O Ibovespa renovou ontem seu recorde de fechamento, acima de 165 mil pontos, enquanto o dólar teve queda firme, levando o real a se destacar entre as moedas mais líquidas no dia. O cenário mais favorável no exterior, sem notícias que gerassem temores adicionais sobre questões geopolíticas, abriu espaço para a busca por ativos mais arriscados pelos investidores. No mercado de juros, porém, o movimento foi distinto, com alguma pressão vinda do leilão de títulos do Tesouro Nacional e com os dados mais fortes do setor varejista brasileiro deixando os agentes do mercado mais cautelosos sobre o início do ciclo de cortes da Selic.
No fim das negociações, o Ibovespa registrou valorização de 0,26%, novo recorde de fechamento nominal, aos 165.568 pontos. O dólar à vista recuou 0,62%, cotado a R$ 5,3680, com o real entre as três moedas que mais se apreciaram contra o dólar no dia, atrás apenas dos pesos argentino e mexicano. Já a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 teve alta de 13,045% para 13,09%.
No mercado acionário, o pregão foi marcado por grande volatilidade. Para analistas, o movimento mais positivo pode ter sido impulsionado por investidores locais, que estavam pouco alocados em bolsa e se animaram com as altas recentes.
Após três sessões seguidas de ganhos, as ações da Vale encerraram perto da estabilidade, com queda de 0,09%. Já os papéis ordinários da PetrobrasCotação de Petrobras cederam 1,02%, enquanto os preferenciais caíram 0,63%, revertendo uma parte da alta forte da véspera e também refletindo o recuo brusco dos preços do petróleo, de mais de 4%. As ações dos bancos, por sua vez, fecharam mistas: as units do Santander lideraram as perdas do segmento, com recuo de 2,47%, enquanto as preferenciais do Bradesco subiram 2,05%.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2026/Q/V/RQ6BU2TD2S2AqAexTHdw/arte16fin-102-locais-c2.jpg)
Apesar do movimento volátil da sessão, a perspectiva para a bolsa segue positiva, segundo a Mantaro Capital. Em carta mensal, a gestora destaca que o fluxo direcionado a ativos de risco no Brasil permanece em níveis historicamente baixos. Nesse contexto, diversas companhias realizaram recompras relevantes de ações, enquanto outras se tornaram alvo de aquisições. “Enxergamos oportunidades atrativas por razões estruturais. Há diversas empresas que continuam gerando caixa de forma expressiva, com balanços sólidos e operações eficientes, mas que ainda negociam com um nível de pessimismo embutido nos preços que não condiz nem com a situação atual, nem com suas perspectivas de médio prazo”, diz a equipe.
No mercado de câmbio, o dólar devolveu o movimento de apreciação das sessões anteriores. Na ausência de notícias que realimentassem a percepção de risco geopolítico, houve um ajuste, com o aumento na busca por moedas consideradas mais arriscadas no exterior, e isso se refletiu no mercado local.
O gestor de portfólio Gustavo Okuyama, da Porto Asset, aponta que, apesar da recuperação do real neste começo de ano, após a queda mais firme no fim do ano passado, a apreciação da moeda brasileira está em linha com a valorização dos pares da região, no acumulado do mês. “Na média, as moedas da América Latina apreciam 2,15%, enquanto o real está valorizando 2,17%. Ou seja, não é algo que chama a atenção”, diz. Ele acrescenta, porém, que na janela de três meses as moedas pares da América Latina têm valorização em torno de 6,3%, bem acima do real, com 1,8%.
Por conta de a moeda brasileira começar 2026 em um patamar mais baixo, em termos de preço, o gestor vê espaço para o câmbio doméstico se recuperar neste início de ano, em especial na janela de recesso parlamentar, que pode não trazer novos ruídos para os mercados. “Além disso, no fim do mês os diretores do Banco Central irão se reunir e, embora não devam cortar juros, devem fazer uma sinalização sobre isso. O corte das taxas aqui pode criar uma procura por risco local, o que pode beneficiar os outros mercados”, diz.
Okuyama lembra que, para o real, mesmo que haja um ajuste com um ciclo de cortes de 2 a 3 pontos percentuais na Selic no ano, a moeda brasileira ainda vai continuar com elevado diferencial de juros e, portanto, atrativa.
Também de olho no BC, os dados do varejo mais fortes surpreenderam os investidores ontem, levando a um ajuste nas perspectivas de cortes da Selic. O número do varejo em novembro superou o teto das 21 projeções coletadas pelo Valor Data. Para Andressa Durão, economista do ASA, o indicador representou uma surpresa “bastante positiva” para a atividade, mas deve ser lido com cautela, uma vez que a forte expansão do setor foi impulsionada pelas vendas da Black Friday.
De qualquer forma, os dados inspiraram cautela adicional dos investidores em relação ao ciclo de cortes da Selic. No mercado de opções digitais de Copom, a probabilidade precificada para que os juros se mantenham no patamar de 15% na reunião deste mês cresceu de 76% para 78,2%, tendo atingido a máxima de 79%. (Colaborou Vinícius Lucena)
Fonte: Valor Econômico
