Nem mesmo o alívio externo na sessão desta segunda impediu o mercado de mudar suas expectativas para a decisão de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. A pesquisa do Valor, publicada ontem, capturava uma divisão no mercado, mas já mostrava uma tendência dos economistas de esperar uma decisão mais cautelosa da autoridade monetária. Esse cenário agora se cristalizou à medida que alguns “pesos pesados” do mercado se uniram à expectativa de uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, de 15% para 14,75%, nesta semana.
Migraram para esse cenário importantes bancos, como BTG Pactual, Safra, Itaú Unibanco, Santander, J.P. Morgan e Bank of America (BofA). Em um comportamento ainda mais ousado, a XP abandonou de vez a hipótese de cortes nesta semana e passou a projetar a manutenção do juro básico em 15%.
A leva de revisão nas projeções ocorre no contexto da escalada na guerra no Oriente Médio, que levou os preços do barril de petróleo Brent para a faixa dos três dígitos. Com incertezas sobre o impacto inflacionário do conflito e dos possíveis efeitos nas expectativas de inflação, a orientação dada pelo Banco Central (BC) de que iniciaria os cortes de juros na reunião de março passou a ser questionada.
Na visão da equipe de economistas do J.P. Morgan Brasil, comandada por Cassiana Fernandez, o cenário doméstico até daria suporte a uma redução de 0,5 ponto, ao se ter em vista que a Selic está no nível mais alto em 20 anos e oferece uma margem de proteção contra choques. O banco, contudo, avalia que o Copom deve optar por um caminho mais conservador, em uma opção de cumprir o “forward guidance” da reunião anterior, ao mesmo tempo em que reconhece o nível de incerteza atual como elevado.
“Permanece uma incerteza significativa quanto à duração e à magnitude dos efeitos da guerra sobre os preços globais e sobre o real, como evidenciado pela recente volatilidade dos ativos. Neste contexto, embora choques externos possam gerar efeitos de segunda ordem sobre a economia brasileira, seus contornos só se tornarão claros com o tempo e com a evolução dos dados. Assim, é provável que o BC reforce a dependência dos dados na condução das próximas decisões”, avaliam os economistas do J.P.
Também guiado pela visão de que a prescrição futura do BC segue válida, o BofA mudou seu cenário de um corte de 0,5 ponto nos juros para uma diminuição de 0,25 ponto.
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“Embora a forte alta dos preços do petróleo aumente os riscos para o cenário de inflação, vemos o choque relacionado à guerra como exógeno, o que permite ao Banco Central olhar além dos efeitos de primeira ordem e concentrar-se em conter eventuais pressões de segunda rodada”, afirma o chefe de economia para Brasil e estratégia para América Latina do banco, David Beker.
O executivo também nota que um corte de 0,25 ponto na Selic ainda deixaria o juro real ex-ante acima de 10%, o que seria bem acima da estimativa do BofA de um juro real de equilíbrio de 5,5%.
Parte do movimento dos bancos já havia sido capturada na semana passada, quando BNP Paribas, HSBC e Goldman Sachs alteraram suas projeções para a Selic e passaram a incorporar em seus cenários um corte de 0,25 ponto.
Agora, bancos locais se unem a essa expectativa. No caso do Safra, na equipe comandada por Eduardo Yuki, há uma avaliação de que os preços no atacado, que estão bem-comportados, devem acelerar nos próximos meses diante do choque do petróleo. E, nas simulações do banco de previsão de inflação, o IPCA acumulado em 12 meses projetado para o terceiro trimestre de 2027 ficará em torno de 3,6%, quando já incorporada a ocorrência do El Niño.
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O Safra, inclusive, acredita que o Copom pode utilizar um cenário alternativo similar ao visto em março de 2022, quando o modelo incorporava a curva futura do preço do petróleo para os próximos 12 meses. Isso resultaria em uma alta modesta da inflação projetada no horizonte relevante, de 3,2% para 3,3%. “Considerando a natureza do choque de oferta, acreditamos que esse cenário alternativo possui maior probabilidade de ocorrência. Dessa forma, a autoridade monetária poderá ‘olhar através do choque’.”
Em relatório enviado a clientes, o economista Marco Antonio Caruso, do Santander, se guia pela comunicação do BC para acreditar que haverá um corte de 0,25 ponto nesta semana. “O ‘forward guidance’ traçou um teto, tornando a inação custosa em termos de credibilidade; o choque de oferta estabeleceu um piso e o resultado acaba sendo um corte de 0,25 ponto”, diz.
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O BTG Pactual, em relatório assinado pelo ex-diretor do BC Tiago Berriel, traça um argumento semelhante, ao avaliar que a magnitude do choque e a incerteza quanto à sua persistência “ampliam os riscos de desancoragem das expectativas, contaminação dos núcleos e reforço da inflação inercial”. Para o BTG, um corte de 0,5 ponto parece improvável, mas pode se tornar viável caso a incerteza no cenário externo diminua de maneira efetiva.
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No caso da XP, na equipe comandada por Caio Megale, o cenário previsto pelo Copom não se confirmou diante do salto nos preços do petróleo, que representa um “relevante choque negativo de oferta sobre uma economia sem capacidade ociosa e com inflação acima da meta”.
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É por isso que os economistas da XP acreditam que o novo cenário demanda uma reação da política monetária, o que sugere a manutenção dos juros em 15%. “A nosso ver, há mudanças e incertezas suficientes no cenário para justificar uma abordagem mais cautelosa de ‘esperar para ver’, sem comprometer a credibilidade da autoridade monetária”, enfatizam os economistas da XP em nota enviada a clientes.
Fonte: Valor Econômico
