Investidores de dois certificados de recebíveis imobiliários (CRI) aprovaram a substituição da Virgo como securitizadora das operações. As trocas, que passam a valer na próxima segunda-feira, foram as primeiras oficializadas após virem a público denúncias sobre o uso indevido de recursos dos fundos de reserva por parte da empresa. Um desses papéis foi diretamente afetado pelo caso, apurou o Valor.
Outras mudanças devem ocorrer, principalmente em emissões que ainda estão em fase de estruturação. Segundo fontes, gestoras como Kinea, RBR e XP alteraram ofertas que não haviam chegado ao mercado para substituir a Virgo. Procuradas, as instituições não comentaram o assunto.
Houve ainda casos em que bancos de investimento e gestores recorreram a securitizadoras para uma espécie de “monitoramento” das operações que permanecerão com a Virgo. A Opea e a Leverage, que não comentaram o assunto, estariam assumindo esse papel, de acordo com fontes. Em outra operação, já registrada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Virgo seguirá como securitizadora por um prazo determinado, com substituição futura.
O processo de troca, no entanto, não é simples. Ele envolve custos elevados, que incluem novos registros em cartório das garantias, assessoria jurídica e a contratação da nova securitizadora. Além disso, é necessária a autorização da securitizadora original. Até agora, a Virgo não apresentou objeções: aceitou os pedidos e colaborou com os processos, segundo fontes.
A mudança nos CRIs ESTR Vale Index e LBV 2, aprovada em 18 de agosto, foi registrada em atas enviadas à CVM. A partir do dia 25, a securitizadora de ambas as operações será a Leverage, conforme o documento. As duas emissoras não responderam ao contato do Valor sobre o assunto.
O Vale Index foi o primeiro título cujos recursos do fundo de reserva foram aplicados no Allocation, fundo usado pela Virgo para investir no CRI da Cedro, segundo apurou a reportagem. A transferência ocorreu mesmo com o regulamento do papel determinando expressamente que os investimentos permitidos seriam apenas “de renda fixa com classificação de baixo risco e liquidez diária, de emissão de instituições financeiras de primeira linha”, além de títulos públicos. O investimento tinha baixa liquidez e alto risco.
Os recursos saíram do fundo de reserva em 6 de junho, mesmo dia da criação do Allocation, e foram devolvidos em 4 de julho, após pressão dos investidores. A movimentação constava em extratos disponíveis no site da Virgo até a última segunda-feira.
Na mesma data da devolução, os investidores do CRI Vale Index aprovaram a criação de uma conta “escrow” (garantia), para a qual foram transferidos os recursos dos fundos de reserva e do fundo de obras da emissão.
Procurada pela reportagem, a Virgo informou por meio de nota que “no curso de suas atividades e da operação em questão nenhuma lei e nenhum regulamento de mercado foi violado” e que não houve dano ou prejuízo aos parceiros. “Os fundos de reserva investidos no Allocation continuam segregados de forma adequada, como determinam as regras. Desde sua fundação, a companhia já estruturou mais de 900 operações sem qualquer registro de atuação irregular por parte da securitizadora”, afirmou.
Nos bastidores, há uma troca de acusações. Fontes ligadas à securitizadora apontam Eduardo Levy, que até 10 de julho era o responsável pela área de investment banking, como o responsável pelo caso. Já Levy apresentou formalmente uma queixa à CVM sobre o episódio.
Na denúncia, ele admite que “dada a sua posição sênior, não se exime de ter, eventualmente, contribuído para a operação”, mas que a responsabilidade seria de Ivo Kos, diretor geral e acionista da securitizadora. Conforme essa argumentação, Kos teria optado por usar os fundos de reservas de CRIs em um investimento que não era permitido (no caso o CRI da Cedro) para ter condições de cumprir com a “garantia firme” da emissão.
Uma segunda queixa apresentada à CVM traz a informação de que houve a movimentação irregular de, pelo menos, R$ 216 milhões envolvendo cerca de 80 CRIs e CRAs. (Colaborou Ana Luiza Tieghi)
Fonte: Valor Econômico
