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Mesmo em meio a instabilidades causadas pelas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil, especialistas avaliam que existem muitas oportunidades para a realização de novos negócios com investidores americanos.
Além do interesse dos Estados Unidos em terras raras – já que o Brasil detém 23% das reservas mundiais desses minérios, apesar da produção atual ser inferior a 1% da mundial, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB) -, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) elaborou, em fevereiro de 2026, um Mapa de Oportunidades, que identificou 992 chances para produtos brasileiros no país em diversos setores, incluindo máquinas e equipamentos, petróleo e combustíveis, alimentos e bebidas, entre outros.
A entidade do governo brasileiro informou que atua em 39 projetos setoriais com foco nos Estados Unidos: além dos já mencionados, serviços como arquitetura e audiovisual também estão no trabalho de divulgação desenvolvido pela agência.
Everton Wutke, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Comércio Exterior (Abece), diz que as medidas do governo Trump – como a investigação comercial sobre o Pix e as tarifas – têm dois efeitos: pressão direta sobre setores específicos e aumento na percepção de risco. “Algumas cadeias são afetadas de forma objetiva. O investidor não olha só a medida em si, mas o ambiente que se sinaliza. Dito isso, não é algo estrutural contra o Brasil, é parte de uma estratégia global dos EUA. E abre espaço para o Brasil se posicionar melhor, se souber jogar o jogo. Aqui entra diplomacia econômica e inteligência comercial”, analisa.
A entidade vem trabalhando para destravar o ambiente de operações bilaterais. Alguns dos ângulos abordados são a preservação da competitividade diante da reforma tributária; a interlocução com autarquias do governo, como a Receita Federal, para simplificação e segurança jurídica; a participação ativa no Portal Único de Comércio Exterior para digitalização e integração total dos processos de transações; e a atuação no Projeto de Lei 4.423/2024, conhecido como Lei Geral do Comércio Exterior, que deve unificar o arcabouço legal sobre o tema.
Thales Saito, head do escritório do Machado Meyer em Nova York – filial que completa oito anos com o objetivo de aproximar investidores externos do mercado brasileiro -, afirma que o Brasil está bem posicionado em investimentos diretos dos Estados Unidos, sobretudo ante o cenário internacional marcado por incertezas e disputas geopolíticas. No entanto, para que o país aproveite plenamente essa “janela de oportunidade”, ele concorda com o presidente da Abece: avanços na simplificação tributária e na segurança jurídica são fundamentais para garantir a previsibilidade exigida pelo capital estrangeiro.
Entre os segmentos que mais atraem o olhar do investidor americano, Saito aponta a energia limpa, o mercado consumidor robusto e, especialmente, os data centers, que têm recebido aportes relevantes. A mineração também surge como um setor estratégico, impulsionada pela necessidade americana de diversificar o fornecimento de terras raras.
A recente transação da mineradora Serra Verde, a única de terras raras em escala comercial no país, com a USA Earth Rare, exemplifica esse movimento. Para o especialista, o Brasil se beneficia de uma postura “mais neutra geopoliticamente”, o que favorece a captação de recursos de quem busca alternativas à dependência chinesa.
Apesar do otimismo, o “custo Brasil” continua sendo o principal entrave para os negócios. Saito destaca que o ambiente legal e regulatório ainda é visto com cautela. “O investidor acha que existe certa insegurança jurídica no Brasil”, explica, citando três pilares críticos: o sistema tributário, as questões trabalhistas e a volatilidade cambial.
A legislação tributária brasileira, frequentemente rotulada como a mais complexa do mundo, é um obstáculo direto. Saito avalia que a reforma tributária pode ajudar, ressaltando a necessidade de simplificação, para facilitar ao investidor a compreensão dos custos tributários no país. No campo trabalhista, afirma Saito, o caráter “protecionista” do país e o volume de ações judiciais costumam assustar quem nunca investiu em solo brasileiro.
Nem tudo, porém, é crítica. O Brasil tem implementado medidas significativas para aumentar sua atratividade. Saito cita como avanços reais a nova regulação de câmbio do Banco Central e a Lei 2.431, que oferece isenção de imposto de renda para estrangeiros que atuam em projetos de infraestrutura. Além disso, ele aponta que, em 2023, o país modernizou a legislação para fundos de investimento, trazendo maior limitação de responsabilidade para o investidor. “No final das contas, tem uma série de medidas que ajudam a tornar o país mais atrativo”, afirma. O caminho para consolidar o investimento dos EUA passa pela continuidade dessas reformas de modernização, conclui.
Fonte: Valor Econômico
