O movimento do dia foi, de acordo com analistas, reflexo da pesquisa eleitoral Genial/Quaest —, que mostrou uma leve perda de competitividade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pela reeleição neste ano e ligeiro aumento da probabilidade de alternância de poder e mudança na política fiscal, embora o petista vença em todos os cenários da pesquisa divulgada ontem — e da valorização de commodities com as tensões geopolíticas.
No entanto, a valorização do Ibovespa, que reúne os papéis das principais empresas de capital aberto do país, não vem de hoje. Em 2025, foram 32 recordes e valorização acumulada de 34%, a maior alta anual desde 2016 —, o índice deve seguir impulsionado por bons ventos que vêm do exterior. A aposta é de analistas internacionais ouvidos pelo GLOBO.
De acordo com quem vê o Brasil com lupa, devem continuar favorecendo a valorização de ações no Brasil o movimento de rotação de carteiras internacionais diante de um ciclo de queda de juros nos Estados Unidos, com investidores dispostos a correr mais risco em países emergentes. Colabora para isso a perspectiva de início da queda dos juros também no Brasil.
Outro fator que favorece a valorização é o preço dos ativos, considerado “descontado” em muitas ações. É que, numa medida lida de perto por investidores, as ações de empresas da região possuem preços baixos, descorrelacionados com aquilo que entregam de lucro. Daí a estigma de “preços baratos”. Por outro lado, as eleições de outubro deste ano devem promover volatilidade no cenário.
‘Apetite por risco’
Para Ivan Kleimann, diretor de Investimentos para Mercados Emergentes da gestora escocesa Aberdeen, que tem cerca de meio trilhão de libras em ativos sob gestão (algo em torno de R$ 3,6 trilhões), o cenário para mercados emergentes, caso brasileiro, segue positivo:
— A esperada continuidade dos cortes de juros nos Estados Unidos, juntamente com um afrouxamento monetário global mais sincronizado, tende a sustentar o apetite por risco e os fluxos de capital para os mercados emergentes — ele diz.
É que o juro americano funciona como um ímã: quando estão altos, atraem o capital global do mundo inteiro para os Treasuries, títulos do Tesouro do país, considerados investimentos dos mais seguros do mundo. Com a redução do juros por lá, eles ficam menos atraentes, fazendo com que o capital global busque outras geografias para aplicar seus recursos.
Não é só o Fed
No ano passado, quando o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) iniciou um ciclo de queda do juro americano, os estrangeiros encerraram o ano com aporte de R$ 25,5 bilhões no mercado de ações brasileiro. Em 2024, quando o juro americano estava no maior patamar em 25 anos e não sofreu nenhuma alteração, os estrangeiros retiraram R$ 32,1 bi da B3.
— A região, sem exceção para o Brasil, se destaca por suas avaliações atraentes e fundamentos resilientes, e as tendências globais de diversificação continuam a favorecer a alocação para a região — afirma Kleimann sobre a América Latina e suas “avaliações descontadas”.
Um outro fator que deve impulsionar a alocação é a queda dos juros no Brasil, prevista para ser iniciada a partir da reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom). Em relatório divulgado na quarta-feira, a consultoria inglesa Capital Economics vê a Taxa Selic se aproximando dos 12% até o fim do ano, o que abre espaço para a valorização do índice local.
‘Mais um ano forte’
O banco americano Morgan Stanley vê o Ibovespa, num cenário considerado otimista, alcançando 200 mil pontos até o fim do ano.
— As ações brasileiras seguem bem posicionadas para registrar mais um ano forte em 2026, sobretudo em meio aos esperados cortes da taxa Selic e ao aumento das expectativas de normalização da política monetária, o que deve beneficiar especialmente setores voltados ao consumo, como o varejo, além das empresas de menor capitalização — afirma Eileen Gavin, analista chefe de mercados da consultoria inglesa Verisk Maplecroft.
A redução dos juros locais tende a diminuir custos das empresas com financiamentos, o que “libera” mais retornos aos acionistas. Além disso, o crédito fica mais barato, fazendo com que as pessoas consumam mais, aumentando o resultado das companhias.
Turbulência à vista
Mas nem tudo são flores. As eleições prometem gerar altas e baixas com um ritmo mais intenso do que vemos normalmente, afirmam os analistas.
— As eleições sempre trazem algum grau natural de volatilidade, especialmente no Brasil, que tem um ciclo eleitoral longo e sempre muito vibrante. As ações locais não estão imunes — diz Eileen Gavin, da Verisk.
A tese de alternância de poder valoriza as ações porque os investidores identificam na oposição maior disposição para deter a crescente trajetória da dívida pública, dada as dificuldades do governo atual para cortar gastos.
— O principal fator negativo (para o Ibovespa) provavelmente viria de qualquer sinal de que o próximo governo eleito não estará devidamente comprometido com a consolidação fiscal — diz Eileen, para quem o mercado espera um esforço do próximo chefe do Executivo para “colocar a política fiscal sob controle a partir de 2027”.
Documentos do Tesouro Nacional divulgados na última segunda-feira mostram que a relação entre tudo que o país deve e o que produz pode alcançar 79,3% do PIB. Esta relação pode aumentar para 83,6% em 2026.
Com um aumento da dívida pública, há maior desconfiança sobre a capacidade do país de honrá-la. Como consequência do maior risco, há fuga de dólares, elevando o câmbio e impacto na inflação, que é “remediada” com a necessidade de juros mais altos.
— A incerteza política e os desafios de consolidação fiscal, especialmente com a aproximação das eleições presidenciais, podem pesar sobre o sentimento (do mercado). A consolidação fiscal do Brasil segue sendo um desafio central, e a sustentabilidade da trajetória fiscal será um tema-chave — diz Kleimann, da gestora escocesa. — Os investidores acompanharão de perto sinais de avanço das reformas, pois esses fatores podem atuar como catalisadores para uma renovada confiança nos ativos brasileiros.
Fonte: O Globo


