O presidente da Federação Brasileira de Bancos, Isaac Sidney, recusa a denominação de “ataque especulativo” à escalada do dólar. “Estamos num terreno movediço de irracionalidade dos ativos financeiros”, diz, de Brasília, onde acompanha a votação das leis orçamentárias e fiscais. “A forte deterioração das expectativas, no plano fiscal e monetário, levou os ativos para um patamar disfuncional e insustentável.”
Um país com Selic e dólar nas alturas e uma inflação além da meta não é do interesse do governo, do Congresso ou do mercado, diz. Ainda assim, é isso que está projetado com a corda esticada entre os leilões do Banco Central e o mercado ou entre os parlamentares que querem aumentar a despesa antes de cortá-la e um governo cujo presidente resiste a reconhecer o tamanho do problema fiscal. “Vamos todos perder nessa arena, temos de furar a bolha do stress dos ativos. A hora é de racionalidade e serenidade”, diz.
Isaac Sidney não tem dúvida de que a trajetória de crescimento da dívida pública tem que ser estancada. “Isso é inadiável”, diz, “mas ninguém está de braços cruzados.” O tempero da irracionalidade na manhã desta terça-feira foi a circulação nos grupos de WhatsApp de investidores de uma fala inexistente do diretor e futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, desconectando a trajetória do câmbio do ajuste fiscal.
O presidente da Febraban resiste a fulanizar, mas o recado é claro: “Ao enviar o pacote fiscal ao Congresso, o governo reconheceu o quadro fiscal ainda crítico e a necessidade de medidas adicionais para reforçar o arcabouço. Há um mérito do governo na complementação do arcabouço e do Congresso no esforço concentrado para aprovar o pacote fiscal. Por isso é preciso aguardar.”
Na tarde desta terça-feira, a Câmara dos Deputados aprovou a regulamentação da reforma tributária revertendo várias reduções da carga tributária aprovadas pelo Senado que teriam impacto sobre a alíquota do IVA. Uma leitura possível desta aprovação é que esta responsabilidade se estenda sobre a votação das leis orçamentárias e do ajuste fiscal. É lá que está instalado o cabo de guerra entre a execução das emendas parlamentares e o ajuste fiscal.
Para o presidente da Febraban, os esforços agora devem estar concentrados na aprovação do pacote fiscal: “O mínimo a fazer agora é assegurar que o pacote não seja desidratado. Se necessário, seria importante uma autoconvocação pelo próprio Congresso ou até uma convocação extraordinária”.
Sem que se saiba se o ajuste alcançará os R$ 71,9 bilhões pretendidos nos próximos dois anos, não há como votar o Orçamento do próximo ano. Se o pacote for desidratado, o resultado fiscal poderá vir de um contingenciamento de despesas maior. Isaac Sidney faz questão de dizer que está filiado ao partido dos que confiam no “senso de urgência e responsabilidade fiscal” do governo e do Congresso.
Fonte: Valor Econômico
