Apesar de oscilar na faixa dos 190 mil pontos entre altas e baixas ao fim deste primeiro bimestre, o Ibovespa emplacava em fevereiro o segundo mês de valorização e até o dia 26 subia 5,3%, com a alta acumulada no ano já em 18,5%. Desbanca assim, de longe, o CDI, que no nível atual tem se capitalizado a um ritmo de 1,2% ao mês, sem sustos.
O movimento de compras na bolsa segue liderado pelo capital estrangeiro, que trouxe para o mercado secundário da B3 mais de R$ 20 bilhões até aqui. O dólar acompanhou o ingresso de dinheiro e recuou 6,4% no ano.
A pessoa física ainda está pouco exposta às classes consideradas mais arriscadas. A Selic em 15% ao ano contribuiu para deixar o investidor “mais preguiçoso”, observa Sigrid Guimarães, CEO da gestora de fortunas Alocc. Só que, considerando-se a valorização do Ibovespa no ano passado e no primeiro bimestre, a conta já esbarra nos 55%.
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“Janeiro já tinha sido uma surpresa, foi um mês que atropelou o consenso. Num cenário cheio de incerteza eleitoral, volátil e com juros altos, muita gente ficou na defensiva”, diz. “A entrada forte de capital estrangeiro para ativos líquidos como bolsa explodiu e o dólar caiu. Como tinha muita gente na defensiva, tentando adivinhar o mercado, daí erra e perde momentos únicos como este. Fevereiro foi positivo, mas já sem o mesmo ímpeto.”
No tempo, essas acelerações fazem diferença no portfólio do investidor, por isso a recomendação é manter a parcela em ações, faça chuva ou faça sol. “Se o investidor tem um colchão de liquidez confortável, que cobre o custo de vida por vários anos e tem um excedente, por que não colocar em ações, por que não se beneficiar desses momentos no ganho de longo prazo? É uma ‘pimentinha’ a mais na carteira”, diz Guimarães. “A concentração é ruim mesmo nas categorias mais conservadoras.”
Quando o investidor se identifica com perfil ultra-conservador, sem querer volatilidade nenhuma na carteira, a diversificação acaba se limitando a ativos aparentemente com baixo risco de crédito, “e daí começam a acontecer os problemas, vão pipocando papéis em que o retorno é o mesmo que zero”, alerta.
“Prefiro estar numa boa carteira de ações, de um bom gestor, que não vai virar pó. Essa coisa do risco e do medo tem que ser desmistificada”, defende Guimarães. “O que adianta parecer renda fixa e ser um COE ou o CDB de um banco em vias de quebrar? Empresa boa está na economia real, produzindo, com receita e crescendo, independentemente das crises.”
Na renda fixa, o melhor desempenho foi do IMA-B 5+, com valorização de 2,6% no mês e de 3,4% ao ano até ontem. O índice medido pela Anbima, que sintetiza uma cesta de títulos do Tesouro atrelados ao IPCA com prazo acima de cinco anos, mostra certa descompressão do prêmio de juros, num cenário que prevê a inflação mais controlada e Selic para baixo. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central sinalizou que deve começar a cortar a taxa básica da economia a partir de março. O mercado projeta uma taxa na casa dos 12% ao ano até dezembro.
Com as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B) pagando taxas acima de 7%, além da correção pelo IPCA, há dois anos, é de se esperar que finalmente esses ativos tragam bons retornos para o investidor, afirma Marta Zaidan, sócia e executiva-chefe de investimentos (CIO) da gestora de patrimônio Vos Investimentos. “Não tem sustentabilidade [de dívida] possível um país com este nível de taxa de juros”, diz. “É claro que tem que cair, não por vontade, mas fechar por causa de um bom arcabouço [fiscal].”
No Brasil, a gestora diz dar preferência à renda fixa atrelada à inflação, incluindo papéis de dívida isentos de imposto de renda para a pessoa física, avaliando o risco de forma “extremamente cautelosa, porque o crédito vai bem até que estoura”.
“É muito difícil. Com as companhias captando a pelo menos 15%, este é o custo de capital que conseguiriam para fazer investimentos, elas teriam que gerar um nível de produtividade, um retorno muito alto… o país deveria entrar num ciclo de crédito mais complicado.”
Para a parcela investida em ações, a gestão da Vos privilegia o mercado internacional. Zaidan se diz um pouco cética com o ingresso de capital estrangeiro que inflou o preço dos papéis locais. “Não dava para prever o tamanho do fluxo para a bolsa e sou cega para esse tipo de movimento, não sou muito otimista com as empresas que a gente vê no índice, não pelas companhias em si, mas pela concentração de mercado em poucas teses, em bancos, commodities e companhias de energia elétrica”, diz. “Com essa configuração, [o Ibovespa] não consegue capturar nem a dinâmica natural de ciclo econômico.”
Com o corte de juros logo aí e passada a eleição, a depender do resultado, o Brasil poderia viver uma fase de reinvestimentos muito positiva a partir de 2027, com uma nova agenda econômica. “Pode ser que tenha um rali interessante, mas é muito incerto, não dá para montar portfólio para o resultado eleitoral”, diz a CIO da Vos. A carteira recomendada contempla apenas 5% via índice e fundos de ações selecionados.
A rotação global que amortece a dominância histórica do dólar em prol de ativos de mercados emergentes, incluindo o Brasil, é um movimento bem estrutural, iniciado com a guerra entre Rússia e Ucrânia, e que foi acelerado pelas políticas de Donald Trump no seu novo mandato na presidência dos Estados Unidos, diz Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor da Novus Capital.
Desde a ação de Trump na Venezuela, no início de janeiro, há um fluxo favorecendo a América Latina, para países que seriam potencialmente aliados do governo americano, ricos em minerais raros e commodities, observa Portella. Na outra ponta, grandes fundos de pensão e soberanos da Europa buscam diversificação ao dólar, elegendo o ouro como reserva internacional e ativos que possam se beneficiar das demandas para o desenvolvimento da inteligência artificial (IA).
Só que é justamente a tese da IA – e suas necessidades de capital intensivo – que tem provocado a desconfiança dos investidores. “Quando se tira um pouco o foco do investimento em tecnologia e transborda para o resto do mundo e para emergentes há ainda crescimento nos Estados Unidos, na Europa, com as economias com juros baixos e podendo cair mais”, afirma o gestor da Novus. “O ambiente global segue muito propício para crescimento, é bom para emergentes e para o Brasil.”
Portella acredita que essa realocação pode persistir até 2030, “é um movimento de alguns anos na busca por ativos reais depois de quase 18 anos com os Estados Unidos dominando o fluxo de compra”.
Só que depois do chamado “Flavio Day”, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro apontou seu filho como candidato da direita na eleição à presidência deste ano, o gestor diz ter virado o ano quase sem Brasil no portfólio. “O mercado meio que desistiu da eleição ali”, mas o fluxo forte de capital externo acabou pesando a favor dos ativos brasileiros. O multimercado da Novus ganhou com posições no ouro e em bolsas da América Latina.
Com o senador Flávio Bolsonaro (PL) mostrando-se competitivo nas pesquisas de intenção de votos e o início de ciclo de cortes de juros pelo BC, Portella montou posições aplicadas, pró-redução das taxas em estratégias com juros nominais e reais, e tem monitorado de perto o movimento do câmbio. “Quando se pega o dólar a R$ 5,15, o modelo do BC já projeta a inflação abaixo da meta de 3%, a 2,95%, a gente estima que isso vá abrir margem para acelerar o ritmo de cortes a partir de abril”, afirma.
“Prefixados e NTN-Bs são oportunidades que têm muito prêmio se o dólar continuar por aí ou escorregar um pouco mais”, afirma Portella, acrescentando que tem hoje a maior posição em juros em 12 meses.
Em ações, o gestor diz ter escolhido como veículo de investimento o EWZ, fundo de índice negociado em bolsa (ETF, na sigla em inglês) que espelha o Ibovespa em dólar. A gestão diminuiu a parcela nas demais bolsas latino-americanas e mantém posição comprada no ouro. Depois de subir mais de 60% no ano passado, o metal acumula ganhos de mais 12% em 2026.
Apesar dos rompantes de Trump, Zaidan, da Vos, ainda diz gostar da bolsa americana, mas por meio do S&P 500 Equal Weight, em que os pesos das ações no ETF são igualmente distribuídos, sem concentração das gigantes de tecnologia.
“Trump é o presidente do mercado acionário, qualquer decisão que afete as ações, em poucas horas ele vai mudar de ideia, é pragmático”, diz Zaidan. A gestora acrescenta que, com as eleições das casas legislativas no fim do ano, o presidente americano não vai poder fazer “grandes loucuras”, atendo-se àquelas que lhe tragam pontos de popularidade.
Para famílias que têm afinidade com investimentos ligados à economia real, a recomendação de Zaidan tem sido alocar em classes alternativas ligadas a infraestrutura, private equity e a investimentos de impacto.
Fonte: Valor Econômico
