A guerra entre Estados Unidos e o Irã obrigou o mercado financeiro a recalcular sua rota, ao menos no curto prazo. A trajetória do dólar, antes com viés baixista e que passou a exibir valorização na última semana, hoje é questionada. Além da alta na moeda norte-americana, de volta aos holofotes como reserva de valor, empresas de commodities enfrentam desafios logísticos e de preço, enquanto petroleiras podem se beneficiar.
No dia 28 de fevereiro, EUA e Israel realizaram ataques ao Irã, com o objetivo de destruir o potencial nuclear do país, conflito que agora se espalha por outros países e compromete a passagem de petróleo pelo Estreito de Ormuz. Antes do conflito, o dólar operava com viés baixista, fruto das políticas de Donald Trump de desvalorização à moeda, e o Ibovespa subia em meio ao fluxo de estrangeiros migrando para o Brasil. Após o início do conflito, o dólar passou a subir globalmente, enquanto ouro e bolsas ao redor do mundo sofrem com queda. Nesta sexta-feira (6), no entanto, o movimento teve uma leve contida, com o dólar saindo do patamar dos R$ 5,28 e voltando aos R$ 5,24.
“Essa crise é um pouco diferente do passado, quando observamos a busca por ativos seguros, como o ouro caindo agora, e tudo isso acabou se revertendo a uma consolidação maior do dólar nos últimos dias. É porque o impacto que se tem sobre o petróleo e commodities energéticas como um todo acaba repercutindo sobre todas as outras cadeias produtivas, de maneira direta ou indireta”, destaca Isabela Garcia, analista de Inteligência de Mercado da Stonex, acrescentando que, se há um impacto inflacionário relevante, o dólar volta a ser o refúgio dos investidores. “Há uma interpretação de que estaria um pouco mais ‘blindado’ [investimento em dólar], mais seguro para os investidores depois de um ano de bastante desvalorização.”
É natural que, em um ambiente de tensão geopolítica, o dólar tenda naturalmente a se fortalecer frente às moedas emergentes. “No curto prazo, esse movimento pode persistir enquanto o mercado continuar precificando risco elevado, mas sua intensidade dependerá da evolução do conflito e dos fundamentos macroeconômicos domésticos”, diz Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas.
As consequências da escalada do conflito, principalmente, derivam da disrupção da cadeia de suprimentos, muito por conta do estreito de Hormuz, mas o temor está em relação ao prazo da guerra. O medo histórico do mercado, segundo Matheus Spiess, economista e especialista em investimentos da Empiricus, é um novo “Liancourt”, porque, historicamente, os choques geopolíticos na região são de curtíssimo até médio prazo, não de “um horizonte muito dilatado de tempo”. “Historicamente, em 12 meses depois do choque, as ações, por exemplo, que sofrem no curtíssimo prazo, se recuperam. A exceção é a guerra do Liancourt, mas de lá para cá, a dependência do petróleo, do próprio estreito, diminuiu, é um novo mundo”, comenta Spiess. “As consequências não são as mesmas, mas gera estresse, principalmente porque há uma alteração do trade que vinha acontecendo de 2025 para o início de 2026, essa ideia de diversificação geográfica do dólar mais fraco.”
Desde o início da guerra, o Ibovespa recuou 4,41%, segundo a Elos Ayta. O dólar contra o real, antes do início do conflito, estava na casa dos R$ 5,12, e chegou a beirar os R$ 5,30, acumulando 2,29% de alta, mas o Brasil não foi o único a passar por uma desvalorização, visto que o enfraquecimento do dólar ao longo do ano passado também beneficiou diversas outras moedas. Com a guerra se acentuando, a tendência é que essa aversão ao risco, se solidifique ainda mais, o que tende a ser pior para moedas mais enfraquecidas no contexto global.
“O Brasil acaba sendo uma delas, mas não a única. Mesmo o euro, uma moeda forte, tem perdido para o dólar nos últimos dias. Mas é interessante que talvez não seja o suficiente para reverter completamente a situação, porque o Brasil é um importante exportador de petróleo”, pondera Isabela, da StoneX.
A tendência é que os custos relacionados a petróleo e energia causem um impacto muito grande sobre o custo das empresas, especialmente aquelas que dependem de derivados de petróleo, combustíveis e plástico. A escalada nos preços de produtos energéticos como um todo impacta a cadeia de preços de diversos setores, enquanto empresas do setor de petróleo tendem a se beneficiar nesse momento. A Petrobras, por exemplo, chegou a subir 7,14% desde o dia 27, enquanto Brava subiu 5,85%, a PetroRecsa 4,46% e a Petrorio 8,89%. O petróleo brent acumula alta de 28,37%. Para as empresas, os impactos costumam ocorrer principalmente pelo canal cambial e pelo comportamento das commodities. Companhias com custos dolarizados ou maior dependência de importações tendem a sentir pressão de margens caso o dólar permaneça mais forte, ao passo que exportadoras e ligadas ao setor de commodities podem encontrar um ambiente mais favorável, especialmente se a tensão geopolítica provocar alta nos preços internacionais de energia e matérias-primas.
O movimento tem gerado uma queda na bolsa. Nesta sexta-feira (6), o principal índice de ações brasileiro, o Ibovespa, fechou com queda de 0,61%, um recuo menos agressivo frente aos outros dias do conflito. Apesar da desvalorização, casas como a Privatto analisam que o principal risco de cauda para os mercados é o fechamento do Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás global. “Acreditamos que, no longo prazo, os riscos de manutenção do fechamento são baixos. Mercados de ações devem apresentar maior volatilidade no curto prazo, retornando a sua normalidade mais adiante”, diz o Multi Family Office, em relatório aos clientes, acrescentando que, nas últimas 4 décadas, houve 21 ataques da força aérea americana no Oriente Médio e África do Norte, regiões produtoras de petróleo e, imediatamente após o ocorrido, as ações geralmente caíram, enquanto o petróleo bruto, ouro, títulos da dívida americana e o dólar se valorizaram. “No entanto, oito semanas depois, as ações norte americanas subiram em 95% das vezes, enquanto o petróleo manteve os ganhos apenas em um terço das vezes.”
A dúvida paira sobre a continuidade do movimento de chegada do capital estrangeiro. Dados parciais da B3, sobre o fluxo de estrangeiros na Bolsa até o dia 3, apontam um saldo positivo de R$ 4,2 bilhões. Na análise de Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, do dia 3 para o dia 4 o cenário já estava complicado no sentido geopolítico. “No dia 4, o investidor estrangeiro entrou com R$ 692,82 milhões no mercado à vista. Quem teve venda nesse dia, que é o último dia que a gente tem aí de reporte, foi o investidor institucional local, que vendeu RR$ 622,31 milhões em Bolsa. Nesse ponto, o investidor institucional tem tido um olhar muito cauteloso em relação às ações brasileiras, tanto que, nesse ano, o saldo deles é negativo em R$ 31,69 bilhões em ações. Enquanto, o fluxo estrangeiro é de mais de R$ 42 bilhões no ano. Ainda é muito precoce para se falar numa retirada de recursos de capital estrangeiro”, opina.
Na esteira dos impactos, o mercado prevê ainda possíveis efeitos na trajetória da política monetária, que, aqui no Brasil, caminha para o início do ciclo de corte dos juros. Na avaliação da Meta Asset Management, especificamente em relação ao Brasil, a guerra (e a elevação do preço do petróleo) colocam inicialmente – considerando que ainda é muito cedo para qualquer previsão – em xeque o início da queda da taxa SELIC “programada” para março. “Cabe lembrar, no entanto, que as bandas em relação ao centro da meta são estabelecidas exatamente para acomodar choques de oferta (que seria uma potencial disparada da cotação do petróleo, com reflexo imediato na elevação dos preços dos derivados)”, diz Alexandre Póvoa, estrategista da Meta Asset Management, em relatório.
Fonte: Capital Aberto