Por Marcelo Osakabe e Alessandra Saraiva — De São Paulo e Rio
03/06/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
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Se o consumo das famílias e o setor externo foram os motores da economia no primeiro trimestre pelo lado da demanda, o que acabou segurando uma leitura maior do PIB foram os investimentos. O segmento surpreendeu na direção contrária, e analistas entendem que não há no horizonte espaço para uma virada significativa.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), medida que engloba os gastos em construção, máquinas e pesquisa, teve contração de 3,5% nos primeiros três meses do ano, na comparação com o trimestre anterior. Em relação ao mesmo período do ano passado, o tombo foi de 7,2%.
Os números ficaram muito abaixo da mediana colhida pelo Valor, que era de estabilidade na comparação trimestral e queda de 2,2% em relação ao mesmo período do ano passado.
Com isso, a taxa de investimento como proporção do PIB recuou pelo segundo trimestre consecutivo, atingindo 18,7%.
No caso dos investimentos, a queda de 7,2% na comparação com o mesmo período de 2021 foi influenciada, ainda, pelo expurgo dos números do Repetro (regime aduaneiro especial que facilita a importação de bens destinados à exploração de petróleo), que haviam “inflado” as estatísticas de investimento no ano passado. Com isso, o dado acabou ofuscando o avanço de 9% da construção civil em relação ao mesmo período do ano passado, comentou a coordenadora de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rebeca Palis.
“A maior parte do programa terminou no quarto trimestre de 2020, mas em 2021 ainda teve bastante rescaldo. Então teve efeito no primeiro trimestre de 2021, o que significa uma base mais alta”, disse.
Além da queda no consumo aparente de bens de capital, intensificada pela questão do Repetro, o dado também deve ter recebido influência negativa de subgrupos menos acompanhados pelos analistas, como softwares para o setor de tecnologia, diz Thiago Xavier, economista da Tendências.
Mesmo com a surpresa negativa do primeiro trimestre, a consultoria decidiu manter a projeção de recuo de 4% do FBCF em 2022. Isso porque a casa está mais otimista com o setor de construção civil, diz Xavier. O setor registrou alta de 0,8% ante quarto trimestre de 2021, e de 9% ante primeiro trimestre de 2021.
O desempenho da construção no começo do ano sinaliza alta de pelo menos 3% no resultado anual de 2022 ante o ano passado, segundo projeção de Ana Castelo, Coordenadora de Projetos de Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Caso a previsão se confirme, será o segundo aumento anual consecutivo do setor – mas abaixo da expansão de 9,7% do setor em 2021.
Ana no período, houve sinais positivo nos campos de infraestrutura, com obras de grande porte do governo; mercado imobiliário; e serviços especializados, como obras de preparação de terreno. No caso das obras governamentais, o ano eleitoral pode ter ajudado a impulsionar ritmo de obras.
“Sustentar essa melhora, é o grande X da questão. Temos ciclo produtivo mais longo na construção, e isso tende a segurar atividade. Mas caso o ciclo de negócios comece a arrefecer, não tem como sustentar esse crescimento”, afirmou Ana.
Thiago Xavier avalia que o desempenho nos primeiros três meses do ano – num ambiente de reabertura da economia e de geração de empregos – pode ajudar o segmento da construção a suportar melhor não apenas a desaceleração da economia esperada para o segundo semestre, como também os insumos ainda caros.
Para o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estados de São Paulo (Fiesp), Igor Rocha, a contração do investimento no primeiro trimestre do ano já é efeito da antecipação dos agentes econômicos frente ao cenário negativo para a segunda metade de 2022.
“Os dados do PIB no primeiro trimestre são positivos, principalmente olhando a expectativa que se tinha no início do ano. Só que o investimento é uma variável muito alicerçada na expectativa futura, que é negativa por causa da alta dos juros. Esse setor é muito dependente de crédito, ao contrário de outros”, disse Rocha. Na visão da entidade, os primeiros três meses de 2022 marcaram o pico da atividade no ano no Brasil.
A mesma avaliação faz o economista-chefe do MUFG Brasil, Carlos Pedroso. “O que ajudou a segurar esse número foi o desempenho do setor de construção. Mas, dadas as incertezas relacionadas à eleição e também a expectativa de que a alta de juros comece a fazer efeito sobre a economia no segundo trimestre, podemos esperar novas leituras ruins do investimento. Não necessariamente piores, mas negativas”, diz Pedroso. O banco está revisando suas projeções para 2022 após os dados do primeiro trimestre, e deve piorar a projeção para o investimento, atualmente, em -3,5% no ano.
Fonte: Valor Econômico
