Um amplo diagnóstico sobre o crédito divulgado pelo Banco Central (BC) no Relatório de Estabilidade Financeira emitiu um sinal de alerta – após ligeira melhora no terceiro trimestre, acumulam-se as indicações de cautela sobre o nível de inadimplência. A virada de cenário começou com a elevação dos juros básicos, com a alta da inflação. Em seguida, com a preocupação sobre o ajuste das contas públicas e, na sequência, com as incertezas com o dólar, após a eleição de Donald Trump para presidente dos EUA. Todos esses fatores podem piorar o cenário para a inadimplência, que nunca chegou a recuar significativamente nos bancos, apesar da melhora do mercado de trabalho, do aumento da renda e dos programas de renegociação de dívidas.
O novo quadro começou a se desenhar depois que o Copom parou de cortar a taxa básica de juros e passou a aumentá-la. A Selic subiu de 10,5% para os atuais 11,25%. O IPCA de outubro atingiu 0,56% e o acumulado em 12 meses foi a 4,76%, acima do teto da meta da inflação.
No mercado, os juros sobem ainda mais, encarecendo os títulos públicos. Para este ano, o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do 5º Bimestre acaba de mostrar ampliação do bloqueio de despesas discricionárias em R$ 6 bilhões, para R$ 19,3 bilhões, para cumprir o limite de despesas primárias de R$ 28,7 bilhões, raspando no limite inferior da meta.
Todos esses fatores repercutem mal no crédito. Segundo o relatório do BC, a capacidade de pagamento das famílias e das micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) continua “desafiadora”. No caso das empresas, o BC ressalta o “crescente” número de pedidos de recuperação judicial, a alta do dólar e a percepção de alavancagem elevada, “apesar do dinamismo recente do comércio, dos serviços e da indústria”.
Do lado das famílias, há motivo de preocupação mesmo com a melhora do mercado de trabalho. A taxa de desemprego caiu para 6,4% no terceiro trimestre do ano, o menor patamar para o período desde o início da série histórica da Pnad Contínua do IBGE, em 2012. A massa de rendimento médio real da população ocupada aumentou pouco mais de 7% em 12 meses.
Mas, como apontou o BC, o endividamento e o comprometimento de renda das famílias “persistem elevados”. Após ligeiro recuo no primeiro semestre, esses índices voltaram aos picos de 2023. Os dados mais recentes do relatório de crédito do BC mostram que o endividamento das famílias equivalia a 47,9% da renda acumulada em 12 meses em agosto, o maior percentual desde dezembro de 2023. O comprometimento da renda ficava em 26,8%, o maior percentual desde outubro de 2023.
O mercado de trabalho favorável contém a inadimplência, mas sem sinais de alívio. A taxa registrada pelos bancos para atrasos acima de 90 dias se mantém entre 3,2% e 3,3% desde o início do ano. A situação é mais delicada no crédito para as famílias, cujo calote está estabilizado em 3,8%, chegando a 5,6% no crédito com recursos livres. Já no crédito para as empresas, a inadimplência média é de 2,4, e atinge 2,9% nas operações com recursos livres.
O equilíbrio depende também da disposição dos bancos em manter abertas as torneiras do crédito. O BC constatou que as instituições financeiras aumentaram “levemente” o apetite a risco no início do segundo semestre, como mostram os dados de setembro, quando a carteira de crédito com recursos livres aumentou 1,4% no mês e 9,1% em 12 meses. No caso dos empréstimos a empresas, o aumento foi de 2,4% no mês e de 7,2% em 12 meses, com a expansão sazonal de operações de desconto de duplicata e outros recebíveis e capital de giro de curto prazo. Já as operações com pessoas físicas cresceram 0,7% no mês e 10,5% em 12 meses, com destaque para um mix de produtos com garantias como o financiamento para aquisição de veículos e crédito consignado para funcionários públicos.
No entanto, há sinais de mudança de humor após o aumento dos custos de captação e da percepção de aumento do risco, que já estão sendo repassados para as taxas de crédito. A isso se soma a necessidade dos bancos de reforçar provisões para enfrentar mudanças regulatórias em curso na virada de ano. Levantamento do Valor (21/11) listou uma dúzia de alterações em elaboração. Somente uma delas exigirá significativo aumento das provisões: as novas regras contábeis para mensuração e registro de instrumentos financeiros e reconhecimento de “hedge”, que entram em vigor em 1 de janeiro. Bancos responsáveis por cerca de 84% das exposições de crédito do mercado estimam elevação de R$ 37,8 bilhões nas suas provisões, ou 10,7% das provisões atuais, segundo o BC.
A expectativa é que a demanda de crédito continue forte no fim de ano, como costuma ocorrer nas festas da época e das férias. Mas também se espera a piora na inadimplência, na tolerância ao risco, condições de funding e, em especial, no crédito habitacional. O custo e a disponibilidade de recursos devem ser um fator mais restritivo neste fim de ano, o que pode pressionar a inadimplência.
Fonte: Valor Econômico
