A busca por ativos reais voltou a atrair um volume robusto de capital estrangeiro para bolsas com grande exposição a empresas de commodities, caso do mercado acionário brasileiro. Com impulso dos aportes de não residentes, o Ibovespa ganhou fôlego para encerrar com alta de 2,03%, aos 189.699 pontos, após cravar a marca inédita dos 190.561 pontos durante o pregão, em uma sessão marcada também por surpresas positivas com balanços. No ano, o índice já sobe 17,73%.
Um maior apetite por ações mais líquidas levou também as cotações da Petrobras e da ValeCotação de Vale a romper suas máximas históricas ajustadas pelo pagamento de proventos, segundo o Valor Data. No fim do dia, as ações preferenciais da Petrobras avançaram 1,95%, a R$ 38,08, enquanto as ON da petroleira subiram 3,01%, a R$ 41,06. As ordinárias da ValeCotação de Vale valorizaram 3,49%, a R$ 90,09, um dia antes da divulgação do balanço.
Embora o índice tenha disparado neste ano, a equipe do Goldman Sachs permanece com uma visão “overweight” (equivalente a compra) para as ações brasileiras e diz ver espaço para uma valorização adicional. “Quase metade dos ganhos acumulados [pelo Ibovespa] no ano provêm do setor de commodities (energia, materiais), que podem se manter firmes no curto prazo”, dizem, em relatório.
Excluindo ações de commodities, os profissionais do banco afirmam que o Ibovespa negocia a um preço sobre lucro de 9,7 vezes, o que “não reflete totalmente o potencial de alta decorrente dos cortes de juros”, que provavelmente começarão em março.
O início do processo de afrouxamento monetário no Brasil está entre os chamarizes que poderão atrair ainda mais fluxo de capital para o país. Apenas nos primeiros meses deste ano, a entrada de investidores estrangeiros na bolsa local já soma R$ 30,5 bilhões. O último dado de aportes de capital externo na B3 confirma a manutenção da tendência, ao mostrar que o estrangeiro injetou mais de R$ 1 bilhão na segunda-feira em ações já listadas.
Os números indicam que o movimento de rotação segue robusto, sobrepondo-se a fatores domésticos, como o eleitoral, ao menos por enquanto, aponta o chefe da mesa de operações de ações da Warren, Ricardo Maluf.
“Na terça-feira tivemos algumas falas de gestores importantes no sentido de que o cenário político e eleitoral não deve representar uma ruptura de preços, dado que os candidatos mais representativos na foto de hoje já são conhecidos”, diz Maluf. “Nesse sentido, as pesquisas, mesmo sendo catalisadoras de preço, ficariam em segundo plano por enquanto”, acrescenta, fazendo referência à pesquisa divulgada ontem pela Genial/Quaest, e que teve pouco efeito sobre os preços de ativos.
Por outro lado, há quem acredite que o movimento de realocação global de portfólios em curso, que reduz o peso de ativos americanos nas carteiras globais, pode estar se aproximando de um limite, como o estrategista-chefe da Monte Bravo, Alexandre Mathias. Ele explica que esses movimentos de fluxo tendem a durar de cinco a seis semanas e, como começaram na segunda quinzena de janeiro, devem se encerrar na segunda metade do mês de fevereiro.
“Este ano, dada a desproporção da alocação nos Estados Unidos nos últimos 20 anos, pode ser que o movimento tenha um fôlego um pouco mais longo”, diz Mathias. “Mas entendemos que é provável que, em algum momento ao longo de março, os fluxos cessem. A partir daí, será difícil sustentar os preços, porque subiram demais em muito pouco tempo.”
A magnitude da alta já registrada por alguns papéis, como o da ValeCotação de Vale, por exemplo, ajuda a reforçar certo ceticismo com a ação mais adiante, por parte de alguns investidores. Ainda que a avalanche de recursos possa sustentar a tese de que ações mais líquidas têm espaço para avançar nos próximos meses, parte do mercado avalia que o momento é propício para rebaixar o papel, ou reduzir parcialmente a exposição à mineradora.
É o caso do BB Investimentos e da Genial Investimentos. Em relatórios, as equipes de ambas as casas contam que reduziram as recomendações para a ValeCotação de Vale de compra para neutra recentemente. Os analistas Igor Guedes, Luca Vello e Ygor Bastos, da Genial, explicam que a alta recente do papel neutralizou, em grande medida, a margem de segurança que a casa acreditava existir anteriormente.
Em sua justificativa, a equipe da Genial afirma que a combinação de uma visão mais “cética” sobre preços de minério de ferro em relação ao consenso, somada à rápida compressão do desconto, juntamente com a aproximação do preço do papel ao valor intrínseco estimado pela casa, levou a corretora a rebaixar os papéis.
A visão de que ação já está bem precificada, especialmente devido à estabilidade do preço do minério de ferro em torno de US$ 100 por tonelada, também é defendida pelo gestor de renda variável da ARX Investimentos, Alexandre Sant’Anna, que segue reduzindo a exposição ao papel de forma gradual.
“Não mudamos a opinião sobre o papel estar bem precificado, até porque o preço do minério não tem subido; pelo contrário, oscilou perto dos US$ 100 por tonelada e até caiu um pouco na margem”, diz o gestor. “Dessa forma, observamos que essa alta da ValeCotação de Vale tem seguido um fluxo global positivo para as empresas de commodities – vide o que ocorreu com Rio Tinto e BHP, por exemplo.”
Já a XP segue com exposição à ValeCotação de Vale. O estrategista-chefe da casa, Fernando Ferreira, destaca que o papel ainda negocia com desconto considerável em relação a outras gigantes do setor. Ele diz ainda que a ValeCotação de Vale é o principal exponente da bolsa a surfar a tendência de valorização dos metais pelo mundo.
“O minério está subindo, mesmo não tendo valorizado tanto quanto outros metais”, diz Ferreira. “Os estrangeiros valorizam bastante a exposição à ValeCotação de Vale devido ao níquel, ao cobre e aos minerais críticos. Eles não estão olhando apenas para o minério de ferro.”
Fonte: Valor Econômico
