a indústria ficou atrasada no tempo” — Pedro Boainain
Já no crédito privado, a asset lançou o Itaú Action Debêntures Incentivadas, focado nos papéis de infraestrutura, isentos de Imposto de Renda. “Os eventos de crédito no início do ano congelaram o mercado como um todo, menos o segmento de infraestrutura, que ficou isolado e seguiu bem.” O executivo explica que esse fundo tem risco maior, com volatilidade de 8% ao ano, e vem captando de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões por semana.
Boainain diz que, mesmo que o Banco Central acelere os cortes de juros, quando terminar o ciclo a Selic estará entre 9% e 10%, ou seja ainda alta. A renda fixa, portanto, seguirá sendo vantajosa, mas o desequilíbrio para ativos com maior sofisticação cai. De acordo com o executivo, no segundo semestre, inclusive, já se percebe um fluxo maior para produtos com um pouco mais de risco. “Passamos por um primeiro semestre de muitos resgates na asset, com migração para produtos de tesouraria. O dinheiro não saiu do Itaú Unibanco, mas agora a gente vê voltarem para fundos.”
O diretor da Itaú Asset comenta que, depois dos traumas no primeiro trimestre, o retorno para os fundos de crédito ainda é tímido. Ele afirma que são um produto interessante, mas com cautela, já que as empresas estão mais endividadas e o contexto econômico é desafiador. “Muitos fundos vistos como conservadores foram afetados e, surpreendidos, investidores tiraram o dinheiro e se viram sem opções conservadoras. Acabaram fugindo para títulos bancários.”
O executivo conta que já havia comandado uma transformação quando assumiu a mesa de crédito há dois anos e meio. “Começamos, por exemplo, a fazer private placement [quando o banco absorve toda a emissão], que até então era pouco usado na asset, para negociar melhor as condições. Intensificamos nossa capacidade de analisar crédito, investimos em time e processo. Mudou cabeça de ‘buy and hold’ [adquirir um ativo para mantê-lo em carteira] para gestão ativa. Todo dia avaliamos se portfólio faz sentido. A quantidade de operações no secundário multiplicou por mais de dez”, recorda.
Agora, na nova estratégia na renda fixa, afirma que já vê resultados. “Estamos revendo todos os nossos processos.” A Itaú Asset tem aproximadamente 2,6 milhões de clientes e a área de Boainain cuida ainda de quatro ETFs (Exchange Traded Funds) de renda fixa, fundos negociados em Bolsa que aplicam em carteiras atreladas a algum índice como referência, como o IMA-B 5, da Anbima, composto por títulos federais com vencimento de, no mínimo, cinco anos e no máximo.
Fonte: Valor Econômico

