Em um ano em que a indústria de fundos tem sido castigada por resgates – os fundos de ações registraram resgates líquidos de R$ 57,9 bilhões entre janeiro e setembro, enquanto os multimercados enfrentaram retiradas líquidas de R$ 79,7 bilhões no mesmo período -, gestores parecem ainda não ter começado a priorizar o mercado acionário local nas suas teses de investimentos. Por outro lado, os fundos de renda fixa tiveram entradas líquidas de R$ 94,7 bilhões até setembro.
Já no mercado futuro, as apostas no Ibovespa cresceram. Houve abertura de cerca de 59 mil contratos de compra do índice cheio (IND) por institucionais locais e empresas entre os dias 3 e 5 de outubro, em um volume de cerca de R$ 6,9 bilhões. Ao comprar um contrato futuro do Ibovespa, o investidor espera que o índice subirá até o seu vencimento. No entanto, a categoria ainda mantém um saldo “vendido” (aposta na baixa) no índice de 88,6 mil contratos, ou cerca de R$ 10,3 bilhões.
O investidor externo fez o caminho contrário: vendeu algo como 54,5 mil contratos do Ibovespa futuro até quarta-feira, o equivalente a cerca de R$ 6,3 bilhões, mas ainda tinha saldo positivo de 96,8 mil contratos, ou R$ 11,3 bilhões.
Para Sérgio Goldman, gestor e chefe de pesquisa da Esh Capital, a movimentação do investidor institucional na semana passada não corrobora completamente a tese de que o resultado da eleição trouxe confiança ao mercado local. “Apesar do discurso ter sido de que o mercado ficou satisfeito, porque viu no avanço da direita no Congresso um limitador para uma loucura em um eventual governo Lula na política econômica, a verdade é que ainda tem muita incerteza.”
Esse tom cauteloso do investidor local, diz Goldman, se explica pelos riscos internacionais, ainda muito elevados, e pela falta de vetores de crescimento econômico. “Dizer que a bolsa está descontada é fazer uma leitura parcial. A gente não sabe o que vai acontecer em termos de crescimento econômico nos próximos anos, e isso muda muito a precificação”, afirma Goldman, responsável pelo fundo Esh Prospera.
Para Igor Lima, sócio-fundador da Trafalgar, o fluxo de investidor institucional mostra que, para certa parte do mercado, é cedo para comprar a tese de que a eleição deixou de ser um risco. “O mercado fez uma narrativa, mas não colocou fichas nela.”
Lima explica que, como acontece às vésperas de qualquer evento importante, os “players” locais começaram a reduzir posição em ativos brasileiros, inclusive em ações, nos dias que antecederam a eleição do dia 2. Mas essa venda de posições não foi feita “a qualquer preço”. Por isso, ele acredita que alguns investidores locais aproveitaram o forte movimento comprador, sustentado principalmente por estrangeiros, para vender ações a um preço melhor. “O investidor quer esperar pelo fim da eleição mais leve”, afirma. “Existe muita incerteza no ambiente para dizer que o mercado está confortável com o resultado do primeiro turno.”
Com o cenário global mais hostil e a falta de visibilidade sobre o que será a política econômica nos próximos anos, o mercado não pode colocar “todas as fichas” em um desfecho positivo, diz Leonardo Breder, sócio e gestor da Absolute Investimentos. Para ele, os ativos no Brasil ainda carregam prêmio de risco e têm, portanto, potencial de ter um desempenho positivo. Mas a incerteza, tanto externa quanto local, ainda inibe movimentos mais agressivos. “Vejo o mercado local cautelosamente otimista”, diz.
A Absolute foi uma das casas que diminuíram o risco em sua carteira no último trimestre, pensando justamente na corrida eleitoral. “Difícil fazer um investimento de três, seis meses, sem saber qual seria a política econômica do próximo governo”, afirma. O fundo mantém posições compradas em Brasil, mas não ampliou exposição à bolsa na semana seguinte ao primeiro turno.
Caio Lewkowicz, gestor e sócio da Tarpon Capital, afirma que os fundos multimercados locais têm aproveitado, “e com razão”, o patamar elevado dos juros para bater suas metas com a ajuda de produtos de renda fixa, mas entende que há um ciclo positivo para o mercado acionário doméstico à frente. O gestor diz ainda acreditar que a trajetória fiscal futura segue sendo um grande ponto de interrogação.
“A grande vitória do primeiro turno foi a formação do Congresso. Sabemos que o momento do fiscal é bom, mas sua trajetória futura ainda não é clara. Dito isso, acredito que o mercado possa voltar a andar assim que tivermos mais clareza sobre como será a composição da equipe econômica do novo governo, qual será a nova âncora fiscal”, diz.
O executivo acrescenta que a Tarpon não realizou grandes mudanças em sua ótica de alocação, mas começou a monitorar mais de perto a base acionária das empresas em que investem. “Estamos tomando cuidado, principalmente em papéis com baixa liquidez, com investidores que estão sofrendo muitos saques. Os fundamentos da empresa não importam se o gestor é obrigado a vender.”
Alexandre Silverio, CEO da Tenax Capital, também atribui a falta de um movimento mais incisivo para ativos de renda variável à atratividade dos produtos de renda fixa. Para a volta do institucional local à bolsa, afirma que um entendimento sobre o tamanho do apetite por gastos públicos do próximo governo será essencial, assim como a equalização das receitas do Estado.
“Mas existe um incentivo muito grande, seja quem for o candidato eleito, para que o primeiro ano de governo seja permeado por cuidados do ponto de vista fiscal. E, se isso ocorrer, acredito muito no ‘kit Brasil’, com o real se valorizando, a curva de juros cedendo e a bolsa avançando”, afirma. Silverio diz ainda que o posicionamento técnico da indústria, que hoje é leve, tende a amplificar uma rotação à frente, com migração da tomada de riscos do exterior para o mercado doméstico.
Fonte: Valor Econômico
