4 Jan 2024
O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil poderia ter crescido adicionalmente 0,46 ponto porcentual no ano passado caso os jovens de 18 a 24 anos que não estudam nem trabalham tivessem sido incorporados ao mercado. A análise foi feita com exclusividade para o Estadão/Broadcast pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Segundo a entidade, o PIB potencialmente gerado por esse grupo seria de R$ 46,3 bilhões.
Para o cálculo, a CNC analisou a massa salarial que esse contingente poderia receber se estivesse empregado. Com base no salário médio de admissão no Brasil, de R$ 2.029,33, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a massa estimada seria de R$ 15,5 bilhões. Considerando a população nem-nem na faixa etária analisada, o impacto na economia representaria quase três vezes esse valor no PIB, segundo Felipe Tavares, economista-chefe da entidade.
“Isso ocorre porque você tem o efeito do salário na economia mais os efeitos indiretos, pois o salário ativa a economia”, diz Tavares, completando que, com os R$ 46,3 bilhões, o PIB de 2022 (de R$ 10,080 trilhões) teria sido de R$ 10,126 trilhões. “É um impacto bem grande. O PIB de 2023 vai crescer 2,84%, de acordo com a pesquisa Focus de 4 de dezembro. Se a gente conseguisse ativar essa população nem-nem, iria para 3,3%. Isso é muito expressivo.”
Para o especialista, no longo prazo, esse acréscimo “é algo capaz de mudar o País”. “Na última década, o Brasil cresceu em média 0,3% ao ano. Se tivéssemos crescido esse porcentual a mais nos últimos 30 anos, estaríamos hoje com o dobro de renda per capita.”
Tendo em vista que a projeção foi feita considerando apenas a população de 18 a 24 anos, o impacto da entrada dos nem-nem no mercado de trabalho seria maior do que o calculado, uma vez que eles compreendem a faixa etária de 15 a 29 anos, pelo IBGE. “Podemos dizer que esse é um número mais conservador”, reitera o especialista.
O impacto dos nem-nem no PIB se dá, principalmente, pela diminuição da capacidade produtiva do País ocasionada pela ausência dessa parcela da população na força de trabalho. “Se as famílias não tiverem renda para consumir, o PIB sofre muito. É por isso que, toda vez que o mercado de trabalho ou a renda das famílias vai mal, há efeitos negativos para o PIB. Não adianta produzir se não vai vender nada.”
EFEITO IMEDIATO. Caso esses nem-nem entrassem no mercado, o efeito no PIB seria praticamente imediato. “O consumo é a única variável que mexe de forma instantânea no PIB. Se tiver pessoas a mais começando a trabalhar hoje e ganhando um salário 30 dias depois, no 31.º dia você já sente o efeito na economia, pois essas pessoas vão consumir no dia em que cai o salário”, afirma Tavares.
De acordo com a análise da CNC, a entrada dos nem-nem no mercado de trabalho gera efeitos desiguais a depender da raça e do local. “A economia brasileira inteira tem aumento no salário médio quando os nem-nem passam a trabalhar, pois são mais pessoas ganhando salário. Só que o efeito disso varia em relação à raça e à região do Brasil”, diz Tavares.
Para cada R$ 1 de aumento no salário médio, o impacto calculado no PIB do Sudeste é de R$ 5,5 milhões, enquanto no Norte é de apenas R$ 400 mil. No Nordeste, no Centro-Oeste e no Sul, o crescimento no PIB com o aumento de R$ 1 no salário médio é de R$ 673 mil, R$ 1,2 milhão e R$ 2,5 milhões, respectivamente.
Já em relação à raça, a CNC calculou que o aumento de R$ 1 no salário de brancos gera o aumento no PIB de R$ 2,8 milhões, enquanto o efeito para a população negra é de R$ 393 mil. •
REPORTAGEM DO 13º CURSO ESTADÃO DE JORNALISMO ECONÔMICO: ANA LUIZA ANTUNES, BEATRIZ NOGUEIRA, DANIEL ALOISIO, DIANE BIKEL, ELANNY VLAXIO, FELLIPE GUALBERTO, GABRIEL RIOS, GABRIELA JUCÁ, GEOVANI BUCCI, GIOVANNA MARINHO, IRACI FALAVINA, JEAN ARAÚJO, JULIA CAMIM, JULIANO GALISI, LETÍCIA OZÓRIO, MA LERI, MARCOS FURTADO, MAYANE SANTOS, MICHELLE PÉRTILE, RAFAELA SOUZA, RAMANA RECH, ROGÉRIO JÚNIOR, VICTÓRIA RIBEIRO E YLANNA PIRES. COORDENAÇÃO: CARLA MIRANDA, SIMONE CAVALCANTI E LUIZ FERNANDO TEIXEIRA
Fonte: O Estado de S. Paulo
