Embora os danos mais profundos à infraestrutura do petróleo e à economia global provocados pela guerra no Oriente Médio ainda sejam difíceis de mensurar, o investidor estrangeiro não se afastou dos ativos brasileiros e deverá ser protagonista de ofertas de IPOs (ofertas iniciais de ações, na sigla em inglês) e “follow-ons” (ofertas subsequentes) neste ano e no próximo, diz o responsável pelo banco de investimento do UBS BB, Anderson Brito. Segundo ele, a janela para investimentos voltará a se abrir de forma mais significativa quando a bolsa conseguir se estabilizar no patamar de 190 mil pontos. O Ibovespa terminou ontem a 183 mil.
Para o executivo, o interesse por empresas locais segue firme, e a participação de investidores internacionais em ofertas de ações e de títulos de renda fixa dentro e fora do país deve ganhar força à medida que o ambiente de negócios se tornar mais previsível, com uma solução para o fluxo de navios de petróleo no Estreito de Ormuz. “A bolsa voltando para os 190 mil pontos, abre a porteira e vem um volume grande de ofertas”, diz.
Em um momento de maior volatilidade, Brito destaca que a percepção dentro da casa é de que o investidor internacional está adiando um pouco mais a decisão de comprar novas ações, mas que não está se desfazendo das posições já detidas. “A visão do internacional em relação ao Brasil ainda é muito construtiva”, resume.
Para ele, à medida que a volatilidade ceder e os ativos passarem por uma reprecificação positiva, o fluxo tende a retornar com mais força. Ainda assim, Brito não vê a janela totalmente fechada neste momento. “Se eventualmente um nome que for testar mercado for muito bom, tem demanda ainda”, afirma. “Do lado de quem vai listar, é mais uma discussão de ‘timing’, de acessar agora, em que você tem um preço comparável um pouco mais machucado, ou de esperar um pouco.”
O executivo não nega que as idas e vindas nas negociações entre os governos americano e iraniano sobre a guerra têm ampliado a volatilidade dos ativos globais, que reagem negativamente a qualquer sinal de acirramento do conflito. Apesar das incertezas, o UBS vê essa dinâmica como ruído de curto prazo, sem comprometer a entrada de novos mandatos de abertura de capital no Brasil e fora.
“Obviamente que a volatilidade implícita, principalmente quando interfere em uma commodity relevante como o petróleo, acaba afetando o mercado como um todo”, pondera. “Mas, por outro lado, vimos um nível de impacto em relação à moeda local pequeno para a volatilidade implícita do mercado. Isso mostra o nível de apetite do internacional em relação ao Brasil.”
Brito afirma que, em outros momentos, o dólar poderia ter chegado a R$ 6, dado o nível de aversão a risco – como ocorreu em dezembro de 2024, em meio ao temor de um colapso fiscal no país. Ainda assim, a visão construtiva em relação às empresas domésticas e à capacidade do país tem se sobreposto às preocupações com a guerra, mesmo que as ações brasileiras acumulem perdas no mês.
Assim que o fluxo retomar com força, Brito avalia que o estrangeiro será o ator principal em IPOs e follow-ons, como ocorreu nas últimas ofertas, que contaram com uma participação mais significativa de não residentes que de investidores locais.
“O estrangeiro vai ter o papel de protagonista em todas as ofertas de IPOs e follow-ons em 2026 e 2027”, afirma. Segundo ele, o investidor doméstico segue bastante alocado em renda fixa, especialmente em debêntures incentivadas, com “duration” mais elevada, o que tende a alongar mais o prazo para conseguir vender os ativos.
Entre os setores com potencial para operações de IPOs e follow-ons, o executivo do UBS BB destaca o imobiliário, cujas empresas tendem a se tornar candidatas naturais em momentos de precificação de queda dos juros.
O varejo também aparece nesse grupo, em razão da forte ligação com o ciclo de flexibilização monetária. Outro segmento que pode apresentar demanda é o de utilidades públicas, especialmente empresas de saneamento.
Brito ressalta, ainda, que 75% das companhias que compõem o Ibovespa pertencem a setores tradicionais, menos expostos a rupturas relevantes decorrentes do avanço da inteligência artificial, o que traz maior segurança ao investidor internacional.
“Bancos, mineração, utilities [serviços públicos], óleo e gás. São setores que, na margem, estão mais protegidos de riscos de disrupção e negociam com desconto relevante em relação ao exterior, além de contarem com bons níveis de governança e mercados endereçáveis amplos”, diz.
Além do mercado de ações, o interesse do investidor estrangeiro se estende à renda fixa. A instituição tem 15 mandatos na América Latina para lançar nos próximos meses, com o Brasil concentrando as atenções na região. Ainda assim, há demanda por países como México, Chile, Peru e Argentina.
Segundo Brito, os principais desafios no momento são a redução da volatilidade global e a construção de uma solução de médio prazo para a logística do petróleo.
Fonte: Valor Econômico
