O Irã está avaliando os termos para retomar em breve as negociações com os Estados Unidos depois de ambos os lados terem sinalizado disposição para reativar a diplomacia em torno de uma disputa nuclear de longa data e dissipar os temores de uma nova guerra regional.
As tensões estão elevadas em meio ao envio de reforços da Marinha dos EUA para as proximidades do Irã, após uma repressão violenta contra as manifestações antigovernamentais no mês passado, o episódio de agitação interna mais letal no país desde a Revolução Islâmica de 1979.
O presidente americano, Donald Trump, que não levou adiante as ameaças de intervir durante a repressão, passou desde então a exigir que o Irã faça concessões nucleares e enviou uma flotilha para a costa do país. No final de semana, ele disse que o Irã estava “conversando seriamente” com os EUA, enquanto a principal autoridade de segurança de Teerã, Ali Larijani, afirmou no X que os preparativos para as negociações estavam em andamento.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou nesta segunda-feira que Teerã está considerando “as várias dimensões e aspectos das negociações”, acrescentando que “o tempo é crucial para o Irã, que deseja a suspensão das sanções injustas o quanto antes”.
Fontes iranianas disseram à Reuters na semana passada que Trump havia exigido três pré-condições para a retomada das negociações: enriquecimento zero de urânio no Irã, limites ao programa de mísseis balísticos do país e o fim do apoio a aliados regionais, como o Hezbollah, do Líbano, e os houthis, do Iêmen.
O Irã rejeita há muito tempo as três exigências, classificadas como interferências inaceitáveis sobre sua soberania, mas duas autoridades iranianas disseram à Reuters que os líderes teocráticos do país veem o programa de mísseis balísticos, e não o enriquecimento de urânio, como o maior obstáculo.
Um alto funcionário do governo do Irã e um diplomata ocidental disseram à Reuters que o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, poderiam se encontrar na Turquia nos próximos dias.
Um integrante do partido governista da Turquia disse à Reuters que Teerã e Washington concordaram que as conversas desta semana seriam focadas na diplomacia, uma trégua diante das ameaças de ataques dos EUA.
O funcionário iraniano afirmou que “a diplomacia está em andamento”. Segundo ele, para que as negociações sejam retomadas, não deve haver pré-condições por parte dos EUA. “O Irã está disposto a demonstrar flexibilidade no enriquecimento de urânio, inclusive entregando 400 kg de urânio altamente enriquecido e aceitando enriquecimento zero dentro de um arranjo de consórcio como solução”, acrescentou.
No entanto, acrescentou ele, para o início das negociações, Teerã quer que os ativos militares dos Estados Unidos sejam afastados do Irã. “Agora a bola está com Trump”, disse a autoridade.
A influência regional de Teerã foi enfraquecida pelos ataques de Israel contra seus aliados — do Hamas em Gaza, ao Hezbollah no Líbano, os houthis no Iêmen e milícias no Iraque — além da queda do aliado próximo do Irã, o ditador sírio Bashar al-Assad.
No ano passado, os Estados Unidos atingiram alvos nucleares iranianos, juntando-se à ofensiva ao final de uma campanha israelense de bombardeios que durou 12 dias.
Fim das sanções
Após cinco rodadas de negociações que estão paralisadas desde maio de 2023, várias questões de difícil conciliação permaneceram entre Teerã e Washington, como a insistência do Irã em manter o enriquecimento de urânio em seu território e a recusa em enviar ao exterior todo o seu estoque existente de urânio altamente enriquecido.
Desde os ataques dos Estados Unidos contra três instalações nucleares do Irã em junho, Teerã afirma que seu trabalho de enriquecimento de urânio foi interrompido. A agência nuclear da ONU tem pedido repetidamente que o Irã esclareça o que aconteceu com o estoque de urânio altamente enriquecido desde os ataques de junho.
Países ocidentais temem que o enriquecimento de urânio pelo Irã possa resultar em material para uma ogiva nuclear. O Irã afirma que seu programa nuclear se destina apenas à geração de eletricidade e a outros usos civis.
As fontes iranianas disseram que Teerã poderia enviar seu urânio altamente enriquecido ao exterior e suspender o enriquecimento em um acordo que também deveria incluir o levantamento das sanções econômicas.
Fonte: Valor Econômico

