Israel anunciou nesta terça-feira (17) ter matado o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, principal autoridade de segurança do Irã e um dos líderes que comandavam a república islâmica após o assassinato do aiatolá Ali Khamenei no primeiro dia dos ataques americanos e israelenses, em 28 de fevereiro. O assassinato, que o Irã confirmou horas depois, representa um duro golpe para o regime de Teerã, no momento em que a elite militar e religiosa busca reorganizar a liderança do país em torno do filho do líder supremo, Mojtaba Khamenei.
Larijani, porém, na avaliação de analistas, era um dirigente que poderia ter um papel crucial na negociação de qualquer solução diplomática para encerrar o conflito no Oriente Médio. “Era alguém capaz de construir pontes entre as facções extremamente competitivas do Irã e um interlocutor externo com relações regionais e internacionais”, disse Sanam Vakil, da Chatham House.
As forças de Israel também mataram nesta terça-feira Gholam Reza Soleimani, chefe da Basij, a força paramilitar voluntária do Irã ligada à Guarda Revolucionária e responsável pela repressão a opositores internos do regime.
Analistas iranianos consideravam que a escolha de Larijani para o conselho de segurança, em agosto de 2025, era uma indicação de que o líder supremo estava disposto a testar a possibilidade de que a República Islâmica conseguiria chegar a um acordo com o presidente dos EUA, Donald Trump, sobre seu programa nuclear. “Ele era um dos membros mais inteligentes, talvez um dos mais ‘pragmáticos’, da liderança, e uma das pessoas a quem recorriam por causa de sua experiência quando tinham de lidar com esse tipo de negociação”, afirmou Rob Malley, que atuou como enviado dos EUA ao Irã no governo de Joe Biden.
“Não acredito que ele seja a única pessoa no sistema capaz de conseguir um acordo, mas eliminar os maiores responsáveis pela tomada de decisões, em especial os mais pragmáticos, não se traduzirá rapidamente em uma saída diplomática”, afirmou.
A oposição iraniana, por seu lado, acusa Larijani de ser o arquiteto da brutal repressão aos protestos contra o governo que tomaram conta do Irã em dezembro e janeiro, nos quais grupos de defesa dos direitos humanos estimam que milhares de pessoas foram mortas pelo regime.
Larijani, de 67 anos, foi presidente do Parlamento por um longo período. Nesse posto, ele liderou o Parlamento na ratificação do acordo nuclear de 2015 que o Irã assinou com os EUA e outras potências mundiais, acordo que Trump abandonou durante seu primeiro mandato como presidente. Além disso, Larijani, que era doutor em filosofia, deu aulas na Universidade de Teerã, foi ministro da Cultura e chefe da TV estatal iraniana.
Ainda é cedo para medir que o impacto que a morte de Larijani terá sobre o regime, dizem analistas.
“Eles sofreram uma série de golpes que podem ser considerados bastante dramáticos”, afirmou Malley, o ex-enviado de Biden. “No caso do Irã, temos um país onde as decisões parecem bastante institucionalizadas e não tão dependentes de personalidades”, explicou. “Isso não significa, é claro, que em algum momento eles não possam perder tantos integrantes de seus altos escalões que se torne muito difícil tomar decisões.”
“Eles estão seguindo uma estratégia que foi decidida antes da guerra e está sendo implementada por pessoas que têm autoridade, apesar da ausência do tipo de liderança que tinham no passado”, acrescentou Malley.
Especialistas — como Farnaz Fassihi, do New York Times — consideravam que Larijani poderia ser uma das alternativas que a Casa Branca teria como opção de liderança de um regime de transição que pudesse levar à paralisação da guerra. Isso permitiria uma saída similar à vista na Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro e sua substuição por Delcy Rodríguez, em janeiro.
Trump não fez referência à morte de Larijani especificamente, embora venha mencionando com frequência que o assassinato de várias figuras da liderança do Irã indique que o país “está derrotado”, apesar da instabilidade política e econômica que o bloqueio do Estreito de Ormuz, por parte de Teerã, tem causado. Pela via marítima — ao alcance da artilharia e potencialmente suscetível à instalação de minas — passa cerca de um quinto de todo o petróleo transportado por navios do mundo.
Aliados europeus e asiáticos rejeitaram as exigências de Trump para que enviem navios para liberar o estreito. Na terça-feira, o presidente americano disse que os EUA “não precisam de ajuda” em sua guerra contra o Irã.
“Acho que a Otan está cometendo um erro muito tolo”, disse Trump a jornalistas mais tarde. “Todos concordam conosco, mas não querem ajudar. E nós, como os EUA, precisamos nos lembrar disso, porque achamos isso bastante chocante”, acrescentou.
O presidente também confirmou, em razão da guerra, o adiamento de uma viagem muito aguardada a Pequim para se encontrar com o presidente chinês, Xi Jinping. O encontro aliviaria as tensões entre as duas maiores economias do mundo.
Trump tinha agendado uma viagem a Pequim para entre 31 de março e 2 de abril. Seria a primeira visita à capital em seus 14 meses de segundo mandato. A visita agora ocorrerá em “cerca de cinco ou seis semanas”, disse o presidente. A Casa Branca não especificou uma data.
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Fonte: Valor Econômico
